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Mulher que trabalhou na roça, foi doméstica e faxineira transforma sonho de infância em 30 anos na estrada, cria os filhos enquanto enfrenta preconceito, assume carreta de 22 metros e roda 460 km por dia, mas ainda dorme escondida dentro do caminhão para não revelar que é mulher
Escrito por Ana Alice
Publicado em 08/09/2026 às 09:51
Atualizado em 08/09/2026 às 09:52
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Há três décadas nas estradas, Roselene Aparecida conduz carretas em rotas de São Paulo enquanto enfrenta desafios de segurança, preconceito e baixa participação feminina em um dos setores mais masculinos do transporte brasileiro.
Há cerca de três décadas nas estradas, Roselene Aparecida construiu uma carreira dirigindo caminhões, ônibus e carretas em um setor no qual as mulheres continuam minoria.
Aos 62 anos, ela percorre rotas para a Baixada Santista, em São Paulo, ao volante de uma carreta prancha de aproximadamente 22 metros, usada no transporte de máquinas agrícolas.
A experiência acumulada não eliminou uma preocupação que acompanha sua rotina: a segurança.
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Paulo Nogueira
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“Eu me reservo porque mulher é presa fácil”, afirmou Roselene em reportagem para Folha de S.Paulo publicada em 1º de abril de 2026.
Nas viagens, ela mantém os vidros fechados e conta com escolta durante parte das operações.
Quando precisa permanecer em postos de combustível, procura observar o movimento ao redor antes de sair do veículo e evita chamar atenção para o fato de estar sozinha no comando da carreta.
A estratégia, segundo ela, foi construída ao longo de anos trabalhando em uma atividade ainda fortemente masculina.
Rotina de caminhoneira pode superar 460 quilômetros por dia
Roselene trabalha em operações da empresa de logística JSL e dirige regularmente entre o interior paulista e a região da Baixada Santista.
Parte do percurso passa pela Via Anchieta e pela Serra do Mar, trecho que exige atenção redobrada devido ao traçado, às curvas e às características de circulação de veículos pesados.
Em alguns dias, segundo o relato da motorista, são pelo menos 460 quilômetros percorridos.
A carga também exige experiência.
Em vez de produtos acondicionados em baús convencionais, Roselene conduz uma carreta prancha destinada ao transporte de máquinas agrícolas.
Além do tamanho do conjunto, o tipo de operação exige cuidados com amarração, deslocamento da carga, velocidade e condições da estrada.
É uma realidade bastante diferente daquela encontrada por Roselene quando começou profissionalmente.
Primeiro emprego como caminhoneira veio em 1996
Natural de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, Roselene conta que o interesse por veículos começou ainda na infância.
A primeira experiência ao volante, segundo ela, aconteceu aos 12 anos, quando dirigiu escondida o Fusca de um tio por um quarteirão.
Antes de entrar no transporte, trabalhou na roça e também atuou como empregada doméstica e faxineira.
A oportunidade profissional com caminhões apareceu em 1996, quando conseguiu emprego como motorista na Braspress.
Naquele momento, encontrar mulheres exercendo a mesma atividade era incomum.
“Não tinha mulher. Entrei na briga”, relembrou.
A rotina incluía não apenas dirigir.
Roselene também participava do carregamento e descarregamento das mercadorias, tarefas frequentes nas operações em que trabalhou.
Mais tarde, deixou temporariamente os caminhões para conduzir ônibus coletivos em Jundiaí, também no interior paulista.
Chegou a dirigir veículos de dois andares e afirma que, naquela época, encontrou passageiros que demonstravam resistência ao perceber que uma mulher estava ao volante.
Segurança de mulheres nas estradas influencia a rotina
A passagem dos anos trouxe experiência profissional, mas não eliminou situações que Roselene associa ao preconceito e à vulnerabilidade feminina durante as viagens.
Ao precisar dormir em postos, por exemplo, ela diz escolher com cuidado onde estacionar, observar as pessoas próximas, tomar banho, preparar a refeição e voltar para dentro da cabine.
