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Mãe passa 17 anos procurando ajuda para o filho autista, abandona centros após experiências que considera indignas e cria espaço que já apoiou mais de 100 pessoas e 290 famílias
Escrito por Roberta Souza
Publicado em 02/09/2026 às 18:46
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Bela Joshi era engenheira quando o filho recebeu diagnóstico de autismo ainda bebê. Depois de quase duas décadas entre terapias, transforma a própria frustração no Colours Centre for Learning, onde atividades do cotidiano viram ferramentas para comunicação e independência
Durante 17 anos, a engenheira Bela Joshi percorreu centros de terapia procurando uma forma de apoiar o filho, diagnosticado com autismo quando tinha apenas 1 ano. A busca mudou de direção quando, há 11 anos, ele precisou deixar um conhecido centro especializado e ficou sem um lugar para continuar o atendimento. Em vez de procurar outra instituição, Bela e o marido decidiram construir o espaço que gostariam de ter encontrado. Hoje, o Colours Centre for Learning, em Bengaluru, na Índia, afirma já ter apoiado mais de 100 pessoas autistas, realizado mais de 8 mil horas de intervenção e orientado mais de 290 famílias, conforme informações publicadas pelo The Better India em 31 de agosto de 2026.
A proposta nasceu de uma experiência pessoal, mas acabou se transformando em um modelo no qual terapia, aprendizado e atividades comuns acontecem juntos. Em vez de limitar o desenvolvimento a sessões isoladas, o centro utiliza momentos como almoço, jogos, pintura, música, culinária, esportes e até passeios em espaços públicos para trabalhar comunicação, habilidades motoras e autonomia.
Hoje, cada estudante recebe atendimento subsidiado, e não existe idade máxima para permanecer no programa. A instituição recebe pessoas a partir dos 4 anos e adapta o avanço às habilidades conquistadas por cada uma, em vez de determinar que todos precisam aprender dentro do mesmo prazo.
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Tudo muda quando o filho recebe diagnóstico com apenas 1 ano
Antes de entrar na educação especial, Bela era engenheira.
Sua trajetória profissional tomou outro rumo depois que o filho recebeu o diagnóstico de autismo ainda bebê. Hoje, ele tem 27 anos.
Bela era instruída e estava determinada a encontrar as melhores possibilidades disponíveis.
Ainda assim, sentia que não sabia como ajudá-lo.
O menino apresentava habilidades que chamavam atenção.
Segundo a mãe, ele começou a ler sozinho por volta de 1 ano e meio, tinha facilidade com matemática e natação e conseguia aprender diversas coisas apenas observando.
Por outro lado, Bela continuava sem saber qual caminho deveria seguir.
Então começou uma busca que ocuparia boa parte dos 17 anos seguintes.
Durante 17 anos, mãe passa de um centro de terapia para outro
Bela procurou diferentes instituições.
O objetivo era encontrar uma abordagem capaz de atender às necessidades do filho sem comprometer sua dignidade.
Porém, segundo seu relato, as respostas pareciam sempre incompletas.
Ao longo desses anos, ela também deixou algumas instituições depois de presenciar práticas que, em sua avaliação, não tratavam seu filho com a dignidade necessária.
Esse ponto acabou se tornando central na filosofia que ela adotaria mais tarde.
Não bastava ensinar uma habilidade.
A pessoa precisava sentir que pertencia ao ambiente.
Precisava ser respeitada.
E precisava ter espaço para avançar no próprio ritmo.
Há 11 anos, filho precisa deixar centro e família fica sem alternativa
A ruptura aconteceu 11 anos atrás.
Segundo Bela, seu filho precisou sair de um conhecido centro especializado em autismo.
Ela afirma que a instituição queria que a família pagasse ₹1 lakh adicional.
Bela e o marido decidiram não aceitar a exigência.
A preocupação não envolvia apenas aquele pagamento.
Eles temiam o que poderia acontecer posteriormente se concordassem com uma condição que consideravam inadequada.
De repente, o casal enfrentou um problema maior:
o filho não tinha mais para onde ir.
Durante quase duas décadas, Bela havia procurado respostas em instituições criadas por outras pessoas.
Naquele momento, decidiu parar de procurar.
Casal decide criar o lugar que gostaria de ter encontrado
A ideia começou de maneira simples.
Bela e o marido criaram atividades envolvendo computadores e arte.
Por trás delas, estabeleceram um princípio: oferecer às pessoas autistas dignidade, amor, respeito e espaço para crescer.
A iniciativa evoluiu até se tornar o Colours Centre for Learning.
O espaço funciona em Indiranagar, Bengaluru.
Todas as manhãs, por volta das 9h30, os estudantes chegam, guardam suas bolsas e começam uma rotina que pode envolver orações, brincadeiras, aulas e atividades práticas.
Alguns pintam.
Outros participam de atividades musicais.
Há estudantes praticando conversas durante o lanche.
Outros jogam críquete.
Até segurar uma colher ou esperar a própria vez durante uma brincadeira pode virar uma oportunidade de aprendizado.
