Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Mulheres sem teto acharam que oferta de A$ 55 mil no Facebook era golpe, mas aceitaram construir microcasas sobre rodas, enfrentaram anos de medo, enchentes, trailers e barracas, e 15 delas viraram donas do próprio lar na Austrália

Mulheres sem teto acharam que oferta de A$ 55 mil no Facebook era golpe, mas aceitaram construir microcasas sobre rodas, enfrentaram anos de medo, enchentes, trailers e barracas, e 15 delas viraram donas do próprio lar na Austrália

7 min de leitura

Mulheres sem teto acharam que oferta de A$ 55 mil no Facebook era golpe, mas aceitaram construir microcasas sobre rodas, enfrentaram anos de medo, enchentes, trailers e barracas, e 15 delas viraram donas do próprio lar na Austrália

Escrito por Ana Alice

Publicado em 18/09/2026 às 00:00

Atualizado em 18/09/2026 às 00:01

Construção

Canal

Projeto na Austrália deu A$ 55 mil a 15 mulheres para construir microcasas sobre rodas e buscar moradia segura na crise habitacional. (Imagem: Ilustrativa)

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Projeto australiano levou 15 mulheres em insegurança habitacional a microcasas sobre rodas, após uma oferta de A$ 55 mil que parecia golpe e exigia participação direta na construção e no terreno.

Uma postagem no Facebook parecia improvável demais para ser verdadeira: mulheres sem moradia ou em risco de perder a casa poderiam receber A$ 55 mil para construir uma microcasa sobre rodas.

A proposta tinha uma condição: elas precisariam participar do processo, comprar ou providenciar o reboque, contribuir com parte do dinheiro e encontrar um terreno para instalar a casa.

Três anos depois, 15 mulheres na Austrália passaram de situações de insegurança habitacional para a posse de uma casa pequena, móvel e registrada em seus próprios nomes.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

O projeto, chamado Eden Tiny House Project, foi criado por Susan Boden, profissional da área de saúde mental em Canberra, e por um médico de família, com apoio de uma herança familiar.

A ideia era oferecer uma alternativa prática diante da crise habitacional australiana, especialmente para mulheres que aparecem menos nas estatísticas visíveis da falta de moradia: mães solo, mulheres mais velhas, vítimas de violência familiar, separadas ou afastadas por longos períodos do mercado de trabalho.

A iniciativa ganhou repercussão nacional em 2025 no programa Australian Story, da ABC, que acompanhou por três anos a trajetória de três participantes: Lauren De Groot, Anna Glanzen e Jes Star.

O caso segue chamando atenção porque mistura crise habitacional, construção alternativa, autonomia financeira e uma pergunta simples: até onde uma microcasa pode mudar a vida de alguém que já não conseguia imaginar ter um endereço próprio?

Oferta de A$ 55 mil parecia golpe

Lauren De Groot era mãe solo e estava hospedada temporariamente em casas de outras pessoas quando viu a publicação.

Segundo a ABC, ela desconfiou da proposta e chegou a pensar que fosse golpe.

Ainda assim, decidiu se inscrever depois de anos marcados por perdas sucessivas.

Em 2020, Lauren perdeu seus bens em um incêndio.

Dois anos depois, ela e a filha, então com três anos, foram atingidas pelas enchentes em Lismore, no norte de Nova Gales do Sul.

Depois disso, passou pela casa da mãe, por casas de amigos, por um trailer e por uma van.

Anna Glanzen também foi afetada pelas enchentes de 2022 e vivia com o filho em condições provisórias quando encontrou a mesma postagem.

Jes Star, trabalhadora de cuidado a idosos, aproximava-se da aposentadoria com pouca reserva financeira e avaliava a possibilidade de acabar sem moradia estável na velhice.

O que parecia uma promessa vaga virou um programa com critérios definidos.

As participantes receberiam A$ 55 mil para ajudar na construção da microcasa, além de treinamento básico em construção.

Em contrapartida, precisariam comprar o trailer sobre o qual a casa ficaria, contribuir com até A$ 38 mil de recursos próprios e alugar ou comprar o terreno onde a estrutura seria instalada.

Microcasas sobre rodas na Austrália

O Eden Tiny House Project foi apresentado por Susan Boden como uma “mão para cima”, não uma doação sem contrapartida.

A lógica era financiar parte da construção, mas manter as participantes envolvidas nas decisões, nos custos e, quando possível, nas tarefas práticas da obra.

As 15 mulheres selecionadas participaram, em agosto de 2022, de uma espécie de “universidade” de microcasas em Canberra, conduzida pelo especialista Fred Shultz.

Ali, aprenderam noções sobre projeto, ferramentas, etapas de construção e decisões necessárias para transformar um trailer em moradia.

O plano inicial previa que todas participassem diretamente das obras.

Com o tempo, o projeto passou a aceitar diferentes formatos.

Algumas mulheres construíram parte da casa, outras contrataram profissionais, e algumas optaram por modelos feitos em fábrica.

Essa flexibilidade se tornou necessária porque as participantes tinham filhos, empregos, problemas de saúde, limitações de tempo e históricos de instabilidade.

Em entrevista à ABC, Susan Boden afirmou que o projeto precisou permitir “mil formas de construir florescerem”, expressão usada para explicar que não havia um único caminho viável para todas.

Lauren De Groot reconstruiu a vida com o pai

Lauren De Groot conseguiu comprar um terreno fora de Lismore com ajuda de uma campanha de arrecadação organizada por amigos depois da enchente.

