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Índia prepara regra que obriga novas usinas solares e eólicas a instalar armazenamento de 10% por pelo menos 2 horas após desperdiçar quase 14% da geração solar

Índia prepara regra que obriga novas usinas solares e eólicas a instalar armazenamento de 10% por pelo menos 2 horas após desperdiçar quase 14% da geração solar

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Índia prepara regra que obriga novas usinas solares e eólicas a instalar armazenamento de 10% por pelo menos 2 horas após desperdiçar quase 14% da geração solar

Escrito por Roberta Souza

Publicado em 08/09/2026 às 14:31

Atualizado em 08/09/2026 às 14:35

Energia Renovável

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Proposta da Central Electricity Authority prevê que novos projetos solares em solo e parques eólicos onshore instalem armazenamento equivalente a pelo menos 10% de sua potência a partir de julho de 2027. Em 2029, a duração mínima subiria de duas para quatro horas, enquanto o país tenta impedir que excedentes de energia limpa continuem sendo desperdiçados.

A Índia prepara uma mudança importante na maneira como novas usinas renováveis serão construídas. A Central Electricity Authority (CEA) propôs que projetos solares em solo e parques eólicos onshore comissionados depois de 1º de julho de 2027 tenham sistemas de armazenamento instalados junto às usinas.

Pela proposta, o armazenamento deverá possuir potência equivalente a pelo menos 10% da capacidade instalada do projeto renovável e funcionar por, no mínimo, duas horas. Assim, uma usina solar de 100 MW, por exemplo, precisaria incorporar pelo menos 10 MW de armazenamento capazes de operar durante duas horas.

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A medida tenta resolver um problema que cresceu junto com a expansão renovável indiana: em determinados momentos do dia, o país já produz mais eletricidade solar do que sua rede consegue absorver ou transportar. Como resultado, operadores precisam reduzir a geração mesmo quando os painéis poderiam continuar produzindo.

Regra começaria em 1º de julho de 2027

A proposta estabelece uma data clara para a primeira etapa.

Novos projetos de energia solar instalada em solo e energia eólica onshore comissionados depois de 1º de julho de 2027 precisariam incorporar sistemas de armazenamento.

A potência mínima seria equivalente a 10% da capacidade da usina, enquanto a duração inicial exigida seria de duas horas.

Na prática, isso significa:

Imagem ilustrativa.

Esses números são exemplos matemáticos da aplicação da regra proposta, e não projetos específicos já anunciados.

Em 2029, exigência dobraria de duas para quatro horas

A CEA também pretende endurecer progressivamente o requisito.

Para projetos comissionados a partir de 1º de julho de 2029, a potência mínima permaneceria em 10% da capacidade renovável.

Entretanto, o período mínimo de armazenamento aumentaria de duas para quatro horas.

Assim, o mesmo projeto solar de 100 MW continuaria precisando de pelo menos 10 MW de potência de armazenamento, mas sua capacidade energética mínima passaria de 20 MWh para 40 MWh.

Portanto, a segunda etapa não dobra necessariamente a potência da bateria. Ela dobra a quantidade mínima de energia que o sistema precisa conseguir armazenar e entregar ao longo do tempo.

Índia chegou a cortar quase 14% da energia solar

O motivo para a mudança aparece nos próprios números do sistema elétrico.

Entre abril e junho de 2026, a Índia precisou restringir quase 14% de sua geração solar potencial, segundo dados citados pela Reuters.

O problema ocorreu porque havia excesso de eletricidade limpa durante determinados períodos do dia, enquanto a infraestrutura disponível não conseguia transportar ou absorver toda essa produção.

Assim, painéis capazes de produzir energia tiveram sua geração reduzida.

Esse processo é conhecido como curtailment, ou corte de geração.

Ele ocorre quando uma usina poderia gerar eletricidade, mas o operador solicita que ela diminua ou interrompa temporariamente a produção porque o sistema não consegue receber toda aquela energia naquele momento.

País desperdiçou quase 11 TWh solares em 15 meses

Outro levantamento mostra uma escala ainda maior.

Nos 15 meses anteriores ao início de setembro, a Índia restringiu aproximadamente 11 TWh de geração solar, segundo dados governamentais e pesquisa da Ember divulgados pela Associated Press.

Essa quantidade seria suficiente, segundo a reportagem, para abastecer aproximadamente 10 milhões de residências.

