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Oceano pode virar uma “usina” 24 horas por dia: país tropical do Caribe encomenda estudo para gerar eletricidade usando apenas a diferença de temperatura entre a superfície e o fundo do mar
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 24/09/2026 às 17:16
Energia Renovável
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Bahamas encomendou estudo de viabilidade para usar a diferença de temperatura entre águas quentes da superfície e frias das profundezas na geração contínua de eletricidade, com OTEC, dessalinização e resfriamento.
Transformar o próprio oceano em uma fonte de eletricidade contínua deixou de ser apenas uma ideia de laboratório para virar objeto de uma decisão concreta nas Bahamas. O governo do arquipélago encomendou um estudo de viabilidade para saber se a diferença natural de temperatura entre a superfície quente e as águas profundas frias pode sustentar uma futura instalação de OTEC.
O trabalho será conduzido por um consórcio formado pela britânica Global OTEC e pela Plataforma Oceânica das Ilhas Canárias, a PLOCAN. A missão é produzir dados técnicos suficientes para uma decisão de avançar ou não com um projeto, em um país onde mais de 90% da eletricidade ainda é gerada com diesel e óleo combustível importados, segundo a Global OTEC.
A ideia é usar duas camadas do mar como se fossem os lados quente e frio de uma máquina térmica
A sigla OTEC vem de Ocean Thermal Energy Conversion, ou conversão de energia térmica oceânica. O princípio é relativamente simples de entender: águas superficiais tropicais permanecem quentes, enquanto a água encontrada centenas de metros abaixo é muito mais fria. Um sistema térmico aproveita esse contraste para movimentar um ciclo de geração elétrica.
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A principal diferença em relação à energia solar e eólica é a continuidade. O gradiente térmico do oceano não desaparece quando anoitece nem depende diretamente da força do vento, o que permite tratar a tecnologia como uma fonte de geração de base, capaz de operar durante as 24 horas do dia quando as condições oceânicas são adequadas.
Uma campanha da NOAA já mediu o oceano até 900 metros de profundidade perto de Eleuthera
O estudo das Bahamas não parte do zero. Em 2023, uma campanha de medição de temperatura e salinidade da NOAA utilizou um seaglider autônomo ao largo de Eleuthera. O equipamento coletou perfis desde a superfície até 900 metros de profundidade e confirmou a existência de um gradiente térmico significativo na coluna d’água, de acordo com a Global OTEC.
Agora, a nova etapa deverá transformar esses dados oceanográficos em perguntas de engenharia: onde instalar, como captar a água profunda, que infraestrutura submarina será necessária, quais impactos ambientais precisam ser considerados e se a configuração consegue produzir energia a um custo que faça sentido para o arquipélago.
O estudo também quer descobrir se a mesma água fria pode dessalinizar, refrigerar prédios e resfriar data centers
A eletricidade não é a única aplicação em avaliação. O escopo inclui integração com dessalinização por osmose reversa, sistemas de refrigeração distrital com água do mar e resfriamento de centros de dados. A lógica é aproveitar a mesma infraestrutura oceânica para mais de uma função e aumentar o valor econômico do projeto.
Em ilhas tropicais, essa combinação pode ser particularmente relevante porque energia, água potável e refrigeração costumam exigir infraestrutura cara e combustível importado. O estudo terá de mostrar se esses usos adicionais funcionam em conjunto sem comprometer a segurança, a operação e os custos do sistema principal.
Mais de 90% da eletricidade das Bahamas ainda depende de diesel e óleo combustível importados
Esse é o pano de fundo que explica o interesse do governo local. A dependência de combustíveis trazidos de fora expõe famílias e empresas à volatilidade internacional dos preços e ajuda a manter tarifas elevadas no Caribe. Para um arquipélago, transportar combustível também adiciona logística, armazenamento e risco operacional.
A OTEC tenta atacar exatamente esse problema usando um recurso disponível ao redor das ilhas: o próprio mar. Mas a tecnologia ainda precisa provar competitividade comercial em escala. Por isso, o contrato atual não representa a aprovação de uma usina; ele representa a etapa que deverá dizer se vale a pena avançar para uma instalação de primeira geração no Caribe.
Protótipo instalado nas Canárias em 2026 colocou a tecnologia em mar aberto
O consórcio chega às Bahamas depois de um avanço importante. Em abril de 2026, a Global OTEC concluiu nas Ilhas Canárias a instalação offshore de uma plataforma experimental do projeto PLOTEC, testada na infraestrutura da PLOCAN. O sistema foi criado para enfrentar uma das maiores dificuldades da OTEC: operar em mar aberto com uma grande tubulação conectada às águas frias profundas.
O protótipo faz parte de um programa apoiado pelo Horizon Europe e foi desenvolvido para resistir a condições severas do oceano. A experiência acumulada com estrutura flutuante, conexão submarina e captação de água profunda deverá alimentar o estudo de viabilidade das Bahamas.
A tubulação de água fria é um dos pontos mais difíceis de levar a OTEC para escala comercial
Para que o ciclo térmico funcione, o sistema precisa trazer até a instalação volumes de água encontrados em grandes profundidades. Isso exige tubos longos, resistentes, de grande diâmetro e capazes de suportar movimento, pressão e condições oceânicas por anos.
Esse componente ajuda a explicar por que a OTEC existe há décadas como conceito, mas ainda tem poucas instalações comerciais. Quanto maior a potência desejada, maior tende a ser a infraestrutura associada à captação e à movimentação de água. A aposta atual é que soluções offshore modulares possam reduzir parte dessas limitações.
O Brasil aparece no mapa da tecnologia por uma colaboração anunciada com a COPPE/UFRJ
Para o público brasileiro, há um ponto adicional de interesse. A própria Global OTEC registra que, em 2025, assinou um memorando de entendimento com a COPPE/UFRJ para colaborar no desenvolvimento de energia renovável oceânica no Brasil. Isso não significa que exista uma usina OTEC brasileira aprovada, mas mostra que a tecnologia já entrou no radar acadêmico e industrial do país.
O Brasil reúne extensa faixa litorânea e áreas de águas tropicais, fatores que tornam o tema tecnicamente relevante. Qualquer aplicação real, porém, dependeria de estudos oceanográficos, econômicos, ambientais e regulatórios específicos para cada local.
Bahamas decidirá depois do estudo se a primeira instalação caribenha sai do papel
O contrato foi solicitado pelo governo das Bahamas, com trabalho comissionado pela Expertise France e financiamento da União Europeia dentro do programa Euroclima. A próxima decisão deverá ser baseada em engenharia, dados ambientais e custos, e não apenas no potencial teórico do gradiente térmico.
Se o resultado for positivo, o arquipélago poderá avançar para uma instalação pioneira no Caribe. Se os números não fecharem, o estudo também cumprirá sua função ao indicar onde estão os gargalos. De qualquer forma, a OTEC entra em uma nova fase: menos como promessa distante e mais como tecnologia que precisa provar, projeto por projeto, se consegue competir no mundo real.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