A construção da microcasa teve participação central do pai, Peter, que é construtor.

No dia da enchente, ele já havia ajudado a resgatar Lauren e a filha em um pequeno barco.

Depois, cumpriu a promessa de ajudá-la a reconstruir uma vida com moradia mais estável.

A obra também mexeu com a relação entre os dois.

Lauren relatou à ABC que conflitos antigos reapareceram durante o processo, mas que a presença do pai foi constante.

A experiência, segundo ela, reforçou o valor de “aparecer”, no sentido de estar presente todos os dias para fazer o trabalho avançar.

O resultado foi uma microcasa construída com participação familiar, em uma região ainda marcada pelos efeitos das enchentes de 2022.

Para Lauren, o projeto não significou apenas teto, mas também a possibilidade de reconstruir uma rotina com a filha depois de perdas sucessivas.

Anna Glanzen saiu da barraca para a própria casa

Anna Glanzen, educadora ao ar livre, vivia com o filho Noah no norte de Nova Gales do Sul em meio à escassez de moradias agravada pelas enchentes.

Segundo a ABC, em uma das primeiras entrevistas, ela estava sob uma lona, com chuva atravessando o abrigo.

Quando o trailer da microcasa chegou a Mullumbimby, em dezembro de 2022, Anna passou a viver em uma barraca no local para acompanhar a construção de perto.

Recebeu ajuda de um grupo ligado a uma igreja para erguer a estrutura inicial e, depois, contou com orientação do pai de uma amiga como mentor de obra.

Mesmo com apoio externo, ela fez parte significativa do trabalho.

Em relato ao Australian Story, Anna disse que cometeu erros de iniciante, mas que a experiência foi mudando sua percepção sobre o que era capaz de fazer.

Em vídeo publicado pela ABC em dezembro de 2025, Anna aparece como exemplo de participante que saiu da condição de moradia instável para a posse de uma microcasa perto de Mullumbimby.

A emissora descreveu sua trajetória como a passagem de uma barraca para a casa própria, com custo pessoal em torno de A$ 30 mil no caso dela.

Jes Star buscava segurança na aposentadoria

Jes Star, de 64 anos, escolheu uma microcasa construída em fábrica e instalada na região das Blue Mountains.

Para ela, o imóvel sobre rodas representou a redução de uma preocupação concreta: envelhecer sem ter onde morar.

Segundo a ABC, Jes tinha histórico de trauma na infância, trabalhava no cuidado de idosos e já avaliava alternativas de moradia antes de entrar no programa.

A microcasa virou, em seu caso, uma forma de segurança material e emocional.

Em depoimento ao Australian Story, ela disse que não enxergava apenas o tamanho reduzido do espaço, mas a própria possibilidade de reorganizar a vida.

A fala foi apresentada no contexto de sua experiência pessoal com moradia, envelhecimento e recuperação psicológica.

O caso de Jes também mostra por que microcasas atraem atenção em debates sobre habitação.

Elas não resolvem sozinhas a crise, mas podem oferecer uma alternativa para grupos específicos, desde que existam terreno, regras locais compatíveis, financiamento e suporte técnico.

Crise habitacional australiana

A Austrália enfrenta uma crise de acesso à moradia marcada por alta nos aluguéis, baixa disponibilidade de imóveis e pressão sobre pessoas em situação vulnerável.

O Eden Tiny House Project não foi apresentado como solução ampla para o problema, mas como uma experiência pequena, feita por pessoas comuns, com impacto direto sobre 15 mulheres.

Susan Boden afirmou à ABC que via os efeitos da falta de moradia no atendimento em saúde mental.

Um dos casos que a marcou foi o de uma enfermeira que morava em uma van.

Segundo ela, o atendimento psicológico ajudava, mas não resolvia a ausência de um lugar onde a paciente pudesse lavar-se com privacidade.

A partir dessa experiência, Boden e um amigo médico decidiram usar recursos próprios para criar uma intervenção limitada, mas concreta.

O modelo não eliminava todos os custos das participantes.

Ao contrário, exigia contrapartida financeira, acesso a terreno e envolvimento no processo.

Esse ponto diferencia o projeto de uma doação completa.

Para algumas mulheres, a exigência tornou a caminhada mais difícil; para outras, reforçou a sensação de participação direta no resultado final.

Modelo possível, mas com limites

A visibilidade do projeto aumentou depois da exibição do Australian Story em 2025.

A própria ABC publicou vídeo e reportagem mostrando que as construções levaram mais tempo do que o previsto e enfrentaram problemas de saúde, filhos doentes, cadeias de fornecimento afetadas pelo período pós-COVID e dificuldades emocionais das participantes.

Mesmo assim, as 15 mulheres chegaram ao resultado central: tornaram-se donas de microcasas sobre rodas.

A posse da estrutura, porém, não elimina outros desafios.

Cada moradia precisa de um local legalmente adequado para permanecer, além de acesso a água, energia, saneamento, manutenção e regras municipais compatíveis.

O projeto também dependeu de uma combinação difícil de repetir em larga escala: herança familiar, conhecimento profissional, rede de contatos, participantes capazes de fazer contrapartida financeira e disponibilidade de terrenos.

Susan Boden afirmou que gostaria de ver o Eden Tiny House Project servir de modelo para filantropos, pessoas com boa aposentadoria ou proprietários com mais de um imóvel.

A proposta, segundo ela, parte da ideia de que a resposta à crise habitacional não pode ficar apenas nas mãos do governo.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

Sair da versão mobile