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Menino de 3 anos com T21 vivia praticamente como “morador” de hospital após ser abandonado pelos pais, até um pediatra levar suas roupas sujas para casa e criar um vínculo inesperado; quando a Vara da Infância discute seu destino, ele liga para a esposa, decide acolhê-lo e dois dias depois consegue a guarda da criança

Menino de 3 anos com T21 vivia praticamente como “morador” de hospital após ser abandonado pelos pais, até um pediatra levar suas roupas sujas para casa e criar um vínculo inesperado; quando a Vara da Infância discute seu destino, ele liga para a esposa, decide acolhê-lo e dois dias depois consegue a guarda da criança

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Menino de 3 anos com T21 vivia praticamente como “morador” de hospital após ser abandonado pelos pais, até um pediatra levar suas roupas sujas para casa e criar um vínculo inesperado; quando a Vara da Infância discute seu destino, ele liga para a esposa, decide acolhê-lo e dois dias depois consegue a guarda da criança

Escrito por Carla Teles

Publicado em 01/09/2026 às 11:17

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Um pediatra conhece menino com T21 no Hospital Ouro Verde, aciona a Vara da Infância e recebe guarda provisória após vínculo. Imagem: Carlos Bassan/PMC

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Lucas Machado, pediatra da Rede Mário Gatti, conheceu Vitor em 2019 no Hospital Ouro Verde, em Campinas, quando a criança de 3 anos com T21 estava abandonada e com problemas de saúde. Após o vínculo inicial, o médico e a esposa Nadya aceitaram acolhê-lo e receberam inicialmente a guarda provisória.

O pediatra Lucas dos Santos Machado estava de plantão no Complexo Hospitalar Prefeito Edivaldo Orsi, o Hospital Ouro Verde, em Campinas, quando conheceu Vitor em 2019. O menino tinha 3 anos, Trissomia 21 (T21), enfrentava problemas graves de saúde e havia sido abandonado pelos pais no hospital.

O primeiro gesto que aproximou o médico da criança não envolveu uma decisão planejada de formar uma família. Uma enfermeira avisou que Vitor estava sem roupas limpas. Lucas telefonou para a esposa, Nadya Machado, e perguntou se poderia levar para casa o saco com as peças sujas. A partir de uma necessidade básica de cuidado, começou uma relação que acabaria ultrapassando os limites da enfermaria.

Pediatra conheceu Vitor enquanto ele permanecia no Hospital Ouro Verde

Lucas havia ingressado na Rede Mário Gatti em 2016, por concurso público, como médico plantonista do Hospital Ouro Verde. Em relato publicado pelo Jornal Local em 23 de maio de 2025, ele explicou que hospitais públicos podem receber crianças afastadas do convívio familiar e que, em determinados casos, a permanência se prolonga enquanto uma solução é construída pela rede de proteção.

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O pediatra usou a expressão “moradora do hospital” para descrever situações em que uma criança permanece na unidade porque, além dos cuidados de saúde, não existe naquele momento uma estrutura familiar disponível para recebê-la. Foi nesse contexto que Vitor apareceu na rotina da equipe em 2019.

O menino apresentava T21 e, segundo Lucas, tinha problemas importantes no pulmão e no intestino. A permanência hospitalar de Vitor envolvia simultaneamente necessidade médica e uma situação de abandono familiar.

Um saco de roupas sujas iniciou aproximação fora do atendimento médico

Durante um plantão, uma enfermeira informou que Vitor não tinha roupas limpas disponíveis. Lucas ligou para Nadya, que é contadora, e perguntou se poderia levar as peças para serem lavadas em casa.

No dia seguinte, Nadya decidiu também comprar roupas novas, porque algumas das peças do menino estavam bastante desgastadas. O que começou como uma solução prática para uma necessidade do paciente passou a envolver também a esposa do pediatra.

