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Monstro de 3.500 toneladas e 220 metros, mais comprido que dois campos de futebol, sai da fábrica na China para abrir um túnel de 18 km dentro da montanha com guia a laser que erra no máximo 3 milímetros na medição

Monstro de 3.500 toneladas e 220 metros, mais comprido que dois campos de futebol, sai da fábrica na China para abrir um túnel de 18 km dentro da montanha com guia a laser que erra no máximo 3 milímetros na medição

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Monstro de 3.500 toneladas e 220 metros, mais comprido que dois campos de futebol, sai da fábrica na China para abrir um túnel de 18 km dentro da montanha com guia a laser que erra no máximo 3 milímetros na medição

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 25/09/2026 às 13:33

Atualizado em 25/09/2026 às 13:34

Construção

Canal

A tuneladora Yuexi, de 220 metros e 3.500 toneladas, na base de montagem de Xinjin, em Chengdu. Foto: Divulgação, foto cedida pelas empresas do projeto ao Science and Technology Daily

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A tuneladora Yuexi, de duplo escudo e 13,01 m de diâmetro, foi feita pela CREG com a Shudao e vai trabalhar num túnel de 18 km em Sichuan, o túnel rodoviário mais longo em obras na província

A tuneladora Yuexi, com 3.500 toneladas e 220 metros, saiu da fábrica na China em 24 de setembro de 2026 para abrir um túnel de 18 km dentro das montanhas de Sichuan.

Segundo a agência Xinhua, a máquina foi desenvolvida em conjunto pela Shudao Investment Group, de Sichuan, e pela China Railway Engineering Equipment Group, a CREG. A roda de corte tem 13,01 metros de diâmetro.

O destino é o túnel Yuexi, de cerca de 18,4 km, na rodovia expressa entre Jinkouhe e Xichang. A agência informa que é o túnel rodoviário mais longo em construção em Sichuan.

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Da fábrica de Chengdu para as montanhas de Liangshan

A festa de saída da linha de montagem aconteceu em Xinjin, distrito de Chengdu, capital de Sichuan, registra a China News.

A roda de corte de 13,01 metros da Yuexi, pintada com o mascote Shubao, antes da saída da fábrica. Foto: Divulgação, foto cedida pelas empresas do projeto ao Science and Technology Daily

Ali fica a base da China Railway Hi-Tech Intelligent Equipment, empresa do mesmo grupo da CREG, onde a Yuexi passou pela montagem final e pelos testes antes de ser apresentada.

Dali, a tuneladora Yuexi segue para Liangshan, prefeitura autônoma do povo yi. O túnel fica na divisa entre dois condados, Yuexi e Xide, conforme a China News.

Na foto de divulgação, ela parece um cilindro branco e vermelho deitado sobre suportes amarelos. A roda da frente foi pintada de verde, com montanhas, uma estrada sinuosa e o Shubao, um mascote com traços da cultura yi, como mostra a imagem.

220 metros: mais que dois campos de futebol em fila

A Xinhua informa o comprimento total: 220 metros. Pense num campo de futebol de 105 metros com outro igual logo atrás. A conta dá 2 x 105 = 210 metros, e a Yuexi passa dessa fila em 10 metros.

A Yuexi em escala, ao lado de dois campos de futebol de 105 metros e dos tatuzões Hebe Camargo e Maria Leopoldina, de São Paulo. Foto: Arte Click Petróleo e Gás, com dados da Xinhua, do governo de SP e do consórcio da Linha 2-Verde

A China News usa outra régua. A agência afirma que os 220 metros são quase o comprimento de um trem-bala padrão, e o diâmetro equivale à altura de um prédio residencial de quatro andares.

O peso da máquina inteira chega a 3.500 toneladas, registra a Xinhua. Entram nessa conta a cabeça de corte, os escudos e o comboio de carretas que segue atrás dela dentro do túnel.

O recorde de diâmetro que a China News atribui à Yuexi

A China News afirma que a Yuexi é a maior do mundo em diâmetro entre as tuneladoras de duplo escudo. O título é de categoria: vale para o diâmetro e só entre máquinas desse tipo.

