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Japonês encontra árvores destruídas por ursos, transforma as cicatrizes da madeira em peças valiosas e cria projeto que une arte, conservação e uma nova forma de enxergar o problema
Escrito por Carla Teles
Publicado em 27/09/2026 às 18:46
Atualizado em 27/09/2026 às 18:50
Economia
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A madeira marcada por ursos ganha nova função no trabalho de Takuya Tsutsumi, artesão japonês que usa urushi para destacar cicatrizes antes rejeitadas pela indústria, cria peças utilitárias e artísticas e transforma o problema do kumahagi em ponto de partida para discutir conservação, biodiversidade e convivência nas florestas japonesas atuais.
A madeira que perde valor comercial depois de ser danificada por ursos nas florestas japonesas encontrou um destino diferente nas mãos do artesão Takuya Tsutsumi. Em vez de esconder as deformações deixadas nos troncos, ele passou a realçá-las com uma resina tradicional e transformá-las em parte central de móveis, objetos e peças de uso cotidiano.
A iniciativa foi detalhada pela CNN Brasil em 27 de setembro de 2026. Tsutsumi, proprietário da quarta geração da Tsutsumi Asakichi Urushi Inc., em Kyoto, criou o Bears Wood Project em 2022 para aproveitar árvores afetadas pelo chamado kumahagi e, ao mesmo tempo, estimular outra discussão sobre a relação entre pessoas, florestas e ursos no Japão.
Ursos retiram a casca e deixam marcas que reduzem o valor das árvores
O problema começa quando os ursos saem da hibernação e arrancam partes da casca das árvores em busca da seiva e dos nutrientes encontrados abaixo dela. No Japão, esse comportamento é conhecido como kumahagi, ou descascamento provocado por ursos.
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Quando a árvore sobrevive, o crescimento pode continuar de maneira irregular ao redor da área exposta. A consequência aparece depois na serraria: a madeira pode apresentar deformações, descoloração e dificuldade para ser cortada em peças retas e padronizadas, características que reduzem seu aproveitamento comercial.
Cedro japonês pode perder pelo menos 25% do valor
Segundo Tsutsumi, uma árvore padrão de cedro japonês pode perder no mínimo 25% de seu valor depois de sofrer danos causados por ursos. Mesmo após o corte, problemas internos podem aparecer e reduzir ainda mais o aproveitamento do material.
O impacto é maior porque os animais costumam atingir árvores grandes, saudáveis e de boa qualidade, algumas cultivadas durante 60 a 80 anos. Para quem trabalha na floresta, portanto, a perda não é apenas econômica: envolve árvores cuidadas por décadas e, em alguns casos, por diferentes gerações.
Takuya Tsutsumi decidiu não esconder as cicatrizes da madeira
Foi justamente nessa irregularidade que o artesão encontrou outra possibilidade. Tsutsumi trabalha com urushi, uma resina natural utilizada há séculos no Japão para criar acabamentos brilhantes e resistentes em objetos artesanais.
Em vez de corrigir visualmente as partes afetadas pelo kumahagi, ele adotou a lógica oposta. As marcas, os veios deformados e as superfícies irregulares passaram a ser destacados, fazendo com que características antes consideradas defeitos industriais se tornassem elementos visuais das peças.
Bears Wood Project nasceu em 2022 para reaproveitar árvores danificadas
Em 2022, Tsutsumi lançou o Bears Wood Project, iniciativa criada para evitar que árvores antigas afetadas pelos ursos terminassem simplesmente trituradas ou descartadas por não atenderem aos padrões convencionais da indústria.
A proposta combina o reaproveitamento da madeira com a aplicação do urushi. Quanto mais irregular é o material, segundo o artesão, maior pode ser a possibilidade de evidenciar sua individualidade por meio do trabalho manual.
Madeira marcada pelos ursos virou prancha, skate, cadeira e até material de reforma
O projeto deixou de ser apenas uma experiência artística isolada. A madeira afetada pelos animais passou a ser utilizada em objetos com funções bastante diferentes, ampliando as possibilidades comerciais para um material que anteriormente enfrentava rejeição.
Entre as criações citadas estão pranchas de surfe, skates, agarras para paredes de escalada, placas para estúdios de tatuagem, cadeiras e materiais de reforma residencial. As peças finalizadas são comercializadas pela empresa em Kyoto.
