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Mergulhadores entram praticamente às cegas no fundo do rio em Santa Catarina, enfrentam forte correnteza para alcançar o “Titanic de SC” afundado há 133 anos, cortam seu aço e preparam operação para finalmente arrancar o gigante do leito e abrir espaço para navios ainda maiores
Escrito por Ana Alice
Publicado em 07/09/2026 às 14:57
Atualizado em 07/09/2026 às 14:58
Curiosidades
Canal
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Escondido sob as águas do Itajaí-Açu, um naufrágio do século XIX voltou ao centro de uma operação técnica que combina mergulho extremo, engenharia portuária e investigação histórica em uma das áreas mais movimentadas de Santa Catarina.
A poucos metros das rotas usadas por grandes navios no Complexo Portuário de Itajaí e Navegantes, existe um obstáculo que pertence a outro século.
No fundo turvo do rio Itajaí-Açu permanecem os destroços do Pallas, embarcação construída na Inglaterra em 1891 e naufragada em 1893, cuja estrutura ainda interfere nos planos de expansão de um dos principais corredores portuários de Santa Catarina.
Foi nesse cenário que mergulhadores especializados entraram na água nos dias 3 e 4 de setembro de 2026.
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Paulo Nogueira
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A correnteza era forte e, debaixo d’água, a visibilidade chegava a ser praticamente nula.
Mesmo assim, a equipe precisava se aproximar do casco, retirar amostras do metal e entender como uma embarcação que permanece submersa há mais de um século poderá ser desmontada e removida.
A operação integra a etapa final do estudo técnico conduzido pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em parceria com o Porto de Itajaí e a Autoridade Portuária Federal.
O levantamento custa R$ 310 mil e deverá definir a metodologia necessária para retirar os restos do Pallas do canal.
O desafio vai além de encontrar um navio antigo no fundo do rio.
Os especialistas precisam descobrir em que condições estão chapas metálicas, estruturas de madeira e sedimentos acumulados ao redor dos destroços antes de decidir onde cortar, como movimentar cada trecho e quais equipamentos poderão trabalhar com segurança naquele ponto.
Mergulhadores trabalham praticamente sem enxergar o Pallas
Os destroços estão próximos à Bacia de Evolução nº 2 e ao molhe norte, no lado de Navegantes, entre as boias 9 e 11 do canal de acesso.
É uma região marcada por correnteza e movimentação de água que tornam uma inspeção subaquática muito diferente de um mergulho convencional.
Durante os trabalhos de setembro, a equipe coletou informações sobre a posição e as condições estruturais da embarcação.
Também foram retiradas amostras do aço e realizados cortes experimentais para avaliar como o material reage depois de mais de um século submerso.
O professor Jules Soto, diretor do Museu Oceanográfico da Univali e responsável pelo acompanhamento dos estudos, explicou que a baixa visibilidade e a correnteza aumentam a dificuldade da inspeção.
“Estamos em uma etapa fundamental do estudo. Mesmo com visibilidade praticamente zero e forte correnteza, contamos com mergulhadores altamente capacitados para coletar informações essenciais sobre a estrutura da embarcação e as condições em que os destroços se encontram”, afirmou.
Esses testes ajudam a responder uma questão prática: como cortar e retirar um casco do século XIX sem saber exatamente quanto da estrutura original ainda permanece resistente?
Por isso, antes de uma operação de remoção em grande escala, os responsáveis precisam compreender espessura, deterioração e disposição dos materiais no leito do rio.
Destroços do Pallas podem ocupar cerca de 110 metros no rio
Uma das características mais curiosas do Pallas está justamente no formato que os destroços assumiram debaixo d’água.
Documentos técnicos usados na modelagem da concessão do Porto de Itajaí indicam que o navio original possuía cerca de 67 metros de comprimento.
No entanto, levantamentos encontraram aproximadamente 110 metros de distância entre as áreas identificadas como proa e popa.
Essa diferença levou os especialistas a considerar a possibilidade de o casco estar partido ao meio.
Estruturas metálicas e fragmentos de madeira também aparecem distribuídos pelo fundo do rio.
Os mergulhos de setembro servem justamente para atualizar esse diagnóstico e verificar a situação atual dos restos da embarcação.
A disposição exata das peças importa porque determina como cabos, ferramentas de corte, embarcações de apoio e demais equipamentos poderão ser empregados na retirada.
O Pallas, portanto, não está simplesmente pousado intacto no fundo como uma peça que poderia ser içada de uma vez.