Na versão da Xinhua, a tuneladora Yuexi é de duplo escudo, de “diâmetro ultragrande” e de fabricação chinesa.

O duplo escudo é um dos três tipos de tuneladora para rocha dura, ao lado da aberta e da de escudo simples. O de duplo escudo tem dois modos de escavar.

Como a roda da frente quebra a rocha

Na frente da máquina gira a roda de corte, cravejada de 83 discos de aço de 19 polegadas. Cada disco rola apertado contra a rocha, e a pressão arranca lascas da parede.

As lascas caem para dentro da roda e seguem por uma esteira que atravessa a máquina até a saída do túnel. É um tubo digestivo de aço: a Yuexi rói a montanha numa ponta e despeja o entulho na outra.

O apelido vem daí. Na China, o tatuzão ganhou o nome de “pangolim de aço”. Em chinês, pangolim se escreve com três caracteres que querem dizer atravessar, montanha e armadura.

Dois escudos e dois jeitos de empurrar a máquina

O duplo escudo do nome é a blindagem de aço em volta da parte da frente. Ela se divide em duas peças que deslizam uma dentro da outra, como as partes de uma luneta: o escudo da roda e o escudo que ancora a máquina.

Em rocha firme, sapatas hidráulicas se abrem para os lados e travam o escudo de trás contra as paredes. Com ele preso, cilindros empurram o escudo da frente e a roda contra a rocha, como detalha a documentação técnica de fabricantes.

Enquanto a roda avança, a parte de trás monta a parede, e é esse trabalho em paralelo que a Xinhua destaca. Um braço mecânico encaixa as peças de concreto que formam os anéis do revestimento, sem esperar a escavação parar.

Quando a rocha está quebrada demais para segurar as sapatas, o jeito muda. A máquina recolhe as sapatas, apoia-se nos anéis de concreto já instalados e usa outro jogo de cilindros para seguir em frente.

Na China, os dois modos são descritos como dois “sistemas de força”, que deixam a Yuexi, de duplo escudo, trabalhar em rocha dura e também em rocha fraturada ou mole. No túnel de 18 km, rocha fraca não falta.

Parede pronta logo atrás da roda

A Xinhua informa que a máquina faz tudo ao mesmo tempo: escava, monta o revestimento de concreto, dá suporte à rocha em volta, retira o entulho e instala equipamentos. As etapas correm em paralelo.

Entre o anel de concreto e a rocha sobra uma folga. Ela recebe cascalho miúdo, e depois entra calda de cimento injetada para reforçar o conjunto.

No total, são 37 sistemas trabalhando juntos, da roda de corte ao acionamento principal. O túnel sai da máquina já com parede.

Outro ganho, segundo a China News, é a segurança. Com a tuneladora, menos gente fica exposta na frente de escavação, área de alto risco, e o entorno sofre menos perturbação.

Por que a máquina precisa de um comboio tão comprido

A roda e os escudos são só a cabeça. Atrás deles vem uma fila de carretas com sala de controle, oficina, área de descanso e câmara de refúgio para emergências.

As carretas que seguem a roda de corte levam sala de controle, oficina, área de descanso e câmara de refúgio. Foto: Divulgação, foto cedida pelas empresas do projeto ao Science and Technology Daily

É ali que a equipe opera a máquina, faz a manutenção, come, descansa e se abriga em caso de acidente. Na China, essa parte ganhou o apelido de “castelo móvel” subterrâneo.

Em São Paulo, o tatuzão da Linha 6 seguia a mesma lógica, em escala menor. Segundo o governo paulista, o tatuzão Maria Leopoldina, da Linha 6-Laranja, tinha cabine de comando, esteira, refeitório e cabine de enfermagem em seus 109 metros.

A guia a laser que mede a posição no túnel de 18 km com erro de até 3 milímetros

Debaixo de até um quilômetro de rocha, não há sinal de satélite para guiar ninguém. A tuneladora Yuexi leva um sistema automático de guia a laser, que a Xinhua chama de “navegação milimétrica” para túneis na casa dos 10 km.

O erro de medição fica travado em até 3 milímetros, informa a agência. O número se refere à precisão com que o sistema mede a posição da máquina enquanto ela escava.