Centro decide não separar terapia da vida cotidiana
Com o passar dos anos, Bela percebeu um problema na forma como muitos atendimentos funcionavam.
Uma criança podia fazer 45 minutos de fonoaudiologia.
Depois, precisava ir a outro lugar para terapia ocupacional.
Em seguida, podia realizar uma intervenção comportamental em outro ambiente.
As habilidades acabavam divididas em blocos.
O Colours escolheu outra direção.
A instituição desenvolveu internamente o programa chamado Dynamic Behaviour Transformation, ou DBT.
A abordagem integra o trabalho terapêutico às atividades realizadas durante o dia.
Assim, conversar durante o almoço deixa de ser apenas almoço.
Também vira oportunidade para desenvolver comunicação.
Pintura, cerâmica, esporte e música passam a fazer parte da intervenção
A mesma lógica aparece nas outras atividades.
Pintura e cerâmica ajudam no desenvolvimento de habilidades motoras.
Jogos trabalham comunicação e interação.
Música oferece uma forma diferente de expressão.
Culinária pode ensinar habilidades práticas importantes para a independência.
Além disso, os estudantes têm atividades de inglês, matemática, esportes, música, yoga, teatro, informática, projetos STEM, cerâmica e arte.
Por trás da variedade existe um objetivo comum.
O centro quer aumentar a capacidade de cada pessoa de se comunicar, participar de atividades e conquistar maior autonomia.
Portanto, o aprendizado não termina quando acaba uma sessão formal.
Ele continua durante o restante do dia.
Programa não obriga todos os alunos a avançarem no mesmo tempo
Outro princípio diferencia a metodologia.
Não existe um cronograma único determinando quando cada estudante precisa passar para a próxima habilidade.
O programa é baseado em competências adquiridas, e não em tempo predeterminado.
Se uma pessoa ainda não dominou determinada habilidade, a equipe não avança simplesmente porque o calendário manda.
Os educadores observam os estudantes diariamente.
Depois das aulas, registram aquilo que perceberam.
Essas informações ajudam a ajustar atividades, objetivos e estratégias de ensino.
Bela rejeita a ideia de uma solução milagrosa.
Para ela, o progresso vem do trabalho contínuo.
Mais de 8 mil horas de intervenção e 290 famílias orientadas
Com o passar dos anos, os números cresceram.
O Colours afirma ter atendido mais de 100 pessoas autistas.
Além disso, acumulou mais de 8 mil horas de intervenção.
A atuação também alcançou as famílias.
Mais de 290 famílias receberam orientação.
Atualmente, todos os estudantes têm algum nível de subsídio no atendimento, segundo o centro.
Esse último ponto amplia o alcance da proposta.
O atendimento especializado pode representar uma despesa prolongada para famílias, especialmente quando acompanha a pessoa por muitos anos.
Por isso, o modelo tenta combinar acompanhamento individualizado com apoio financeiro.
Centro aceita estudantes a partir dos 4 anos e não estabelece idade máxima
Existe ainda outro problema enfrentado por muitas famílias.
A criança cresce.
Chega à adolescência.
Depois, entra na vida adulta.
Mas a necessidade de suporte não desaparece automaticamente.
O Colours recebe estudantes a partir dos 4 anos e não estabelece limite máximo de idade.
Isso permite continuidade além da adolescência.
A escolha tem relação direta com a própria experiência de Bela.
Seu filho não permaneceu criança.
Hoje ele tem 27 anos.
Consequentemente, a instituição trabalha também com a ideia de preparar pessoas autistas para uma vida adulta com maior participação e independência.
Passeio ao shopping também vira parte do aprendizado
Nem todas as atividades acontecem dentro do centro.
Os estudantes fazem visitas a museus, parques e shopping centers.
Esses passeios não funcionam apenas como recreação.
A instituição os utiliza para ensinar os participantes a lidar com ambientes públicos.
Os pais frequentemente participam.
A lógica é simples.
Uma pessoa pode aprender determinadas habilidades dentro de uma sala controlada.
Porém, em algum momento, precisará utilizá-las no mundo real.
Um shopping possui barulho, pessoas desconhecidas, filas e diferentes estímulos.
Um parque cria outro conjunto de situações.
Um museu traz regras diferentes.
O objetivo é construir confiança gradualmente.
Pais podem entrar nas salas e acompanhar o que acontece
O centro também adotou uma política de portas abertas.
Em vez de obrigar os pais a esperar do lado de fora, permite que observem as aulas e entendam as estratégias utilizadas pelos profissionais.
Isso cria continuidade.
Uma técnica aprendida no centro pode ser repetida em casa.
Assim, a família deixa de receber apenas o resultado da sessão.
Ela também entende parte do processo.
Para Sonia, mãe de um adolescente de 13 anos atendido pela instituição, esse elemento ajudou a construir confiança.
Seu filho chegou ao Colours há aproximadamente cinco anos.
Antes disso, frequentava diferentes terapias e enfrentava desafios comportamentais severos.