“Chego cedo, analiso quem está perto, tomo meu banho, faço janta e fico ali dentro sem que alguém perceba que é uma mulher dirigindo.”
O receio relatado por Roselene ajuda a revelar um dos obstáculos enfrentados por mulheres interessadas em trabalhar no transporte rodoviário: além da capacitação necessária para dirigir veículos pesados, aspectos como segurança nos pontos de parada e estrutura das estradas também influenciam a permanência dessas profissionais no setor.
Um material apresentado pelo Ministério dos Transportes já havia apontado insegurança nas estradas e condições dos locais de descanso entre os fatores relacionados à participação feminina no transporte de cargas.
Mulheres ainda são minoria entre motoristas de veículos pesados
A diferença de participação entre homens e mulheres permanece significativa.
Dados da Secretaria Nacional de Trânsito citados por entidades do setor indicam que as mulheres representam pouco mais de 6% dos condutores habilitados nas categorias C, D e E, que permitem conduzir diferentes tipos de veículos pesados.
O levantamento aponta aproximadamente 360 mil mulheres entre cerca de 9,2 milhões de pessoas habilitadas nessas categorias.
Esse cenário também ocorre dentro das empresas.
Segundo Bianca Furlan, gerente de Desenvolvimento Humano e Organizacional da JSL, uma análise interna realizada pela companhia identificou mulheres em apenas 4% das funções operacionais, enquanto a participação feminina entre motoristas era de aproximadamente 1,5% no recorte apresentado pela empresa.
Foi nesse contexto que Roselene encontrou uma oportunidade para retornar às operações com veículos pesados.
Programa Mulheres na Direção abriu caminho para dirigir carretas
Em 2021, Roselene encontrou o anúncio do programa Mulheres na Direção, criado pela JSL para capacitar mulheres interessadas em funções operacionais.
Embora já possuísse habilitação categoria E, necessária para determinadas combinações de veículos de carga, ela ainda não havia trabalhado profissionalmente com aquele modelo de carreta.
A concorrência foi elevada.
Roselene esteve entre 12 mulheres selecionadas em um processo que recebeu cerca de 600 inscrições.
A capacitação envolveu três meses de aprendizado em áreas como mecânica, borracharia, elétrica, direção defensiva, direção econômica, logística e legislação de trânsito.
Depois da formação, ela foi contratada para trabalhar em uma operação da companhia em Piracicaba.
Desde a criação do projeto, a iniciativa ganhou novas turmas e passou a atender diferentes funções dentro da logística.
Em 2026, a JSL informou que o Mulheres na Direção já havia realizado 17 edições e contratado centenas de profissionais para diferentes operações, além de prever novas turmas ao longo do ano.
Formação feminina também responde à falta de motoristas
Para a companhia, ampliar a presença de mulheres não está relacionado apenas à diversidade.
O setor de transporte também enfrenta dificuldade para encontrar e formar novos motoristas profissionais.
Segundo Bianca Furlan, a proposta do programa é combinar a abertura de oportunidades com a formação de profissionais para uma área em que existe escassez de mão de obra.
A própria JSL ampliou iniciativas de capacitação para além das motoristas de carreta, incluindo treinamento para operação de empilhadeiras, manutenção e outras funções logísticas.
Roselene tornou-se uma das profissionais que passaram por esse processo depois de décadas trabalhando no transporte.
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Mesmo com a experiência acumulada, ela afirma que comentários preconceituosos ainda aparecem, embora ressalte que não representam todos os profissionais com quem convive.
“O preconceito infelizmente existe, e nas empresas não é diferente. Mas ele vem da minoria. A maioria apoia, orienta, ensina.”
Depois de cerca de 30 anos dirigindo profissionalmente, Roselene continua percorrendo centenas de quilômetros e conduzindo equipamentos que exigem habilitação e treinamento específicos, enquanto adota cuidados que considera necessários simplesmente por ser mulher na estrada.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

