Faça um comentário
7 min de leitura
Justiça libera retomada parcial da Mina de Fábrica, da Vale, 241 dias depois de quase 263 mil m³ de água turva vazarem em Ouro Preto, mas as cavas Área 3 e Área 4 seguem proibidas
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 24/09/2026 às 20:27
Atualizado em 24/09/2026 às 20:28
Economia
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
A decisão de 23 de setembro de 2026 se apoia numa perícia da consultoria AECOM e num termo de compromisso com o Ministério Público e o governo de Minas; a Mina de Fábrica estava parada desde janeiro, quando a água de uma cava chegou à área da CSN e ao rio Goiabeiras.
A Justiça de Minas autorizou em 23 de setembro de 2026 a retomada parcial da Mina de Fábrica, da Vale, em Ouro Preto, 241 dias depois do vazamento de quase 263 mil m³ de água turva.
A Vale comunicou a decisão ao mercado no mesmo dia.
A autorização do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) faz parte de um termo de compromisso assinado pela mineradora com o Ministério Público estadual e com o governo de Minas, informa a Agência Brasil.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
A Mina de Fábrica, que produz minério de ferro, fica entre Ouro Preto e Congonhas, registra O Fator. A liberação não vale para a mina inteira.
Mina de Fábrica volta só nas áreas que a perícia aprovou
A decisão é da juíza Mônica Silveira Vieira, relata O Fator, que publicou os detalhes no mesmo dia. Antes dela, o Ministério Público, o governo estadual e a Vale informaram ao processo que a perícia da consultoria AECOM apontou condições para a volta.
A decisão detalha que a Vale só pode religar as áreas avaliadas pela perícia, e nas condições fixadas por ela. Também precisa seguir as recomendações técnicas, as licenças ambientais e as demais obrigações do termo de compromisso.
As cavas Área 3 e Área 4 ficaram de fora. A perícia não chegou a uma conclusão final sobre a segurança das duas, registra O Fator.
Para usá-las, a mineradora terá de apresentar uma avaliação técnica específica, mostrando que as estruturas atendem aos requisitos de segurança, operação e meio ambiente.
Outras áreas da Mina de Fábrica sem o aval da AECOM, ou que ainda não cumpriram as exigências, também continuam paradas, segundo O Fator.
Duas chaves para religar: o laudo e a Justiça
O termo de compromisso amarrou a volta a dois passos, explica O Fator. Primeiro, uma avaliação técnica tinha de apontar condições para o retorno. Depois, o Judiciário precisava analisar os documentos da mineradora.
Pelo relato de O Fator, a AECOM avaliou o que a mineradora fez depois de janeiro: obras para melhorar a drenagem, retirada de material, estruturas para reduzir a força da água e segurar sedimentos, além do monitoramento das áreas.
Com os relatórios da empresa na mesa, a consultoria deu como cumpridos três requisitos iniciais. O laudo registrou ressalvas. Ele recomendou ajustes em procedimentos internos da Vale, que ainda serão acompanhados por uma auditoria independente.
Prazo de 90 dias começa a correr no reinício
São 90 dias, contados a partir do reinício das atividades, para a Vale apresentar duas etapas pendentes de uma exigência do acordo, detalha O Fator.
A empresa precisa criar um procedimento formal para encerrar obras. Ele inclui registro de cada etapa executada, conferência em campo para ver se o projeto foi seguido e retirada das estruturas provisórias.
Também terá de informar e treinar empregados e terceirizados sobre os procedimentos revisados. Segundo O Fator, a Auditoria Técnica Independente segue acompanhando as medidas, e a mineradora deve manter inspeções, monitoramento, manutenção e gerenciamento de riscos.
O que escapou da cava em 25 de janeiro
O vazamento aconteceu em 25 de janeiro de 2026, numa das cavas da Mina de Fábrica, registra a Agência Brasil.
Cava é a área escavada para retirar o minério. Quando acumula água de chuva, ela depende de um sistema de drenagem para que essa água não transborde.
Escaparam quase 263 mil metros cúbicos de água turva, informa a agência. É o volume de cerca de 105 piscinas olímpicas, na comparação feita por ela.