Menino passa quase 3 anos sem comer na escola e hoje termina o almoço sozinho
A história do filho de Sonia ajuda a mostrar como o centro mede resultados.
Ele permanece não verbal.
Porém, começou a utilizar sons e gestos para comunicar necessidades.
Também passou a compartilhar objetos, esperar sua vez e participar de atividades em grupo.
Mas uma mudança aparentemente pequena ficou especialmente marcada para a mãe.
Durante quase três anos, o menino se recusava a almoçar na escola.
Hoje, consegue terminar a refeição sozinho, sentado junto às outras crianças.
Para alguém olhando de fora, comer o almoço pode parecer uma atividade banal.
Para aquela família, representa autonomia conquistada depois de anos.
Segurar um lápis por alguns minutos também pode representar uma vitória
Essa filosofia aparece em outras situações.
Os profissionais não comparam o progresso de um estudante com o de outro.
Uma conquista pode ser permanecer em determinada atividade durante cinco minutos.
Outra pode ser aprender a segurar um lápis.
Também pode envolver esperar a própria vez, carregar a garrafa de água ou estabelecer uma nova forma de comunicação.
O tamanho da conquista depende do ponto de partida de cada pessoa.
Por isso, a equipe tenta medir desenvolvimento individualmente.
Antes de ensinar, os profissionais também procuram criar uma sensação de segurança.
Segundo uma educadora de arte que trabalha há quase uma década no local, sentir-se seguro vem antes do aprendizado.
Centro tenta preparar alunos para situações que existem fora da sala
A independência aparece repetidamente como objetivo.
Isso explica a combinação de atividades acadêmicas e práticas.
Matemática e inglês têm espaço.
Mas cozinhar também.
Arte também.
Esporte também.
Conversar durante uma refeição também.
O objetivo não é transformar todas as pessoas em alunos com exatamente o mesmo conjunto de habilidades.
É ajudá-las a ampliar aquilo que conseguem fazer individualmente.
Famílias também precisam reaprender a enxergar o progresso
O trabalho não envolve apenas os estudantes.
Segundo a diretora de programas e desenvolvimento do Colours, muitos pais chegam depois de ouvir repetidamente aquilo que seus filhos não conseguem fazer.
A instituição tenta mudar esse foco.
Em vez de concentrar a atenção apenas nas limitações, a equipe procura identificar habilidades que podem ser construídas.
Essa mudança parece pequena.
Porém, influencia expectativas.
Uma família que espera uma transformação imediata pode se frustrar.
Já uma família que aprende a reconhecer avanços graduais consegue perceber mudanças que anteriormente poderiam passar despercebidas.
É justamente por isso que atividades aparentemente simples recebem tanta atenção.
Bela transforma experiência como mãe em trabalho com outras famílias
A trajetória fecha um ciclo.
Primeiro, Bela era uma mãe tentando entender como apoiar o próprio filho.
Depois, passou 17 anos procurando respostas.
Ao longo desse caminho, entrou e saiu de instituições.
Então chegou o momento em que o filho ficou sem um centro.
A família decidiu construir outra alternativa.
A partir daí, a engenheira se transformou também em educadora especial.
O projeto que nasceu para responder a uma necessidade dentro da própria casa começou a receber outras pessoas.
Depois, outras famílias.
Hoje, os números divulgados pela instituição passam de 100 indivíduos atendidos e 290 famílias orientadas.
Depois de mais de uma década, maior desafio pode estar fora do centro
Bela considera que ainda existe uma barreira que nenhuma atividade realizada dentro da instituição consegue resolver sozinha.
O preconceito e a falta de compreensão da sociedade.
Segundo ela, famílias de pessoas autistas ainda enfrentam julgamento onde deveriam encontrar acolhimento.
Por isso, seu objetivo não termina em ensinar habilidades individuais.
Ela espera uma sociedade na qual pessoas autistas possam participar de espaços comuns com mais dignidade e menos estigma.
Isso também explica os passeios.
O estudante precisa aprender a circular pela sociedade.
Mas a sociedade também precisa aprender a recebê-lo.
De 17 anos procurando respostas a mais de 100 pessoas atendidas
Os números ajudam a organizar a trajetória.
O filho recebeu o diagnóstico com 1 ano.
Bela passou aproximadamente 17 anos buscando diferentes formas de apoio.
Há 11 anos, uma ruptura com outro centro deixou a família sem uma alternativa adequada.
Então, Bela e o marido criaram a própria estrutura.
Hoje, o Colours registra mais de 8 mil horas de intervenção.
Já apoiou mais de 100 pessoas autistas.
E orientou mais de 290 famílias.
Mas talvez o resultado mais fácil de compreender não esteja nesses números.
Está no adolescente que passou quase três anos sem conseguir almoçar na escola e hoje termina sua refeição sozinho ao lado dos colegas.
Para o Colours, a independência é construída justamente assim:
uma habilidade de cada vez.
Fonte
The Better India
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Roberta Souza.

