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Japão troca uma muralha antimíssil em terra por um monstro que flutua, constrói navio de 12 mil toneladas e 189 metros com 128 células de disparo, radar gigantesco e espaço para armas capazes de atingir alvos a 1.600 km
Escrito por Ana Alice
Publicado em 04/09/2026 às 23:06
Atualizado em 04/09/2026 às 23:07
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Dois enormes navios Aegis em construção no Japão transformarão um projeto terrestre cancelado em plataformas móveis de defesa antimíssil, com radares avançados, 128 células de lançamento e capacidade prevista para receber armas de longo alcance.
O Japão está transformando um projeto que originalmente deveria permanecer em terra em dois dos maiores navios de combate de superfície já construídos para sua força naval.
Com cerca de 190 metros de comprimento, 25 metros de largura, deslocamento padrão próximo de 12.000 toneladas e 128 células de lançamento vertical, os Aegis System Equipped Vessels, conhecidos pela sigla ASEV, foram concebidos principalmente para detectar e interceptar mísseis antes que eles alcancem o território japonês.
Os dois navios já estão em construção.
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Paulo Nogueira
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O primeiro teve a quilha assentada em 18 de julho de 2025, no estaleiro da Mitsubishi Heavy Industries em Nagasaki.
O segundo entrou formalmente nessa etapa em 5 de fevereiro de 2026, nas instalações da Japan Marine United em Yokohama.
A previsão atual é que a primeira unidade entre em serviço até o fim do ano fiscal de 2027, em março de 2028, e a segunda no ano fiscal seguinte.
A construção avançou visivelmente durante 2026.
No fim de agosto, imagens do primeiro ASEV mostraram a instalação de sua enorme estrutura de mastro integrado, que dará ao navio uma silhueta incomum mesmo para os padrões de grandes contratorpedeiros.
Os quatro painéis do radar SPY-7 ainda fazem parte de um processo separado de integração.
Em 17 de agosto, a Lockheed Martin informou que havia concluído a validação do primeiro conjunto completo e preparava o equipamento para envio ao Japão ainda em 2026.
Projeto nasceu de um sistema que deveria ficar em terra
A origem do ASEV ajuda a explicar por que ele é tão diferente de um contratorpedeiro convencional.
O Japão havia planejado instalar duas unidades terrestres do Aegis Ashore, uma em Akita e outra em Yamaguchi.
O sistema usaria radares e interceptadores para manter uma cobertura permanente contra ataques com mísseis, em especial diante do avanço do programa balístico norte-coreano.
O projeto terrestre começou a desmoronar em 2020.
Naquele ano, o então ministro da Defesa Taro Kono explicou que o Japão não conseguia garantir apenas com alterações de software que os propulsores descartados pelos interceptadores cairiam dentro das áreas militares previstas.
A solução exigiria modificações de hardware, com novos custos e um prazo considerado excessivo pelo governo.
Havia também forte sensibilidade entre moradores próximos aos locais selecionados.
Em vez de abandonar os equipamentos e a lógica de defesa antimíssil, Tóquio decidiu deslocar parte do conceito para o mar.
Isso criou uma necessidade peculiar.
O novo navio teria de carregar sensores muito grandes, gerar enorme quantidade de eletricidade, refrigerar equipamentos eletrônicos de alta potência, permanecer longos períodos em missão e manter estabilidade suficiente para acompanhar ameaças que podem viajar a milhares de quilômetros por hora.
O resultado foi um casco maior do que qualquer atual contratorpedeiro Aegis japonês.
São 12.000 toneladas para carregar um radar gigantesco
Um ASEV terá aproximadamente 190 metros de comprimento e 25 metros de boca, com deslocamento padrão de cerca de 12.000 toneladas.
Para comparação, os contratorpedeiros japoneses da classe Maya medem aproximadamente 170 metros e deslocam cerca de 8.200 toneladas em condição padrão.
A diferença é substancial para navios concebidos em torno do mesmo ecossistema Aegis.
O tamanho não foi escolhido apenas para impressionar.
No centro do projeto está o AN/SPY-7(V)1, radar de varredura eletrônica ativa desenvolvido pela Lockheed Martin.
O sistema utiliza quatro grandes faces fixas, cada uma com cerca de 4,3 metros de altura, permitindo cobertura ao redor do navio sem depender da rotação de uma antena convencional.
Segundo o Ministério da Defesa japonês, o SPY-7 deverá oferecer aproximadamente cinco vezes a capacidade de rastreamento do SPY-1 presente nos atuais navios Aegis do país.
A prioridade é acompanhar ameaças como mísseis balísticos em trajetórias elevadas e múltiplos lançamentos simultâneos.
A altura do conjunto também possui outra utilidade.
Uma posição elevada e desobstruída amplia o horizonte do radar, algo relevante quando a ameaça é um míssil de cruzeiro ou drone voando baixo e aproveitando a curvatura da Terra para permanecer oculto durante parte da aproximação.
Em março de 2026, a Lockheed Martin informou que o sistema destinado ao ASEV havia completado seu primeiro exercício de rastreamento de alvos reais, detectando, identificando e acompanhando objetos antes de simular engajamentos.
As 128 células transformam o convés em um enorme arsenal
O número mais chamativo aparece quando se olha para os lançadores.