O paradoxo chama atenção porque aconteceu justamente enquanto a demanda indiana por eletricidade crescia.

Em períodos de calor intenso, aparelhos de ar-condicionado elevam o consumo. Ao mesmo tempo, a demanda continua alta depois que o sol desaparece e a produção fotovoltaica despenca.

É justamente nessa diferença entre horário de geração e horário de consumo que as baterias ganham importância.

Baterias guardariam energia do meio do dia para a noite

O funcionamento é relativamente simples.

Durante as horas de forte incidência solar, uma usina pode gerar mais eletricidade do que a rede necessita naquele instante.

Sem armazenamento suficiente, parte desse excedente precisa ser cortada.

Com uma bateria instalada junto ao projeto, parte da eletricidade pode ser armazenada.

Depois, quando o sol se põe e a geração fotovoltaica diminui, o sistema pode descarregar a energia acumulada.

Dessa forma, o armazenamento desloca eletricidade no tempo.

Em vez de obrigatoriamente consumir a energia no mesmo instante em que ela é produzida, o sistema consegue guardar parte dela para um período de maior necessidade.

Índia já possui mais de 300 GW de capacidade limpa

O desafio cresceu porque a expansão renovável indiana ganhou enorme escala.

O país já possui mais de 300 GW de capacidade de energia limpa instalada, representando mais da metade da capacidade elétrica total.

Além disso, a Índia estabeleceu a meta de alcançar 500 GW de capacidade baseada em fontes não fósseis até 2030.

Solar e eólica terão participação importante nessa expansão.

Entretanto, ambas são fontes variáveis.

Painéis solares dependem da radiação disponível, enquanto turbinas eólicas dependem da velocidade dos ventos.

Por isso, aumentar apenas a quantidade de usinas sem expandir armazenamento, transmissão e flexibilidade operacional pode criar novos gargalos.

Índia é o terceiro maior gerador solar do planeta

A dimensão internacional torna a proposta ainda mais relevante.

A Índia já aparece como o terceiro maior produtor de energia solar do mundo.

Isso significa que mudanças regulatórias adotadas pelo país podem movimentar uma cadeia gigantesca de baterias, inversores, sistemas de controle, eletrônica de potência e equipamentos auxiliares.

Cada novo projeto renovável enquadrado na regra precisaria considerar armazenamento desde sua concepção.

Consequentemente, as baterias deixariam de ser apenas um equipamento opcional para determinados empreendimentos e passariam a integrar o projeto básico das novas instalações atingidas pela regulamentação.

Brasil enfrenta problema semelhante com energia desperdiçada

Embora os sistemas elétricos sejam diferentes, o problema de excesso de geração renovável também ganhou importância no Brasil.

O Nordeste brasileiro expandiu rapidamente suas usinas solares e eólicas. Entretanto, limitações de transmissão e necessidades operacionais levaram a cortes crescentes de geração.

Por isso, o armazenamento passou a ocupar espaço no planejamento energético brasileiro.

O CPG mostrou que o Brasil prepara seu primeiro leilão de baterias em grande escala para armazenar excedentes solares e eólicos e liberar eletricidade quando o sistema precisar.

A diferença está na estratégia regulatória. Enquanto o Brasil prepara contratação específica de capacidade de armazenamento, a Índia agora propõe incorporar o armazenamento diretamente aos novos projetos renováveis atingidos pela regra.

A proposta atual não surgiu do zero.

Em fevereiro de 2025, a própria CEA havia publicado uma orientação recomendando que projetos solares incorporassem armazenamento equivalente a pelo menos 10% da capacidade instalada por duas horas.

Naquele momento, porém, tratava-se de uma recomendação.

Agora, a autoridade pretende transformar essa referência técnica em um requisito para novos projetos enquadrados na regulamentação a partir de julho de 2027.

Portanto, a grande mudança está justamente na passagem de uma orientação para uma exigência regulatória proposta.

País prevê necessidade gigantesca de baterias

O governo indiano já calcula que a expansão renovável exigirá armazenamento em uma escala muito maior.

Segundo informações oficiais divulgadas pelo Ministério de Energia, o National Electricity Plan projetou necessidade de aproximadamente 47,24 GW / 236 GWh de BESS até 2031-32.

O investimento estimado associado a essa necessidade chega a aproximadamente 3,49 lakh crore de rúpias.

