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Mergulhador encontra estranhos “biscoitos de metal” no Mediterrâneo e revela navio de 3.300 anos com 10 toneladas de cobre, uma tonelada de estanho, ouro e marfim; arqueólogos fazem 22.413 mergulhos para retirar a carga

Mergulhador encontra estranhos “biscoitos de metal” no Mediterrâneo e revela navio de 3.300 anos com 10 toneladas de cobre, uma tonelada de estanho, ouro e marfim; arqueólogos fazem 22.413 mergulhos para retirar a carga

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Mergulhador encontra estranhos “biscoitos de metal” no Mediterrâneo e revela navio de 3.300 anos com 10 toneladas de cobre, uma tonelada de estanho, ouro e marfim; arqueólogos fazem 22.413 mergulhos para retirar a carga

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 17/09/2026 às 12:05

Ciência e Tecnologia

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Mergulhador encontra estranhos “biscoitos de metal” no Mediterrâneo e revela navio de 3.300 anos

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Mergulhador encontrou no Mediterrâneo um navio de 3.300 anos com 10 toneladas de cobre, uma tonelada de estanho, ouro, vidro e marfim.

Um mergulhador turco procurava esponjas no Mediterrâneo quando viu grandes peças de metal espalhadas sobre o fundo do mar. Elas tinham quatro pontas e uma forma tão incomum que Mehmet Çakir as descreveu como “biscoitos de metal com orelhas”. Era 1982, perto de Kaş, na costa sul da atual Turquia. O que parecia apenas um estranho conjunto de placas acabaria revelando um dos naufrágios mais importantes já encontrados da Idade do Bronze.

Segundo o Institute of Nautical Archaeology, INA, o navio de Uluburun afundou por volta de 1320 a.C., com margem de aproximadamente 15 anos. A embarcação carregava cerca de 10 toneladas de cobre e uma tonelada de estanho, além de ouro, vidro, marfim, madeira, cerâmica, alimentos e objetos vindos de diferentes partes do mundo antigo. Para retirar tudo, arqueólogos trabalharam durante 11 temporadas e registraram 22.413 mergulhos, somando 6.613 horas no fundo do Mediterrâneo.

Tudo começou com estranhas peças de metal no fundo do mar

Mehmet Çakir não encontrou primeiro uma estátua de ouro ou um baú cheio de joias. O que chamou sua atenção foram grandes placas metálicas depositadas em fileiras sobre uma encosta submersa perto do promontório de Uluburun.

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Foto: https://nauticalarch.org

Quando descreveu o local ao arqueólogo Don Frey, do INA, falou das grandes peças com quatro extremidades. Os especialistas reconheceram rapidamente a descrição: eram lingotes usados para transportar metal durante a Idade do Bronze.

A descoberta ganhou peso porque algumas peças continuavam praticamente na posição em que haviam sido colocadas dentro do navio. A embarcação havia afundado sobre uma encosta e parte da carga permaneceu acumulada no local por mais de três milênios.

O navio estava a mais de 45 metros de profundidade

Escavar Uluburun não seria como trabalhar em um naufrágio raso. O sítio estava em uma encosta inclinada, com boa parte do material a profundidades superiores a 150 pés, cerca de 46 metros.

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Nessa profundidade, o tempo disponível para cada mergulhador trabalhar no fundo era limitado. A subida também precisava ser controlada para evitar problemas causados pela mudança de pressão.

Os arqueólogos montaram uma operação que se repetiria durante anos. Cada objeto precisava ser localizado, desenhado, fotografado, retirado dos sedimentos e levado até a superfície sem perder as informações sobre o ponto onde havia sido encontrado.

Foram 22.413 mergulhos durante 11 temporadas

A primeira grande campanha começou em 1984. A última terminou apenas em setembro de 1994. Foram 11 temporadas de escavação submarina em um mesmo naufrágio.

No relatório da campanha final, o arqueólogo Cemal Pulak registrou 22.413 mergulhos e 6.613 horas de trabalho debaixo d’água durante todo o projeto. Só em 1994 foram 1.857 mergulhos e aproximadamente 607 horas no fundo do mar.

Mesmo na última temporada, quando os pesquisadores acreditavam que encontrariam poucos objetos restantes, novas partes do casco apareceram sob a carga. Uma área que parecia rasa também revelou uma abertura cheia de peças e materiais orgânicos.

Mais de 10 toneladas de cobre estavam empilhadas no navio

O maior peso da carga vinha do cobre. Pesquisas ligadas à Texas A&M University registram 354 grandes lingotes de cobre no formato conhecido como oxhide, que juntos somavam aproximadamente 10 toneladas.

O nome oxhide significa “pele de boi”. As peças possuem quatro pontas que lembram as patas de uma pele de animal aberta, uma forma que também facilitava o transporte por pessoas ou animais.