Nas obras com tuneladora, a guia costuma usar uma estação laser presa à parede do túnel, que mira um alvo instalado na máquina. O computador calcula a posição da roda e mostra ao operador o desvio em relação ao traçado do projeto.

Os sensores que escutam a rocha antes de cavar

A Yuexi também tenta saber o que vem pela frente. Várias perfuratrizes que furam e injetam calda ficam em pontos diferentes da máquina, detalha a Xinhua.

A vibração da broca e os sensores dentro do furo mostram, por vários ângulos, como está a rocha adiante. Os chineses comparam essas perfuratrizes a “ouvidos” encostados na montanha.

As mesmas perfuratrizes injetam calda para reforçar a rocha à frente da roda. O método é resumido em chinês como “sondar enquanto escava e reforçar antes”.

O túnel de 18 km terá até 1.011 metros de montanha por cima

Na conta exata, são cerca de 18,4 km, em dois tubos separados, registra a China News. É a obra que controla o prazo da rodovia Jinxi inteira.

No ponto mais fundo, registra a agência, a pista vai passar com 1.011 metros de rocha por cima. É mais de um quilômetro de montanha sobre os carros.

Lan Fuan, vice-gerente-geral da Sichuan Expressway Construction and Development Group, contou à Xinhua que o traçado atravessa Xiaoxiangling, área ecologicamente sensível. Na boca do túnel, o canteiro é apertado e fica colado à linha nova da ferrovia Chengdu-Kunming.

Rocha que desaba, gás e trem passando ao lado

Segundo a Xinhua, 81,6% do túnel de 18 km passa por rocha de classe IV. Tanto a encosta da entrada quanto o corpo do túnel tendem a perder estabilidade e desabar.

A lista não para aí. Há gás em baixa concentração, o que exige controle contra explosão durante toda a obra, e a pressão de um quilômetro de montanha traz risco de estouro de rocha.

Lin Guojin, diretor da divisão de túneis do instituto de projetos rodoviários de Sichuan, ligado à Shudao, contou que 11 km do túnel ficam sob área controlada e de proteção de mananciais. Nesse trecho, não há como abrir poços inclinados de apoio.

A ferrovia ao lado completa o quadro. Perto dela, a escavação precisa ser mecânica, sem explosivos, para não abalar a linha em operação, detalha a imprensa chinesa.

Máquina de um lado, explosivos do outro

A saída foi dividir o trabalho, detalha a China News. O tubo esquerdo do túnel de 18 km fica com a Yuexi. O tubo direito e o trecho de saída do tubo esquerdo serão abertos com perfuração e explosivos, com todas as etapas mecanizadas.

Passagens transversais no meio do túnel, que ligam um tubo ao outro, vão abrir frentes extras de escavação. A estratégia ganhou um nome: “túnel longo, ataques curtos”.

Essa dupla de tuneladora com explosivos mecanizados é muito representativa das rodovias expressas chinesas, afirma a China News. Cada método entra onde rende mais, conforme a geologia.

400 metros por mês contra algumas dezenas no método antigo

“No método tradicional de perfuração e explosivos, só se avança de algumas dezenas a cem metros por mês. Com a tuneladora, são 400 metros por mês”, disse Kang Haibo, vice-engenheiro-chefe do Sichuan Road & Bridge Group, a construtora da obra.

Dividido por 30 dias, o ritmo de 400 metros por mês dá cerca de 13 metros por dia. A Xinhua informa que a Yuexi rende de 3 a 5 vezes mais que o método antigo.

Na conta de Kang, quanto mais rápido o pangolim rói a montanha, mais cedo a rodovia abre.

Em São Paulo, o melhor dia do tatuzão Maria Leopoldina rendeu 41,3 metros em 24 horas, recorde de outubro de 2024, segundo o governo paulista. É um número de outra natureza: um recorde de um dia, e não uma média de mês.

O que muda na viagem: três condados ganham rodovia expressa

O túnel de 18 km fica na rodovia expressa Jinxi, de cerca de 211,6 km entre Jinkouhe e Xichang. As obras começaram em abril de 2025, e a abertura ao tráfego está prevista para 2031.