No plantão seguinte, Nadya pediu ao marido que enviasse fotografias de Vitor usando as roupas novas. Depois manifestou interesse em conhecê-lo pessoalmente no hospital.

Primeira visita de Nadya coincidiu com piora clínica e ida à UTI

Imagem: Carlos Bassan/PMC

Quando Nadya finalmente foi visitar a criança, Vitor havia apresentado uma piora em seu quadro clínico e tinha sido transferido para a Unidade de Terapia Intensiva.

Segundo Lucas, o menino estava em isolamento porque era colonizado por uma bactéria. Quando Nadya chegou, ele dormia. Ela se aproximou e o ajeitou no leito. Depois da recuperação, Vitor deixou a UTI e retornou à enfermaria.

Foi depois dessa etapa que surgiu uma questão decisiva: clinicamente, ele começava a reunir condições para deixar o hospital, mas ainda precisava de um destino fora da unidade.

As possibilidades consideradas naquele momento incluíam uma residência que pudesse recebê-lo ou encaminhamento para um serviço de acolhimento.

Vara da Infância discutia destino quando médico telefonou para a esposa

Em outro plantão, representantes da Vara da Infância estiveram no hospital para conversar sobre o futuro de Vitor. Durante a discussão, Lucas pediu licença à equipe e telefonou para Nadya.

A pergunta foi direta: Vitor precisava de uma casa e Lucas queria saber se a esposa aceitava recebê-lo. Nadya concordou. O pediatra retornou à conversa com a Vara da Infância dizendo que o casal estava disposto a levar a criança para casa.

Segundo o relato do médico, os integrantes da equipe analisaram a situação e informaram que aquela possibilidade poderia avançar.

O episódio não significou que uma adoção definitiva estivesse concluída naquele instante. Era necessário apresentar documentos e cumprir as etapas legais relacionadas à guarda.

Documentação foi apresentada e guarda saiu dois dias depois

No dia seguinte, Lucas levou à Vara da Infância a documentação solicitada. Dois dias depois, numa sexta-feira no fim do dia, a guarda de Vitor já estava formalmente no nome do médico, conforme o relato publicado pela fonte.

Com a autorização, o pediatra deixou o Hospital Mário Gatti e seguiu para o Hospital Ouro Verde para buscar Vitor e levá-lo para casa.

A primeira etapa, no entanto, era de guarda provisória. Lucas e Nadya começaram inicialmente como família acolhedora, modalidade voltada ao acolhimento temporário de crianças e adolescentes afastados de suas famílias de origem.

Isso significa que a história jurídica da família ainda continuaria depois daquela sexta-feira.

Nova crise respiratória levou Vitor novamente ao hospital

Em 29 de fevereiro de 2020, Vitor apresentou uma nova crise respiratória e precisou ser internado. Como a guarda temporária existente naquele momento não permitia incluí-lo como dependente em um plano de assistência à saúde, ele voltou a receber atendimento na Rede Mário Gatti.

A criança foi novamente para a UTI, precisou ser intubada e permaneceu nessa condição durante pouco mais de um mês, segundo Lucas.

Durante essa internação, a situação jurídica voltou a ser discutida. O médico relatou que recebeu orientação judicial sobre os procedimentos necessários caso desejasse avançar para uma guarda definitiva.

Lucas e Nadya então fizeram novos pedidos, receberam uma segunda guarda provisória e continuaram o processo para consolidar juridicamente a permanência de Vitor na família.

Guarda definitiva foi concedida em agosto de 2020

Com a nova guarda provisória, Lucas conseguiu incluir Vitor na assistência de saúde e organizou estrutura de home care para que o menino pudesse continuar os cuidados em casa.

A guarda definitiva foi concedida em agosto de 2020, na véspera do Dia dos Pais, segundo o relato do pediatra. A partir dessa etapa, Lucas passou a descrever Vitor como seu primeiro filho “de papel passado”.

Pouco mais de um ano depois, Lucas e Nadya tiveram Arthur, filho biológico do casal.