Havia ainda outros lingotes menores de cobre. O Metropolitan Museum of Art destaca que Uluburun carregava mais de dez toneladas de cobre ligado à produção de Chipre, um dos grandes centros desse metal no Mediterrâneo da Idade do Bronze.

Outra tonelada de estanho completava a receita do bronze

Junto ao cobre apareceu algo ainda mais importante para entender a carga: aproximadamente uma tonelada de estanho. A proporção entre os dois metais estava próxima da usada para produzir bronze.

O bronze era feito ao misturar principalmente cobre com uma quantidade menor de estanho. O navio transportava material suficiente para produzir cerca de 11 toneladas desse metal, usado para ferramentas, armas e diferentes objetos.

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Um estudo científico publicado em 2022 descreveu o conjunto de Uluburun como a maior coleção conhecida de metais brutos da Idade do Bronze encontrada em um único contexto arqueológico. A tonelada de estanho também é considerada uma quantidade excepcional para aquele período.

A carga inteira pode ter chegado perto de 20 toneladas

Cobre e estanho eram apenas parte do peso. Havia grandes jarros, âncoras de pedra, vidro, madeira, marfim, cerâmica, armas, ferramentas e alimentos.

Um estudo da Texas A&M reconstruiu digitalmente diferentes formas possíveis para o navio. Os cálculos indicaram que uma embarcação com aproximadamente 15 metros de comprimento, 5 metros de largura e 2 metros de profundidade conseguiria carregar cerca de 20 toneladas de carga e objetos de bordo.

Muito pouco da madeira original sobreviveu. As partes encontradas, porém, mostram que o casco foi construído com cedro do Líbano e peças encaixadas por uma técnica de uniões de madeira presas por pequenos pinos.

Ouro apareceu entre o cobre, o estanho e os jarros

O navio não levava apenas matéria-prima pesada. Entre os objetos recuperados estavam joias, peças de ouro e produtos que teriam sido destinados a pessoas muito ricas.

Uma das peças mais conhecidas é um pequeno escaravelho de ouro com o nome de Nefertiti, rainha egípcia e esposa do faraó Akhenaton. O INA considera a peça única entre os objetos recuperados no naufrágio.

Também havia um grande cálice de ouro, medalhões e diferentes partes de joias. O Metropolitan Museum of Art destaca que algumas peças poderiam estar viajando como presentes de alto valor, enquanto outras talvez fossem metal destinado a reaproveitamento.

Mais de 170 blocos de vidro também viajavam no porão

Arqueólogos ainda encontraram mais de 170 lingotes de vidro bruto, usados como matéria-prima para produzir outros objetos. Alguns apresentavam cores como azul, turquesa e tons próximos ao violeta.

O vidro era valioso e exigia conhecimento especializado para ser produzido. Transportar centenas de quilos desse material mostra que o navio não fazia uma viagem simples entre duas cidades vizinhas.

Havia ainda pedras semipreciosas, incluindo cornalina e ágata. Esses materiais poderiam seguir para oficinas que transformariam a carga em joias, objetos de luxo e peças destinadas às elites.

Marfim, ovos de avestruz e madeira africana estavam a bordo

Algumas das cargas viajaram distâncias ainda maiores antes de chegar ao navio. A lista inclui presas de elefante sem trabalhar, dentes de hipopótamo, cascas de ovos de avestruz e madeira escura africana, conhecida em fontes antigas como ébano.

Também foram encontrados pequenos recipientes de marfim esculpido. Duas caixas de cosméticos em forma de pato estão entre os objetos que ajudam a mostrar o alto valor de parte da carga.

Para arqueólogos, essa mistura permite seguir antigas rotas comerciais que ligavam África, Egito, Levante, Chipre e regiões do Egeu muito antes dos grandes impérios clássicos que ficaram mais conhecidos na história.

Pelo menos 149 grandes jarros estavam dentro da embarcação

O INA registrou pelo menos 149 jarros cananeus no naufrágio. A maior parte tinha capacidade média próxima de 6,7 litros e muitos estavam cheios de resina de terebinto.

Essa resina vegetal tinha diferentes usos no mundo antigo. Podia entrar em produtos perfumados, preparados medicinais e outras atividades comerciais.

Outros recipientes guardavam alimentos ou produtos agrícolas. Cerâmicas de diferentes regiões também viajavam no navio, algumas novas e outras aparentemente usadas pela própria tripulação.

Objetos vinham de pelo menos 12 culturas diferentes

Um dos aspectos mais extraordinários de Uluburun não é apenas a quantidade, mas a distância entre os lugares representados na carga. O Metropolitan Museum of Art identificou produtos ligados a 12 culturas ou regiões diferentes.

