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Morador de Salinas que viveu a seca de 2015 com torneira vazia descobriu por conversa de corredor que a mineradora de lítio ganhou autorização para tirar 1,43% da represa que abastece a cidade
Escrito por Douglas Avila
Publicado em 11/09/2026 às 12:19
Atualizado em 11/09/2026 às 12:31
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Salinas ficou sem água na torneira na seca de 2015. Onze anos depois, o morador descobriu por conversa informal com um trabalhador da empresa que o órgão ambiental de Minas Gerais autorizou uma mineradora de lítio a captar água da mesma barragem que abastece a cidade. Ninguém foi avisado antes.
A autorização veio do Instituto Mineiro de Gestão das Águas, o Igam, e o volume liberado corresponde a 1,43% do armazenamento total do reservatório.
O caso foi divulgado em 8 de setembro de 2026 e colocou moradores na rua, com cartaz pedindo respeito à água da cidade.
A empresa é a PLS Brasil Mineração e o alvo é o lítio do norte de Minas
A mineradora envolvida é a PLS Brasil Mineração, e o município fica no norte mineiro, região de clima semiárido e histórico conhecido de escassez.
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Salinas está fora do chamado Vale do Lítio, o corredor do Jequitinhonha que concentra a maior parte dos projetos do mineral em Minas. Isso mostra que a corrida se espalhou.
Onde há pegmatito com espodumênio, aparece pesquisa mineral. E onde aparece pesquisa mineral, aparece demanda por água.
Nos últimos anos o estado virou o centro brasileiro do mineral, puxado pela demanda global de bateria. Portanto, cidade pequena de clima seco entrou no radar de empresa que antes nem sabia dizer onde ela ficava.
A descoberta não veio por edital, veio por conversa de corredor
Esse é o ponto que mais incomoda quem mora lá. A população soube da outorga de forma informal.
Segundo o relato registrado na reportagem, os moradores descobriram por uma conversa informal com um trabalhador da empresa.
Confesso que é essa parte que transforma um procedimento administrativo comum numa crise de confiança local.
1,43% parece pouco até você lembrar de onde vem o número
Um por cento e quarenta e três centésimos do reservatório soa como volume marginal. E, em ano de chuva normal, provavelmente é.
O problema é que o norte de Minas não trabalha com ano de chuva normal como regra. Trabalha com ciclos.
Num ciclo seco, o percentual que hoje é desprezível passa a disputar espaço com o abastecimento urbano. É exatamente esse o receio dos moradores.
A barragem é de 1992 e está em 80% da capacidade
A estrutura foi construída em 1992 e opera hoje em torno de 80% da capacidade, segundo informação atribuída à companhia de saneamento.
Oitenta por cento é um nível confortável. Contudo, ele é uma fotografia, não uma garantia.
Quem viveu 2015 sabe disso. Naquele ano a torneira secou, e a memória dessa seca é o combustível do protesto atual.
Numa cidade que já ficou sem água, o argumento técnico perde força diante da experiência. Ninguém que encheu balde no vizinho aceita bem ouvir que um percentual pequeno não faz diferença nenhuma no reservatório.
O Igam não divulgou a vazão em litros por hora
O dado que falta é justamente o mais concreto. A autorização foi comunicada em percentual de armazenamento, e não em vazão.
Sem litros por hora e sem horário de captação, fica difícil para qualquer morador calcular o efeito real sobre o nível do reservatório.
Além disso, os estudos sobre a capacidade da barragem ainda estão pendentes, o que reforça a sensação de decisão tomada antes da conta fechada.
Beneficiar lítio consome água em volume industrial
Vale explicar por que uma mineradora precisa tanto de água. O beneficiamento de espodumênio passa por britagem, moagem e separação por meio denso.
Essas etapas usam água em circuito, com perda por evaporação e por umidade retida no rejeito. Portanto, mesmo com recirculação, existe reposição contínua.
É um consumo que não some. Ele acompanha a operação enquanto a mina estiver produzindo.
O que a outorga deveria trazer e não trouxe ao debate público
Uma outorga bem comunicada informa vazão máxima, período de captação, prazo de validade e condicionantes de suspensão em caso de estiagem.
Esses quatro itens permitem que qualquer pessoa avalie o risco. Sem eles, sobra o percentual isolado, que não diz se a retirada acontece o ano inteiro ou só na cheia.
É por isso que a discussão travou tão rápido em Salinas. Falta o dado que transformaria opinião em cálculo.
A outorga é legal, e é justamente esse o incômodo
Não há irregularidade apontada no processo. O Igam é o órgão competente para conceder outorga de uso de recurso hídrico em Minas Gerais.
O que a população questiona não é a legalidade, e sim o silêncio. Uma decisão que mexe com o reservatório de abastecimento chegou sem audiência, sem aviso e sem número público de vazão.
Assim, o conflito não é jurídico. É de confiança.
Esse tipo de desgaste costuma sair caro para a própria empresa. Projeto mineral depende de convivência longa com a cidade, e começar essa convivência com sensação de decisão escondida trava licença, contrato e contratação local.
Os moradores foram para a rua com cartaz e balão
O protesto reuniu gente na área central, com faixas pedindo respeito à água da cidade e balões usados como símbolo do reservatório.
É mobilização de cidade pequena, sem estrutura de sindicato e sem palanque. Ainda assim, esse tipo de manifestação costuma pautar prefeitura e Ministério Público em poucos dias.
Em municípios do semiárido, água mobiliza mais do que qualquer outra pauta. Quem já dependeu de carro-pipa não precisa de estudo técnico para entender o que está em jogo quando o assunto é o nível da represa.
A reportagem completa com a resposta do órgão está em O Tempo.
O que Salinas coloca na mesa vale para todo o norte de Minas
A corrida do lítio brasileira avança sobre municípios pequenos, com orçamento curto e capacidade técnica limitada para acompanhar processo de licenciamento.
Nesse desenho, a transparência da outorga deixa de ser formalidade e vira a única ferramenta real de controle que sobra para quem mora ali. Sem ela, a cidade descobre a decisão depois de tomada.
Quem acompanha o tema pode ver também como a exploração de lítio vem avançando em Minas Gerais. O que você acha dessa decisão?
Sua cidade saberia dizer quanta água da represa local está comprometida com empresa privada?
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Fonte
O Tempo — Igam autoriza mineradora de lítio a usar água do reservatório de Salinas
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Douglas Avila.