Será a terceira rodovia expressa entre Chengdu e a região de Liangshan. Segundo a Xinhua, ela vai encerrar a história de três condados que nunca tiveram esse tipo de estrada: Ganluo, Yuexi e Xide.

O ganho mais concreto aparece no inverno. A nova ligação deve resolver o problema das restrições de trânsito por gelo e neve que a rodovia Ya’an-Xichang enfrenta nessa época, com circulação em qualquer tempo, informa a agência.

No mapa econômico, a Jinxi liga a planície de Chengdu à região de Panxi, registra a Xinhua.

Maior que a Hebe Camargo, a gigante do metrô de São Paulo

No Brasil, o paralelo mais próximo está debaixo de São Paulo. O tatuzão Hebe Camargo, da Linha 2-Verde, tem cerca de 130 metros, 11,67 metros de diâmetro e perto de 2.600 toneladas.

A Hebe Camargo deve começar no início de outubro a cavar os cerca de 6,5 km entre a Penha e Guarulhos, segundo o consórcio da obra. O tatuzão paulista também saiu da CREG, na China.

Yuexi (Sichuan, China)Hebe Camargo (Linha 2-Verde, SP)Maria Leopoldina (Linha 6-Laranja, SP)Peso3.500 tcerca de 2.600 t2.000 tComprimento220 mcerca de 130 m109 mDiâmetro de corte13,01 m11,67 m10,6 mÁrea da frente de corte (conta: 3,1416 x raio x raio)cerca de 133 m²cerca de 107 m²cerca de 88 m²Obratúnel rodoviário de cerca de 18,4 kmcerca de 6,5 km até Guarulhoscerca de 8,9 km no trecho sul

A conta da área mostra o que o olho não pega. Pela fórmula do círculo, a frente da Yuexi tem cerca de 133 m² (3,1416 x 6,505 x 6,505).

A frente da Hebe Camargo fica em cerca de 107 m² (3,1416 x 5,835 x 5,835). É 24% mais rocha a cada metro de avanço.

Na balança, a Yuexi pesa 900 toneladas a mais e é 90 metros mais comprida que o tatuzão Hebe Camargo. Diante da Maria Leopoldina, a frente de corte chinesa é cerca de uma vez e meia maior.

Quem fabrica: a CREG e uma fábrica nova em Chengdu

A placa pintada na blindagem da Yuexi mostra quem fez o quê. A obra é o lote TJ9 da rodovia Jinkouhe-Xichang, a construtora é o Sichuan Road & Bridge Group e as fabricantes são a CREG e a China Railway Hi-Tech Intelligent Equipment.

A placa na blindagem da Yuexi lista a obra, a construtora e as duas fabricantes. Foto: Divulgação, foto cedida pelas empresas do projeto ao Science and Technology Daily

A CREG é do grupo China Railway, cujo logotipo aparece na faixa vermelha ao lado da placa, junto aos da Shudao e da construtora. A Shudao entrou como parceira no desenvolvimento, segundo a Xinhua.

A fábrica de Xinjin nasceu em setembro de 2023, criada pela China Railway Hi-Tech Industry com um grupo de recursos hídricos de Sichuan e um instituto de projetos ferroviários, registra a China News.

É a primeira linha inteligente de montagem de tuneladoras do sudoeste da China. Completa, a base deve produzir 14 tuneladoras de escudo por ano, além de 50 conjuntos de equipamentos para túneis, e empregar mais de mil pessoas, segundo a agência.

As peças-chave da Yuexi foram feitas no país, e a montagem final aconteceu em Sichuan. Kang Haibo afirma que a máquina recebeu mais de dez projetos específicos para o túnel de 18 km, pensados para rocha mole, deformação e gás.

Xu Hao, presidente do conselho da China Railway Hi-Tech Intelligent Equipment, resumiu a aposta à Xinhua: “A chave para destravar a obra está nesta nova máquina nacional, feita sob medida”.

O próximo passo da Yuexi é o tubo esquerdo, em Liangshan

Com a saída da fábrica, a tuneladora Yuexi vai para Liangshan, onde deve trabalhar no tubo esquerdo do túnel de 18 km.

No tubo ao lado, o método de explosivos mecanizados segue em paralelo, e as duas frentes avançam ao mesmo tempo.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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