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Motorista autista coloca placa pedindo silêncio, cuidado ao fechar portas e mudanças pelo aplicativo, enquanto Uber e 99 não têm ferramenta específica informada publicamente para necessidades sensoriais

Motorista autista coloca placa pedindo silêncio, cuidado ao fechar portas e mudanças pelo aplicativo, enquanto Uber e 99 não têm ferramenta específica informada publicamente para necessidades sensoriais

6 min de leitura

Motorista autista coloca placa pedindo silêncio, cuidado ao fechar portas e mudanças pelo aplicativo, enquanto Uber e 99 não têm ferramenta específica informada publicamente para necessidades sensoriais

Escrito por Flavia Marinho

Publicado em 16/09/2026 às 19:06

Atualizado em 16/09/2026 às 19:07

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Uma placa criada por um motorista autista para explicar necessidades durante as corridas expôs uma questão maior sobre acessibilidade no trabalho.

Uma folha presa ao banco traseiro de um carro de aplicativo transformou necessidades do dia a dia em regras visíveis para os passageiros. O motorista informa que é autista e pede silêncio durante a viagem, cuidado ao fechar as portas e mudanças de destino feitas pelo aplicativo.

O aviso também pede que ninguém coma ou faça as unhas dentro do carro, orienta os passageiros a verificar se esqueceram objetos e recomenda evitar perfumes fortes. Porém, nem todos esses pedidos têm relação direta com o autismo, ponto importante para entender o caso sem transformar diferentes necessidades do motorista em uma única questão.

A informação foi publicada pelo UOL, portal brasileiro de notícias e conteúdo digital, e mostrou que recursos disponíveis nas plataformas ainda não contemplam algumas necessidades sensoriais de condutores neurodivergentes.

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Pedido de silêncio está ligado à concentração, enquanto outras regras envolvem rinite e conservação do carro

O ponto mais diretamente relacionado às necessidades sensoriais aparece no pedido para que os passageiros evitem conversar durante a corrida. Pessoas autistas podem apresentar diferentes níveis de sensibilidade a sons, conversas e outros estímulos, embora essas características não sejam iguais para todos.

Já a recomendação para evitar perfumes fortes foi associada pelo próprio aviso à rinite do motorista. Não comer dentro do veículo, fechar as portas com cuidado e verificar objetos antes de sair são orientações ligadas principalmente à conservação e à organização do carro.

Pedido de silêncio está ligado à concentração, enquanto outras regras envolvem rinite e conservação do carro.

A psicóloga clínica Mariana Machado, gestora do Núcleo de Apoio ao Discente e Docente do Centro Universitário de Brasília, explicou que não é correto atribuir automaticamente todas as necessidades apresentadas por uma pessoa autista ao diagnóstico.

Ela observou que pedidos relacionados ao silêncio convivem, no mesmo aviso, com cuidados referentes à rinite, ao veículo e à própria organização da corrida. Assim, a placa reúne necessidades sensoriais e regras comuns na rotina de motoristas de aplicativo.

Érick Ribeiro conta que conversas e vídeos podiam dificultar sua concentração ao dirigir

A experiência de Érick Ribeiro ajuda a mostrar por que uma comunicação prévia pode fazer diferença. Diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista, o TEA, ele trabalhou com transporte por aplicativo por mais de três anos.

Na reportagem publicada em 8 de agosto de 2026, Érick contou que havia deixado as corridas havia seis meses depois de ser contratado por uma empresa para realizar entregas. A mudança trouxe outros desafios, como endereços errados e comunicação pouco clara, mas também ofereceu maior previsibilidade à rotina.

Durante o período em que dirigia para passageiros, conversas paralelas, vídeos reproduzidos no celular e pessoas falando alto podiam prejudicar sua concentração. Em algumas situações, ele precisava pedir que o passageiro diminuísse o volume do aparelho.

Érick resumiu uma dificuldade que poderia ser resolvida dentro da própria tecnologia usada para chamar o carro: “Mas se o aplicativo tivesse uma sinalização de motorista autista, teria sido mais fácil”.

Uber e 99 possuem recursos para alguns motoristas, mas não apresentam função equivalente para autistas

As plataformas já utilizam ferramentas de acessibilidade em algumas situações. Motoristas surdos ou com deficiência auditiva, por exemplo, podem ter essa condição informada aos passageiros e contar com recursos que favorecem a comunicação por mensagens.

