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Levou 706 dias de escavação para a tuneladora Wilma furar 7,5 quilômetros de Alpes e encontrar, no escuro, a galeria que uma equipe do outro lado da fronteira cavava na direção dela

Levou 706 dias de escavação para a tuneladora Wilma furar 7,5 quilômetros de Alpes e encontrar, no escuro, a galeria que uma equipe do outro lado da fronteira cavava na direção dela

4 min de leitura

Levou 706 dias de escavação para a tuneladora Wilma furar 7,5 quilômetros de Alpes e encontrar, no escuro, a galeria que uma equipe do outro lado da fronteira cavava na direção dela

Escrito por Douglas Avila

Publicado em 03/09/2026 às 22:09

Atualizado em 03/09/2026 às 22:50

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Levou 706 dias de escavação contínua para a tuneladora Wilma furar 7,5 quilômetros de rocha alpina e encontrar, no escuro e a mais de mil metros de profundidade, a galeria que uma equipe do outro lado da fronteira vinha cavando exatamente na direção dela.

O rompimento final aconteceu em 25 de agosto de 2026 e completou o tubo principal oeste do Túnel de Base do Brennero, entre a Áustria e a Itália. Segundo a BBT SE, sociedade responsável pela obra, a máquina havia iniciado o avanço em 18 de setembro de 2024, no lote de construção H53, entre Pfons e o Brennero.

O encontro entre as duas frentes se deu 1.408 metros abaixo do Geigenspitze. Com essa conexão, forma-se um tubo contínuo que vai da garganta do Sill, perto de Innsbruck, até Fortezza, no Alto Ádige, somando 55 quilômetros de galeria principal.

Cabeça de corte da tuneladora no interior do túnel

O gargalo dos Alpes é mais velho que o automóvel

Para entender por que alguém investe décadas nisso, é preciso olhar o mapa. O passo do Brennero é a travessia mais baixa dos Alpes centrais, e por causa disso concentra desde sempre o tráfego que atravessa a Europa no sentido norte-sul. O que era rota de mercador virou, no século 20, corredor de caminhão.

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Por isso, o resultado é conhecido de quem mora nos vales austríacos e italianos da região: fila de carreta, ruído constante, poluição concentrada num corredor estreito entre montanhas e uma rodovia que sobe e desce serra com todo o custo de combustível e de manutenção que isso implica. Conforme o projeto, a função do túnel é justamente tirar essa carga da estrada e colocá-la no trilho, por baixo da montanha, em traçado praticamente plano.

Ou seja, a diferença entre subir a serra e atravessar por dentro dela não é estética. Trem em rampa forte precisa de mais locomotiva, transporta menos carga por composição e gasta muito mais energia. Um traçado plano sob a montanha, por outro lado, permite composições mais longas e pesadas com menos tração. É aí que a conta fecha.

Equipe comemorando o rompimento da rocha no túnel

Duas equipes cavando uma em direção à outra

A parte que mais me impressiona nessa história é a precisão exigida. Duas frentes partem de países diferentes, avançam por rocha que ninguém enxerga, cada uma com sua equipe, seu equipamento e seu cronograma, e precisam se encontrar. Não basta chegar perto: o alinhamento tem que bater para que o tubo resultante seja utilizável por trem em alta velocidade.

Segundo a prática de engenharia de túneis, isso é feito com topografia de altíssima precisão, corrigida continuamente ao longo dos anos de avanço. Além disso, a rocha alpina não é homogênea. A máquina atravessa trechos duros, trechos fraturados, zonas com água sob pressão, e cada uma dessas condições exige ajuste de velocidade, de suporte e às vezes de método. Manter o rumo por 706 dias nesse ambiente é o trabalho técnico de verdade.

Vale lembrar que a Wilma não trabalhou sozinha. Outra tuneladora, batizada de Olga, avança em paralelo nos tubos principais em direção a Innsbruck. Obras dessa escala são executadas por várias máquinas simultâneas em lotes distintos, e o cronograma final depende de todas elas.

Escavadeira trabalhando na frente de escavação

Uma obra que atravessa gerações de engenheiro

Assim, projetos desse porte têm uma característica que a gente raramente comenta: eles duram mais que a carreira de quem começa. Entre estudo, licenciamento, escavação, instalação de via, sinalização e testes, passam-se décadas. O engenheiro que assina o projeto inicial dificilmente é o mesmo que vê o primeiro trem passar.

Enquanto isso, o país precisa sustentar o financiamento através de trocas de governo, crises econômicas e mudanças de prioridade política. É por isso que obras dessa escala costumam depender de acordo entre Estados e de financiamento supranacional, e não apenas de orçamento anual. Sem esse tipo de blindagem institucional, elas simplesmente param no meio.

O furo do tubo, ademais, não significa túnel pronto. Depois do rompimento vem revestimento definitivo, drenagem, via permanente, energia, ventilação, sinalização e uma longa fase de testes antes que qualquer composição comercial circule. O momento da comemoração é simbólico, e não operacional.

Há também um cálculo ambiental por trás da decisão europeia. Transportar carga por trilho consome uma fração da energia por tonelada transportada em relação ao caminhão, e concentra a emissão num ponto do sistema elétrico em vez de espalhá-la por milhares de escapamentos numa rodovia de montanha. Nos vales alpinos, onde o ar fica preso entre encostas, essa diferença é sentida diretamente por quem mora ali. Não à toa, a Áustria vem impondo restrições ao tráfego pesado no corredor há anos.

Ainda assim, dá pra entender por que essas fotos de trabalhadores abraçados na frente de uma parede recém-rompida circulam tanto. É um daqueles raros momentos em que um esforço abstrato, de planilha e cronograma, vira um buraco concreto que liga dois países. Queria saber o que você acha de uma obra que leva mais tempo que uma carreira inteira para ficar pronta.

Vale a pena começar uma obra que só vai servir de verdade para a geração seguinte?

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Fontes

BBT SE

Ground Engineering


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Douglas Avila.

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