A sequência jurídica, portanto, foi diferente de uma adoção instantânea: houve acolhimento, guarda provisória, nova etapa judicial e, posteriormente, guarda definitiva.

Saúde exigia acompanhamento muito além da saída do hospital

Quando Lucas conheceu Vitor, a condição clínica do menino exigia atenção intensa. O médico relatou posteriormente que a criança estava desnutrida e apresentava sequelas associadas a esse quadro.

Segundo a fonte, Vitor tinha cerca de três anos e meio e pesava 12 quilos. Lucas também afirmou que o menino havia sofrido pelo menos quatro paradas cardiorrespiratórias e ainda precisava lidar com outras demandas relacionadas à saúde.

Anos depois, o quadro apresentado pelo médico era diferente. Na reportagem de 2025, Vitor estava com nove anos, tinha alcançado peso adequado à idade, caminhava e seguia evoluindo na fala e em outros aspectos do desenvolvimento. Ele ainda mantinha uma colostomia, então em processo de retirada.

O acolhimento familiar, portanto, continuou acompanhado por uma rotina de assistência médica relacionada às condições que já existiam quando ele deixou o hospital.

T21 também passou a ocupar espaço na carreira do pediatra

A chegada de Vitor à família teve outro desdobramento documentado: Lucas ampliou sua formação profissional sobre Trissomia 21.

O pediatra, que já era especialista em imunologia pediátrica, começou em 2021 a se aprofundar especificamente no atendimento de pessoas com T21. Ele buscou formação complementar para compreender particularidades relacionadas a medicamentos, exames, alimentação e outras necessidades clínicas.

A atuação cresceu a ponto de, segundo a reportagem de 2025, 85% dos pacientes atendidos por Lucas serem pessoas com T21.

O médico também ampliou o atendimento na faculdade de medicina em que atua como docente e passou a compartilhar esse conhecimento com estudantes e residentes na unidade pediátrica Mário Gattinho.

Experiência com Vitor levou médico a ampliar atendimento especializado

Além da atividade hospitalar e acadêmica, Lucas abriu um consultório direcionado ao atendimento de pacientes com T21 e estabeleceu contato com instituições sociais, mães e familiares de pessoas com Trissomia 21 em Campinas.

Esse trabalho resultou também em reconhecimento público. Em março de 2025, o pediatra foi homenageado na Câmara de Vereadores de Campinas pela atuação dedicada ao tema.
Assim, uma relação que começou em uma enfermaria em 2019 passou a influenciar não apenas a formação de uma família, mas também a especialização clínica e acadêmica do médico.

Vitor deixou de ser apenas uma criança aguardando definição de destino dentro do hospital e passou a viver com Lucas e Nadya, enquanto o próprio pediatra direcionou uma parcela crescente de sua carreira ao atendimento de pessoas com T21.

Caso conecta abandono hospitalar, guarda e cuidado continuado

A história documentada no Hospital Ouro Verde reúne situações que normalmente aparecem separadas: uma criança com necessidades complexas de saúde, abandono familiar, permanência prolongada no hospital, intervenção da Vara da Infância, acolhimento e posterior guarda definitiva.

O episódio das roupas foi apenas o início dessa sequência. Depois vieram a aproximação de Nadya, a conversa com a Vara da Infância, a documentação entregue pelo casal, a primeira guarda, novas internações e o processo que terminou com a guarda definitiva em agosto de 2020.

Anos depois, Vitor continuava integrado à família e Lucas havia transformado parte de sua própria atuação como pediatra para atender e formar profissionais sobre T21.

Na sua opinião, o que poderia ser ampliado para evitar que crianças clinicamente aptas a deixar hospitais permaneçam internadas por falta de estrutura familiar: famílias acolhedoras, apoio social, integração entre hospitais e Justiça ou políticas específicas de proteção? Conte nos comentários.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

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