O UOL, portal brasileiro de notícias e conteúdo digital, identificou que não havia nas informações públicas das plataformas uma função equivalente para motoristas autistas avisarem antecipadamente sobre necessidades relacionadas a conversas, estímulos sensoriais ou outras condições individuais.

Na ausência desse recurso, o profissional que teve a placa divulgada nas redes sociais encontrou uma solução simples fora da tela do celular: imprimiu as orientações e as colocou dentro do veículo.

Essa diferença também aparece nas preferências disponíveis durante algumas viagens. Passageiros podem indicar interesse em conversar ou seguir em silêncio em determinadas modalidades, enquanto o motorista não possui uma opção equivalente para informar que evitar conversas pode ajudá lo a dirigir com maior concentração.

99 não coleta diagnóstico de TEA no cadastro e Uber não respondeu antes da publicação

A 99 informou que não solicita informações sobre diagnóstico de TEA durante o cadastro dos motoristas parceiros. Dessa forma, a empresa declarou não saber quantos condutores autistas trabalham em sua plataforma.

A companhia também afirmou manter um Guia da Comunidade com orientações relacionadas a respeito, segurança, comunicação e responsabilidade, além de um canal para que motoristas comuniquem necessidades.

Érick Ribeiro conta que conversas e vídeos podiam dificultar sua concentração ao dirigir.

A Uber também foi procurada, mas não respondeu antes da publicação da reportagem em 8 de agosto de 2026.

Isso impede saber, a partir das informações apresentadas naquela apuração, quantos motoristas autistas trabalham nessas plataformas ou quantos poderiam utilizar uma ferramenta específica de comunicação sobre necessidades sensoriais.

Previsibilidade e menos estímulos podem fazer diferença na rotina de trabalho

Mariana Machado explicou que o trabalho por aplicativo pode funcionar bem para algumas pessoas autistas e ser difícil para outras. O autismo é um espectro, portanto necessidades, capacidades e respostas aos estímulos variam entre indivíduos.

Escolher horários, fazer pausas e organizar a própria rotina pode oferecer vantagens para determinados profissionais. Ao mesmo tempo, dirigir por aplicativo envolve contato frequente com pessoas diferentes, avaliações, alterações inesperadas e situações sobre as quais o motorista possui pouco controle.

Ambientes com muitos estímulos, comunicação ambígua e mudanças frequentes também podem criar barreiras no mercado de trabalho. Isso significa que a dificuldade nem sempre está na execução da tarefa principal, mas nas condições ao redor dela.

Medidas simples, como comunicação objetiva, previsibilidade, aviso antecipado sobre mudanças e redução de estímulos quando necessária, podem diminuir algumas dessas barreiras sem modificar a função exercida pelo profissional.

Brasil tem 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo, mas faltam dados sobre participação no trabalho

O Censo 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista no Brasil, número equivalente a 1,2% da população.

Ainda não existe um retrato oficial apresentado na reportagem sobre quantas dessas pessoas estão no mercado de trabalho. Também não há levantamento indicando quantas atuam como motoristas de aplicativo.

A trajetória de Érick mostra uma das possibilidades desse mercado. Antes de dirigir pela Uber e pela 99, ele relatou que não tinha faculdade e dependia de auxílios do governo e trabalhos ocasionais. As corridas deram experiência profissional e autonomia, e depois ele conseguiu um emprego com carteira assinada.

O caso da placa, portanto, ultrapassa a discussão sobre aceitar ou rejeitar regras dentro de um carro. Ele mostra como uma informação simples apresentada antes da corrida poderia dar mais previsibilidade ao motorista e ao passageiro, sem obrigar o profissional a improvisar sua própria forma de comunicação.

A folha impressa tornou visível uma necessidade que as interfaces das plataformas ainda não apresentam de maneira específica para motoristas autistas. Ao mesmo tempo, o caso exige cuidado para não colocar na conta do autismo regras relacionadas à rinite, à conservação do carro ou à organização da viagem.

Você acha que os aplicativos deveriam permitir que motoristas informassem previamente necessidades sensoriais aos passageiros? Compartilhe sua opinião nos comentários.

Tags

motorista autistanecessidades sensoriais

Fonte

UOL


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

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