A conta fecha com a piscina olímpica padrão, de 50 m por 25 m e 2 m de fundo, ou 2.500 m³: 263.000 dividido por 2.500 dá 105,2.
A ação do Ministério Público, citada pela agência, afirma que a água atingiu cursos d’água que alimentam o rio Paraopeba, com assoreamento de córregos e danos à vegetação.
O material chegou à área da CSN, outra mineradora, e causou danos materiais, segundo a Agência Brasil. Também alcançou o rio Goiabeiras.
MP aponta a drenagem; Vale fala em água com sedimentos
Na ação, o Ministério Público sustentou que houve falha no sistema de drenagem do reservatório da mina.
Na época, a Vale deu a sua versão. Disse que não houve feridos e que a população e as comunidades do entorno não foram afetadas. Afirmou ainda que não houve carreamento de rejeitos de mineração, apenas água com sedimentos, isto é, terra.
As atividades pararam ainda em janeiro, conta O Fator. A suspensão por decisão da Justiça veio no início de fevereiro, segundo a Agência Brasil, e só foi levantada em parte na decisão de 23 de setembro.
ANM diz que as barragens não foram comprometidas
A Agência Nacional de Mineração, ligada ao Ministério de Minas e Energia, afirmou que os vazamentos não comprometeram as estruturas de barragens. A água de Ouro Preto saiu de uma cava, e não de uma barragem de rejeitos.
A barragem de rejeitos é a estrutura que guarda a lama que sobra do beneficiamento do minério.
Multa de R$ 1,7 milhão juntou Fábrica e Viga
No fim de janeiro, o governo de Minas multou a Vale em R$ 1,7 milhão por esse vazamento e por outro, de 26 de janeiro, na Mina de Viga, em Congonhas, cidade vizinha a Ouro Preto, relata a Agência Brasil.
Quanto a Mina de Fábrica pesa no minério de ferro da Vale
Nos relatórios de produção, a Vale soma a Mina de Fábrica a Mutuca e a outras minas no complexo Paraopeba, do Sistema Sul.
No segundo trimestre de 2026, o complexo produziu 1,81 milhão de toneladas de minério de ferro, mostra o relatório de julho. No segundo trimestre de 2025, tinham sido 3,95 milhões.
A queda foi de 54% na comparação com o mesmo trimestre de 2025. Na conta: 3,953 milhões menos 1,806 milhão dá 2,147 milhões de toneladas a menos. A Vale explica o recuo do Sistema Sul principalmente pela paralisação total de Fábrica e Viga desde janeiro.
No primeiro trimestre, o complexo já tinha caído 42%, de 2,84 para 1,64 milhão de toneladas. Naquele relatório, a empresa informou que chuvas acima da média afetaram sobretudo Viga e Fábrica.
Somando os dois trimestres, o complexo produziu 3,45 milhões de toneladas no primeiro semestre de 2026, contra 6,79 milhões no mesmo período de 2025: 3,34 milhões de toneladas a menos.
No total da Vale, o peso é pequeno.
Dos 83,6 milhões de toneladas de minério de ferro que a companhia registrou no segundo trimestre de 2025, o complexo respondeu por 4,7%. No segundo trimestre de 2026, foram 1,81 de 84,3 milhões, ou 2,1%.
O buraco foi coberto em parte por outro complexo do Sistema Sul, mostra o mesmo relatório.
Vargem Grande (VGR, Pico e outras minas) subiu de 9,14 para 10,27 milhões de toneladas entre os segundos trimestres de 2025 e 2026, com o avanço da planta VGR1. Mesmo assim, o Sistema Sul inteiro caiu 7,7%.
Vale mantém projeção; cavas 3 e 4 esperam novo estudo
Em comunicado, a Vale afirma que a retomada parcial não altera as projeções de produção vigentes. No relatório de julho, a projeção da companhia para o minério de ferro em 2026 era de 335 a 345 milhões de toneladas.
Segundo a mineradora, a reativação “observará as condições de segurança, controle ambiental, licenças, autorizações e condicionantes aplicáveis”.
Daqui em diante, correm dois relógios: os 90 dias para fechar as pendências do acordo e o estudo técnico que pode, ou não, abrir as cavas Área 3 e Área 4.
Tags
Vale
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