A operação precisa considerar uma estrutura antiga, fragmentada e parcialmente coberta por sedimentos em uma área de navegação ativa.
Naufrágio de 1893 ainda interfere no Porto de Itajaí
Durante mais de um século, o navio permaneceu submerso sem provocar o tipo de problema que hoje mobiliza engenheiros, mergulhadores e autoridades portuárias.
Isso mudou porque os projetos atuais pretendem aumentar as dimensões e a profundidade disponíveis para embarcações modernas.
Segundo a Univali e o Porto de Itajaí, os destroços impedem o aprofundamento daquele trecho para 16 metros e dificultam a ampliação da Bacia de Evolução nº 2, espaço usado para as manobras dos navios.
O projeto prevê uma bacia com 530 metros de diâmetro.
A Univali informa que a adequação permitirá atender operações de navios de até 366 metros, enquanto o Ministério de Portos e Aeroportos afirma que o conjunto mais amplo de intervenções e a concessão do canal deverão criar condições para embarcações de até 400 metros.
É aí que um naufrágio do século XIX encontra a engenharia portuária do século XXI.
Enquanto o Pallas permanecer naquela posição, existe uma limitação física justamente em uma área prevista para receber obras de aprofundamento e ampliação.
Retirada do Pallas é estimada em cerca de R$ 23 milhões
O estudo de R$ 310 mil atualmente conduzido pela Univali não corresponde ao custo da retirada completa.
A estimativa divulgada pelo Ministério de Portos e acompanhada pela Federação das Indústrias de Santa Catarina é de aproximadamente R$ 23 milhões para remover o casco.
A Univali informou em setembro que a intervenção está prevista para ocorrer nos próximos dois anos.
A remoção também aparece entre as intervenções previstas no processo de concessão do canal de acesso do Complexo Portuário de Itajaí.
Documentos analisados pelo Tribunal de Contas da União incluem o Pallas entre as estruturas que precisam ser retiradas para permitir a expansão da segunda bacia de evolução.
Antes disso, porém, será necessário transformar os dados coletados pelos mergulhadores em um plano detalhado de execução.
A operação deverá considerar não apenas a engenharia necessária para remover os destroços, mas também aspectos relacionados ao patrimônio histórico e arqueológico de uma embarcação com mais de 130 anos.
Pallas afundou durante a Revolta da Armada
Muito antes de virar um obstáculo para navios modernos, o Pallas fazia parte de uma realidade marítima bastante diferente.
Construído na Inglaterra em 1891, o vapor transportava cargas e passageiros entre Buenos Aires e o Rio de Janeiro, realizando escalas em Itajaí.
Registros históricos também apontam para o transporte de cargas frigorificadas e operações envolvendo carvão no porto catarinense.
O naufrágio ocorreu em 23 de outubro de 1893, segundo documentos mais recentes usados pelo Porto de Itajaí, durante o período da Revolta da Armada.
A embarcação atingiu pedras submersas na região do Pontal da Barra de Itajaí, área que atualmente pertence a Navegantes, perto de onde se encontra o molhe norte.
A participação exata do Pallas no conflito aparece com versões diferentes nos registros históricos.
Documentação apresentada pelo próprio porto em 2018 afirma que havia relatos de uso da embarcação no período da revolta, mas sem comprovação de que o navio tivesse sido adaptado para combate.
Depois do naufrágio, os restos permaneceram no leito do rio.
Pallas voltou a ser localizado durante obras em 2017
O Pallas voltou ao centro das atenções em 2017, quando trabalhos de dragagem ligados à implantação da nova bacia de evolução encontraram estruturas no fundo do canal.
A descoberta levou a campanhas de mergulho e levantamentos por sonar.
Em janeiro de 2018, a empresa Sulmar Serviços Subaquáticos entregou ao Porto de Itajaí um relatório técnico sobre a posição e as características dos destroços.
Desde então, o antigo navio deixou de ser apenas uma curiosidade histórica submersa e passou a integrar o planejamento de infraestrutura do complexo portuário.
Mais de um século depois do acidente, aço, madeira e sedimentos acumulados no fundo do Itajaí-Açu precisam ser estudados com precisão suficiente para uma operação que envolve mergulho técnico, engenharia, patrimônio histórico e atividade portuária.
Os trabalhos realizados em setembro representam justamente essa tentativa de transformar um naufrágio de 1893 em dados técnicos capazes de orientar sua futura retirada.
Até que o estudo seja concluído e a metodologia definida, o Pallas continuará no mesmo ponto em que história e expansão portuária se encontram no fundo do rio.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