Cada ASEV terá 128 células Mk 41 VLS, distribuídas em dois conjuntos de 64 células, um na parte dianteira e outro na seção traseira do navio.
É mais do que os 96 tubos instalados nos contratorpedeiros japoneses da classe Maya e também supera os 96 encontrados nos Arleigh Burke Flight IIA e Flight III da Marinha dos Estados Unidos.
Isso não significa que o navio carregará necessariamente 128 mísseis do mesmo tipo.
As células formam uma espécie de estoque modular no qual diferentes armas podem ser distribuídas conforme a missão.
Entre os componentes centrais estarão os SM-3 Block IIA, destinados à interceptação de mísseis balísticos, e os SM-6, empregados contra diferentes ameaças aéreas e com capacidade prevista pelo Japão para enfrentar alvos avançados, inclusive durante determinadas fases de voo de armas hipersônicas.
O casco foi projetado ainda com margem para receber sistemas que hoje continuam em desenvolvimento.
Um deles é o Glide Phase Interceptor, ou GPI, projeto conjunto entre Japão e Estados Unidos destinado a interceptar veículos planadores hipersônicos durante a fase de planeio, uma das partes mais difíceis de uma trajetória desse tipo.
O programa existe, mas há uma correção importante em relação a algumas descrições do projeto.
O GPI ainda não está pronto para equipar os ASEV.
O Ministério da Defesa japonês informa que o desenvolvimento segue com objetivo de conclusão na década de 2030.
Coreia do Norte continua testando mísseis em 2026
O cenário que motivou o Japão a investir nesses navios permanece atual.
Somente em agosto de 2026, a Coreia do Norte realizou novos lançamentos acompanhados diretamente por Tóquio.
Em 6 de agosto, o Ministério da Defesa japonês informou que Pyongyang havia lançado pelo menos um míssil balístico.
Seis dias depois, em 12 de agosto, outro projétil percorreu aproximadamente 690 quilômetros e caiu no Mar do Japão, fora da zona econômica exclusiva japonesa.
A China representa outro componente dessa preocupação.
O Ministério da Defesa japonês afirma que Pequim continua ampliando quantitativa e qualitativamente suas forças militares e destaca o avanço de mísseis balísticos, armas de precisão e sistemas hipersônicos.
O próprio governo japonês cita o DF-17, capaz de transportar um veículo planador hipersônico, entre os exemplos relevantes para sua defesa antimíssil.
A Rússia também aparece no planejamento de segurança de Tóquio.
O Ministério da Defesa aponta a continuidade da atividade militar russa no Extremo Oriente e a modernização de forças próximas ao Japão, além da crescente coordenação estratégica entre Moscou e Pequim.
É nesse contexto que os ASEV funcionam como o “muro” do projeto japonês.
Não se trata de uma barreira física, mas de duas grandes plataformas móveis capazes de procurar, acompanhar e tentar interceptar ameaças aéreas e balísticas a grandes distâncias.
Escudo também deverá ganhar capacidade de ataque
Embora tenham sido concebidos principalmente para a defesa antimíssil, os ASEV não ficarão restritos a essa função.
O Japão pretende dar aos navios capacidade para receber armas de longo alcance, incluindo a versão naval do míssil japonês derivado do Type 12 e o Tomahawk americano.
Documentos e apresentações do Ministério da Defesa preveem também margem de crescimento para sistemas futuros.
Isso ocorre enquanto o país já acelera sua capacidade de ataque a distância em outras plataformas.
Em março de 2026, o Ministério da Defesa informou que o contratorpedeiro JS Chokai havia concluído modificações para operar Tomahawks.
Em julho, o navio realizou um disparo real, confirmado pelo governo japonês no mês seguinte.
O planejamento divulgado anteriormente prevê que armas como Tomahawk, a variante naval do Type 12 e sistemas de laser de alta potência possam ser incorporados aos ASEV em etapas posteriores, a partir da próxima década.
Primeiro gigante já recebeu a estrutura de sua enorme torre
O avanço mais recente pôde ser visto no estaleiro de Nagasaki.
No fim de agosto de 2026, o primeiro casco apareceu com sua grande estrutura de mastro instalada.
A dimensão chamou atenção porque ela precisará acomodar os sensores responsáveis por uma das principais missões da embarcação.
Ao mesmo tempo, a Lockheed Martin concluiu nos Estados Unidos a validação do primeiro conjunto totalmente integrado destinado ao navio, incluindo as quatro faces do SPY-7, processamento de radar, sistemas de energia e refrigeração e os computadores do Aegis.
A empresa informou em 17 de agosto que o equipamento seria preparado para envio ao Japão ainda em 2026.
O Ministério da Defesa também incluiu novos recursos para os dois navios no pedido orçamentário do ano fiscal de 2027, principalmente para a preparação dos testes necessários antes da entrada em serviço.
A primeira unidade permanece prevista para ser incorporada até março de 2028, enquanto a segunda deve chegar à frota até o fim do ano fiscal seguinte, em março de 2029.
Quando isso acontecer, o projeto que começou como duas instalações fixas em solo japonês terá terminado em algo bastante diferente.
Serão dois navios de 12.000 toneladas, com radares capazes de observar o céu em todas as direções e 128 células verticais prontas para receber diferentes tipos de interceptadores e, futuramente, armas de maior alcance.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