Além das baterias, o país também projeta forte crescimento das usinas hidrelétricas reversíveis.

Para 2031-32, a necessidade estimada dessa tecnologia chega a 26,69 GW / 175 GWh.

Assim, a Índia não aposta em uma única solução. O planejamento combina baterias eletroquímicas, armazenamento hidráulico, expansão de transmissão e mudanças operacionais na rede.

Índia já possui uma “bateria verde” de 1.680 MW

Uma das maiores demonstrações dessa estratégia está em Andhra Pradesh.

O Pinnapuram Integrated Renewable Energy Project combina geração solar, eólica e armazenamento hidrelétrico reversível.

O empreendimento foi concebido com 4.000 MW de energia solar, 1.000 MW de eólica e 1.680 MW de armazenamento por bombeamento.

Em vez de células eletroquímicas, o sistema utiliza dois reservatórios artificiais.

Quando existe excedente renovável, bombas levam água para o reservatório superior. Posteriormente, quando a rede precisa de eletricidade, a água desce pelas turbinas e volta a gerar energia.

O CPG detalhou como o projeto de Pinnapuram utiliza dois reservatórios artificiais e 1.680 MW de armazenamento para transformar excedentes solares e eólicos em eletricidade despachável.

A nova proposta da CEA complementa essa estratégia ao levar armazenamento também para novos parques solares e eólicos.

Governo prevê 208 GWh de baterias já em 2030

Outra projeção oficial mostra a velocidade esperada dessa transformação.

Em março de 2026, o governo informou que o National Electricity Plan projetava aproximadamente 208 GWh de sistemas BESS necessários até 2030 para integrar a expansão renovável.

Naquele momento, 35,8 GWh de capacidade BESS já estavam em construção.

Além disso, o governo implementa programas de apoio financeiro para acelerar aproximadamente 43 GWh de novos sistemas de armazenamento.

Esses números mostram que a proposta de obrigatoriedade aparece dentro de uma política muito maior.

O país está simultaneamente criando demanda, financiando projetos, incentivando fabricação e modificando as regras técnicas da rede.

Índia reserva 10 GWh para fabricação de baterias estacionárias

A estratégia também alcança a indústria.

O governo possui um programa de incentivo à produção de células de química avançada com orçamento de 18.100 crore de rúpias.

A meta geral envolve 50 GWh de capacidade de fabricação.

Desse total, 10 GWh são reservados para armazenamento estacionário em escala de rede.

Portanto, a expansão do mercado de baterias não depende exclusivamente de importações.

A Índia também tenta desenvolver uma cadeia doméstica capaz de atender parte da demanda criada pela transição energética.

Nova regra também exigiria inversores capazes de estabilizar a rede

As baterias representam apenas uma parte da proposta.

A CEA também pretende exigir tecnologia conhecida como grid-forming nos inversores.

Projetos renováveis comissionados depois de julho de 2027 precisariam ter pelo menos 15% dos inversores equipados com controles grid-forming.

Além disso, os sistemas de conversão de potência associados aos BESS também precisariam possuir essa capacidade.

A função é importante porque redes elétricas tradicionais foram construídas ao redor de grandes geradores síncronos, como aqueles utilizados em usinas térmicas e hidrelétricas.

À medida que solar, eólica e baterias ganham participação, a eletrônica de potência precisa assumir parte das funções necessárias para manter o sistema estável.

Grid-forming ajuda a controlar tensão e frequência

Uma rede elétrica precisa manter parâmetros técnicos dentro de limites rigorosos.

Dois deles são especialmente importantes: frequência e tensão.

Quando geração e consumo se desequilibram rapidamente, esses parâmetros podem sofrer alterações.

Tecnologias grid-forming permitem que inversores participem de maneira mais ativa da estabilização do sistema.

Consequentemente, a proposta indiana não tenta apenas armazenar energia excedente.

Ela também prepara a infraestrutura renovável para desempenhar funções que se tornam cada vez mais importantes à medida que fontes baseadas em inversores ocupam parcela maior da matriz.

Carvão ainda produz grande parte da eletricidade indiana

Apesar da expansão renovável, o carvão continua central para o sistema elétrico da Índia.

O país possui enorme capacidade solar e eólica, mas as usinas térmicas ainda fornecem grande parcela da geração efetiva.