Na lista aparecem áreas ligadas aos cananeus, micênicos, cipriotas, egípcios, núbios, povos dos Bálcãs e outras regiões da Ásia e do Mediterrâneo. Há até âmbar associado a redes que alcançavam o norte da Europa.

Tudo estava reunido em um único navio de aproximadamente 15 metros. Isso mostrou que o Mediterrâneo de 3.300 anos atrás tinha redes comerciais muito mais longas e organizadas do que uma leitura simples daquele período poderia sugerir.

Armas e objetos pessoais revelaram quem podia estar no navio

Os pesquisadores encontraram armas, pesos usados em balanças, utensílios de cozinha e até instrumentos musicais. Entre eles estavam instrumentos de corda com partes feitas de casco de tartaruga.

Esses objetos ajudam a separar a carga comercial dos bens usados pelas pessoas que estavam a bordo. O conjunto levou os especialistas do INA a sugerir uma tripulação de origem sírio-cananeia, acompanhada por alguns passageiros ligados ao continente grego.

O Metropolitan Museum também considera possível que o navio estivesse viajando para uma região do mundo grego quando naufragou. O destino exato, porém, não foi preservado em nenhum documento conhecido.

Uma pequena figura de bronze pode ter protegido os marinheiros

Entre as peças mais curiosas estava uma pequena figura feminina de bronze com partes cobertas por ouro. Ela mede apenas 16,4 centímetros, mas ganhou atenção especial dos pesquisadores.

A figura pode representar uma divindade cananeia e talvez fosse mantida a bordo como proteção para quem navegava. O Metropolitan Museum cita a possibilidade de se tratar de uma imagem ligada a uma deusa protetora dos marinheiros.

O navio, porém, não completou sua viagem. A embarcação terminou contra a costa rochosa próxima de Uluburun, deixando carga, objetos pessoais e partes do casco espalhados pela encosta submarina.

A madeira do casco revelou como um navio era construído há 3.300 anos

Para os arqueólogos, pequenos pedaços de madeira podiam valer tanto quanto uma joia. O motivo é simples: moedas e objetos sobrevivem com maior frequência, mas embarcações inteiras de madeira desaparecem com facilidade.

As partes preservadas mostraram que os construtores usaram cedro do Líbano. As tábuas eram ligadas por encaixes chamados de mortise-and-tenon, nos quais uma peça se prende à outra e recebe pequenos pinos para permanecer firme.

O navio também tinha uma estrutura inferior descrita pelo INA como uma espécie de protoquilha, uma forma antiga do elemento que mais tarde se tornaria central na construção de muitos barcos.

A descoberta mudou a imagem do comércio na Idade do Bronze

Antes de Uluburun, antigos textos e pinturas já mostravam reis recebendo cobre, ouro, madeira e objetos de terras distantes. Ainda existia, porém, uma diferença entre ler sobre essas trocas e encontrar uma carga inteira congelada no tempo.

No fundo do Mediterrâneo, arqueólogos encontraram dez toneladas de cobre, estanho suficiente para transformá-las em bronze e dezenas de outros produtos de alto valor viajando juntos. O navio virou uma prova física da dimensão dessas redes.

O INA afirma que o conjunto permite estudar construção naval, transporte, economia e trocas culturais de uma época situada séculos antes da Grécia clássica e do Império Romano.

O fundo do mar preservou uma viagem que nunca terminou

Mehmet Çakir viu apenas estranhas peças de metal quando mergulhou perto de Kaş em 1982. Não havia como saber que debaixo daquela encosta estavam ouro, marfim, vidro, cerâmica e matérias-primas ligadas a algumas das grandes culturas da Idade do Bronze.

A retirada exigiu onze temporadas, 22.413 mergulhos e mais de 6.600 horas de trabalho no fundo do mar. O resultado foi uma carga que havia permanecido escondida havia aproximadamente 3.300 anos.

Só os metais principais já impressionavam. Mais de dez toneladas de cobre viajavam ao lado de aproximadamente uma tonelada de estanho, quantidade suficiente para produzir cerca de 11 toneladas de bronze.

Ao redor estavam joias de ouro, o escaravelho com o nome de Nefertiti, marfim, madeira africana, ovos de avestruz, mais de 170 lingotes de vidro e pelo menos 149 grandes jarros.

Um mergulhador encontrou “biscoitos de metal”. Os arqueólogos acabaram encontrando uma fotografia quase completa de como mercadorias, pessoas e ideias atravessavam o Mediterrâneo há mais de três milênios.

Se um único navio de cerca de 15 metros carregava produtos ligados a regiões tão distantes há 3.300 anos, quantas rotas comerciais da Idade do Bronze ainda podem estar escondidas no fundo do Mediterrâneo?


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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