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Marie Curie desembarcou no Brasil em julho de 1926, deu 11 aulas sobre radioatividade no Rio e voltou a Paris com um estojo de 24 pedras preciosas e 4 minerais radioativos, e um relatório guardado num acervo de São Paulo diz que as palestras dela só brilharam graças ao material brasileiro
Escrito por Douglas Avila
Publicado em 02/09/2026 às 22:46
Atualizado em 02/09/2026 às 23:00
Ciência e Tecnologia
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Ela chegou ao Rio em julho de 1926 já com dois prêmios Nobel no currículo, passou seis semanas dando aula sobre um fenômeno que quase ninguém no país sabia explicar e foi embora carregando uma caixa de minerais brasileiros, e um relatório oficial guardado desde então numa biblioteca de São Paulo registra a parte da história que costuma sumir.
Marie Curie desembarcou no Brasil em 15 de julho de 1926 acompanhada da filha, Irène Joliot-Curie, que também viria a ganhar o Nobel. As duas ficaram até 28 de agosto, ou seja, faz agora exatamente cem anos que ela deixou o país.
O convite partiu do Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura, e a agenda não era protocolar. Conforme o registro histórico da visita, Curie ministrou 11 aulas sobre radioatividade na Escola Politécnica do Rio de Janeiro.
Não parou aí. Ela apresentou conferências na Academia Nacional de Medicina e nas faculdades de Medicina de São Paulo e de Belo Horizonte, falando das aplicações da radioatividade no tratamento de doenças e explicando como funcionava o Instituto Curie, em Paris.
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O relatório que diz o que ninguém conta sobre as aulas de Marie Curie
A parte esquecida da história estava num documento antigo. Segundo a Agência Nacional de Mineração, o Relatório Anual do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, publicado em 1928 e referente a 1926, guarda uma frase que muda o enquadramento da visita.
O texto registra que, “quando aqui esteve a grande cientista Mme. Curie”, ela “somente pode dar mais brilho às suas admiráveis conferências sobre a radioatividade graças ao material existente no Serviço Geológico”.
Ou seja, as aulas da maior cientista viva da época no Rio de Janeiro dependeram de amostras minerais brasileiras para sair do quadro-negro. O material que ela precisava para demonstrar radioatividade estava aqui, catalogado por geólogos brasileiros.
Vinte e quatro pedras preciosas e um cartão de ouro
A visita ao Serviço Geológico e Mineralógico rendeu mais do que empréstimo de amostra. As Curie foram recebidas pelo diretor Euzébio de Oliveira, e ao fim do encontro ele ofereceu um presente que hoje parece de outro mundo.
Era um estojo com 24 pedras preciosas, quatro exemplares de minerais radioativos e um cartão de ouro com uma dedicatória. Dá pra imaginar o peso simbólico da cena: o país entregando à cientista da radioatividade justamente os minerais radioativos do próprio subsolo.
E houve ainda um episódio de peso científico. Em 24 de agosto de 1926, numa sessão da Academia Brasileira de Ciências, Curie apresentou resultados de uma pesquisa inédita sobre a invariância das constantes radioativas. O trabalho ainda não tinha sido publicado em lugar nenhum e só apareceria numa revista científica três anos depois.
Convém lembrar o que a radioatividade significava naquele momento. Era um fenômeno recente, mal compreendido fora de um punhado de laboratórios europeus, e ainda cercado de um otimismo que hoje causa arrepio: falava-se em água radioativa como tônico e em aplicações médicas sem qualquer noção do risco cumulativo. Curie viajava explicando um território que ela mesma tinha aberto e cujo perigo ainda estava sendo aprendido, no corpo dela inclusive.
Nesse contexto, um país que mantinha um serviço geológico organizado, com amostras catalogadas e gente capaz de identificá-las, não era detalhe de logística. Era infraestrutura científica, no sentido mais literal da palavra, e é isso que a frase do relatório reconhece sem nenhuma cerimônia.
Vale parar nesse detalhe. Ela escolheu estrear um resultado original numa plateia brasileira antes de publicá-lo na Europa, o que não era gentileza diplomática, era reconhecimento de interlocutor.
Um acervo que começou com 568 publicações
O documento veio à tona por causa de um trabalho de catalogação. O relatório está na biblioteca da sede de São Paulo da Agência Nacional de Mineração, um acervo que começou em 1969, com 568 publicações, e cujo livro de tombo foi criado em 1973. A bibliotecária responsável é Silvana Fontanelli.
O relatório de 1926 não é sequer a peça mais antiga. A monografia “Fósseis Devonianos do Paraná”, assinada por John M. Clarke, é de 1913.
E há uma joia de outra natureza no mesmo acervo. O Boletim nº 3, de 1922, traz “Reconhecimentos Geológicos no Vale do Amazonas”, de Odorico Rodrigues de Albuquerque, com as campanhas de campo feitas entre 1918 e 1919 e ilustrado com 17 desenhos e 57 fotogravuras.
São expedições à Amazônia feitas há mais de um século, registradas em imagem numa época em que fotografar em campo exigia carregar equipamento pesado rio acima. Confesso que é o tipo de documento que a gente só descobre que existe quando alguém resolve abrir a caixa.
A leitura de conjunto é o que interessa. O Brasil aparece nessa história não como plateia de uma celebridade europeia, mas como fornecedor do material que tornou a demonstração possível, e como primeira audiência de um resultado científico inédito. É um lugar bem diferente daquele que costuma sobrar para o país nas narrativas de ciência do começo do século passado, e ecoa a discussão atual sobre o valor real dos minerais estratégicos que estão no subsolo brasileiro. O achado no acervo foi divulgado pela própria Agência Nacional de Mineração.
Cem anos depois daquele 28 de agosto, o estojo de 24 pedras já se perdeu do noticiário e o nome de Euzébio de Oliveira não diz nada para quase ninguém. Mas a frase segue lá, datilografada num relatório de 1928, dizendo em bom português que as conferências mais famosas da radioatividade no Brasil brilharam com pedra brasileira.
Você sabia que Marie Curie passou seis semanas no Brasil e levou minerais radioativos daqui para Paris?
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Fontes
Agência Nacional de Mineração
Academia Brasileira de Ciências
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Douglas Avila.