Isso acontece, entre outros motivos, porque elas conseguem produzir eletricidade de forma controlável durante diferentes horários.

Baterias podem alterar gradualmente essa relação.

Ao armazenar eletricidade solar durante o dia e entregá-la durante o pico noturno, o sistema reduz uma das principais limitações da fonte fotovoltaica.

Entretanto, armazenamento não elimina sozinho a necessidade de outras fontes, transmissão e flexibilidade operacional.

Baterias não resolvem o gargalo de transmissão inteiro

A proposta também possui limites.

Quando uma região produz grande quantidade de energia e não possui linhas suficientes para transportar essa eletricidade para os centros consumidores, baterias podem aliviar parte da pressão.

Porém, elas não substituem completamente novas linhas de transmissão.

Se o problema for estrutural e persistente, a energia armazenada ainda precisará chegar ao consumidor em algum momento.

Por isso, especialistas defendem uma combinação de soluções: armazenamento, transmissão, distribuição geográfica das renováveis e maior flexibilidade das usinas convencionais.

A Índia tenta avançar em todas essas frentes simultaneamente.

Megabaterias também avançam no Brasil

Essa discussão ganha importância justamente quando o Brasil enfrenta seus próprios cortes de geração renovável.

Com mais solar e eólica conectadas ao Sistema Interligado Nacional, armazenar excedentes pode permitir que parte da eletricidade hoje restringida seja utilizada horas depois.

O CPG já mostrou como megabaterias estão entrando no planejamento brasileiro para armazenar energia solar e eólica e reforçar a estabilidade do sistema elétrico.

A experiência indiana, portanto, pode servir como referência internacional sobre uma alternativa regulatória mais rígida: exigir que o próprio projeto renovável nasça acompanhado de capacidade mínima de armazenamento.

Regra ainda é uma proposta, não obrigação definitiva

Esse é o principal cuidado editorial da pauta.

A Índia ainda não colocou a exigência definitivamente em vigor.

O documento divulgado pela Central Electricity Authority é uma proposta de alteração regulatória.

Portanto, títulos afirmando que “a Índia já obrigou todas as usinas renováveis a instalar baterias” seriam imprecisos.

Além disso, a proposta não abrange indiscriminadamente qualquer instalação renovável existente.

O foco está em novos projetos solares em solo e eólicos onshore enquadrados nas regras e comissionados depois das datas estabelecidas.

De 10 MW por duas horas para 10 MW por quatro horas

A progressão prevista mostra como o governo pretende aumentar gradualmente a flexibilidade.

Considere novamente uma usina solar de 100 MW.

A partir de julho de 2027, ela precisaria, dentro da proposta, de pelo menos 10 MW de armazenamento por duas horas, equivalentes a 20 MWh.

A partir de julho de 2029, a potência mínima permaneceria em 10 MW, mas o sistema precisaria operar durante quatro horas.

Nesse caso, a capacidade energética subiria para 40 MWh.

Assim, a Índia cria um período de adaptação antes de dobrar a duração mínima.

Índia tenta fazer cada nova usina chegar preparada para guardar energia

A mudança sintetiza um novo estágio da transição energética.

Durante anos, o principal desafio foi instalar painéis solares e turbinas eólicas em quantidade suficiente para reduzir custos e ampliar a geração limpa.

Agora, países com grandes volumes renováveis enfrentam outro problema: o que fazer quando toda essa energia chega à rede ao mesmo tempo.

Na Índia, a resposta proposta pela CEA é começar a construir o armazenamento junto com a própria geração.

A regra começaria com 10% da potência por duas horas em julho de 2027 e avançaria para quatro horas em julho de 2029.

Ao mesmo tempo, tecnologias grid-forming ajudariam novos projetos a participar mais ativamente da estabilidade elétrica.

Depois de restringir quase 14% da geração solar potencial entre abril e junho, o país sinaliza que simplesmente instalar mais painéis já não basta.

A próxima fase exigirá conseguir guardar a eletricidade quando existe excesso e entregá-la justamente quando o sistema mais precisa.

E você, acredita que o Brasil deveria seguir uma estratégia parecida e exigir armazenamento junto a novos parques solares e eólicos, ou seria melhor deixar as baterias para leilões e projetos independentes?

Tags

Energia Renovável

Fonte

Reuters


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Roberta Souza.

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