Projeto tenta mudar uma discussão cada vez mais tensa no Japão
A iniciativa surgiu num momento em que os ursos se tornaram um tema sensível no país. Entre abril de 2025 e março de 2026, esses animais estiveram associados a 13 mortes e mais de 220 ferimentos, segundo dados citados pela CNN Brasil.
O governo japonês passou a tratar a situação como ameaça à segurança pública, enquanto setores afetados economicamente também aumentaram a pressão por respostas. Tsutsumi considera que a combinação entre conflitos, prejuízos e medo reforçou uma discussão muitas vezes centrada apenas em perigo e abate.
Menor presença humana nas florestas também entra na explicação
Tsutsumi relaciona o agravamento do problema a diferentes fatores. Um deles é a redução da presença humana em algumas áreas florestais, situação que, em sua avaliação, contribui para que os ursos percam parte do receio de se aproximar de ambientes utilizados pelas pessoas.
Ele também cita as mudanças climáticas, que podem interferir no crescimento de alimentos presentes na dieta natural dos animais. A combinação desses fatores aumenta a complexidade do conflito e dificulta respostas baseadas em uma única causa.
Árvores danificadas também podem ter valor para a biodiversidade
O Bears Wood Project acrescenta outra camada ao debate porque árvores marcadas, ocas ou mesmo em decomposição também desempenham funções ecológicas. Liam Adcock, pesquisador do Centro de Pesquisa da Vida Selvagem de Picchio, explicou que esse material fornece alimento e habitat para diversos organismos.
Com o tempo, árvores danificadas podem desenvolver cavidades utilizadas por animais e plantas. Esses espaços são particularmente importantes para espécies que dependem de árvores antigas, mostrando que uma árvore considerada problemática do ponto de vista comercial pode continuar importante dentro do ecossistema.
Coruja ameaçada depende de árvores grandes com cavidades
Um dos exemplos citados pelo pesquisador é a coruja-pescadora-de-Blakiston, espécie ameaçada de extinção que utiliza grandes árvores maduras e cavidades para nidificação.
Segundo a reportagem, restam cerca de 150 exemplares no Japão. A informação ajuda a mostrar por que o debate sobre manejo das florestas envolve mais elementos do que simplesmente retirar árvores danificadas e substituir aquelas que perderam valor econômico.
Workshops usam um pedaço de madeira para discutir conservação
Além de comercializar as peças, a empresa realiza workshops voltados à relação entre pessoas, animais e florestas. Desde o lançamento do projeto, mais de uma dezena dessas sessões havia sido organizada.
Os participantes conhecem o problema dos ursos asiáticos japoneses e observam como um único pedaço de madeira pode servir de ponto inicial para discutir conservação. A intenção de Tsutsumi é aproximar uma questão ambiental ampla de um objeto que pode ser tocado, utilizado e levado para casa.
Trabalho procura substituir a ideia de defeito pela de identidade
O princípio visual do projeto é simples: não esconder aquilo que aconteceu com a árvore. As marcas produzidas pelo kumahagi permanecem visíveis e são acentuadas pelo acabamento aplicado pelo artesão.
Isso transforma a irregularidade em parte da história do objeto. O que prejudicava a padronização da madeira na indústria passa a diferenciar cada peça, criando uma relação direta entre o produto final e o episódio ocorrido na floresta.
Madeira de urso passa a carregar também a história do conflito
Segundo Tsutsumi, compradores das peças não se interessam apenas porque determinado objeto foi feito com uma árvore marcada por um urso. Parte deles também se identifica com a proposta de criar uma relação em que os trabalhadores das florestas e os animais possam ser considerados dentro da mesma discussão.
É essa ideia que transforma o Bears Wood Project em algo maior do que simples reaproveitamento de material. A madeira deixa de representar apenas prejuízo e passa a funcionar como registro físico de um conflito entre economia, fauna e conservação.
Projeto transforma cicatriz da árvore em ponto de partida para outra visão
Tsutsumi não apresenta o trabalho como solução completa para os conflitos envolvendo ursos no Japão. A proposta é usar arte, artesanato e contato com a floresta para ampliar a forma como o problema é discutido.
No lugar de apagar as marcas deixadas pelos animais, ele as mantém no centro das peças. Assim, a mesma madeira que poderia perder valor ou ser descartada ganha outra função e leva consigo a história da árvore, do urso e das pessoas que dependem daquela floresta.
Você acha que transformar madeira danificada em produtos valorizados pode ajudar a mudar a maneira como as pessoas enxergam conflitos entre animais selvagens e atividades humanas? Deixe sua opinião nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

