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ONU confirma que Síria construía reator nuclear secreto sob Assad, encontra infraestrutura compatível após 19 anos e coloca 73 toneladas de urânio sob vigilância internacional
Escrito por Roberta Souza
Publicado em 03/09/2026 às 16:30
Atualizado em 03/09/2026 às 16:50
Energia Nuclear
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Relatório confidencial da AIEA conclui que Damasco deixou de declarar materiais, instalações e atividades nucleares exigidos pelo acordo de salvaguardas. Inspetores também ligaram três locais ao complexo de Deir el-Zour e verificaram outro depósito com cerca de 73 toneladas de urânio natural.
A agência afirmou que agora possui elementos suficientes para estabelecer que as antigas autoridades sírias não declararam materiais nucleares, instalações e atividades que deveriam ter sido informados dentro do acordo de salvaguardas associado ao Tratado de Não Proliferação Nuclear. Entre os elementos identificados estão um reator em construção em Deir el-Zour, uma instalação relacionada à fabricação de combustível e outro local usado para armazenamento.
Além disso, a investigação abriu uma segunda frente. Em outro local anteriormente não declarado, inspetores confirmaram cerca de 73 toneladas de urânio metálico natural na forma de varetas de combustível revestidas. Segundo a AIEA, todo esse material está agora submetido a medidas de contenção e vigilância internacional.
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Paulo Nogueira
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Inspetores voltaram a Deir el-Zour e encontraram infraestrutura compatível com um reator
Uma das evidências decisivas surgiu durante uma visita realizada em 29 de agosto de 2026, quando inspetores da AIEA foram a Deir el-Zour para acompanhar escavações e observar estruturas que permaneceram enterradas ou pouco acessíveis desde a destruição do complexo.
Durante os trabalhos, eles identificaram infraestrutura de resfriamento com características compatíveis com aquelas utilizadas por um reator nuclear. A descoberta forneceu uma evidência física adicional para uma investigação que se estendia havia quase duas décadas e permitiu à agência avançar além das suspeitas acumuladas desde 2007.
A conclusão é especialmente relevante porque a Síria nunca havia reconhecido plenamente que o local destruído naquele ano fosse um reator nuclear. Agora, depois das novas verificações, a AIEA afirma ter elementos suficientes para estabelecer a natureza da instalação.
Reator teria sido construído com apoio da Coreia do Norte
O local permanecia havia anos sob suspeita de integrar um programa nuclear clandestino sírio. Segundo avaliações internacionais citadas pela Associated Press, o reator de Deir el-Zour teria sido construído com ajuda da Coreia do Norte.
O projeto não chegou a funcionar como uma instalação declarada dentro do sistema internacional de salvaguardas. Em 2007, Israel realizou um ataque aéreo e destruiu a estrutura porque acreditava que o regime sírio desenvolvia ali uma instalação nuclear secreta. Depois do bombardeio, autoridades sírias nivelaram a área e, durante anos, Damasco não respondeu de forma completa às perguntas apresentadas pela AIEA.
Na época do ataque, entretanto, a agência ainda não possuía a confirmação que apresenta agora. Isso significa que quase 19 anos separaram a destruição da instalação da conclusão internacional de que realmente havia um reator nuclear em construção no local.
Três outros locais estavam ligados ao complexo nuclear
A investigação não ficou limitada ao prédio principal. O relatório confidencial identificou três locais funcionalmente relacionados ao complexo de Deir el-Zour, ampliando a dimensão do programa investigado.
Um deles estava associado a atividades de conversão e/ou fabricação de combustível nuclear. Outro servia para armazenamento temporário de materiais de construção. Já o terceiro tinha relação com materiais transferidos para ou a partir do complexo e também com atividades de reprocessamento planejadas, segundo a AIEA.
Dessa maneira, o quadro apresentado pela agência vai além de um único reator escondido. As evidências apontam para uma rede de instalações com diferentes funções dentro de uma cadeia nuclear, embora a fonte não afirme que todas tenham entrado efetivamente em operação.
AIEA conclui que antigas autoridades sírias deixaram de declarar atividades nucleares
O ponto regulatório é central para entender a gravidade do caso. Como participante do sistema de salvaguardas ligado ao Tratado de Não Proliferação Nuclear, a Síria tinha obrigações relacionadas à declaração de materiais e instalações nucleares.
Segundo o relatório, isso não aconteceu. A AIEA afirma que consegue estabelecer que as antigas autoridades sírias falharam ao declarar materiais, instalações e atividades nucleares conforme exigido.
Portanto, a questão não envolve simplesmente a existência de tecnologia nuclear. O problema está no desenvolvimento de uma infraestrutura que permaneceu fora do mecanismo internacional criado para acompanhar programas nucleares e verificar seus usos declarados.
Partículas de urânio encontradas em 2024 ajudaram a reabrir o caminho da investigação
A conclusão de 2026 não surgiu de uma única inspeção. A AIEA já havia coletado amostras em Deir el-Zour em 2024 e, posteriormente, informou que elas continham partículas de urânio.
A presença dessas partículas reforçou a necessidade de novas verificações. Entretanto, o material isolado não permitia reconstruir sozinho toda a função do complexo. Por isso, os inspetores continuaram examinando infraestrutura, locais relacionados e outros materiais associados ao antigo programa.
Com as novas escavações e a identificação da estrutura de resfriamento, a agência conseguiu reunir evidências adicionais. Assim, diferentes etapas da investigação começaram a formar um quadro técnico mais completo sobre o que existia em Deir el-Zour.
Queda de Bashar Assad mudou o acesso dos inspetores
A mudança política na Síria teve papel decisivo no avanço das inspeções. Depois da queda de Bashar Assad, as novas autoridades concordaram em permitir maior acesso da AIEA a locais nucleares suspeitos, abrindo áreas que haviam permanecido durante anos sem verificação suficiente.
Em 2025, o diretor-geral da agência, Rafael Mariano Grossi, já havia afirmado que o novo governo sírio concordara com acesso imediato aos antigos locais investigados. A intenção era esclarecer atividades que poderiam ter relação com um programa nuclear clandestino.
A cooperação atual criou, portanto, uma oportunidade para revisar o legado deixado pelo regime anterior. Com acesso físico aos locais, os inspetores passaram a confrontar antigas informações com estruturas, amostras e materiais ainda existentes no território.
Governo sírio revelou outro local não declarado em julho de 2026
A investigação ganhou uma dimensão adicional em 17 de julho de 2026, quando o atual governo sírio informou à AIEA a existência de outro local que não havia sido declarado anteriormente. As autoridades também convidaram a agência a inspecionar a área e verificar qualquer material nuclear existente ali.
Grossi e uma equipe de inspetores seniores visitaram o local durante uma passagem pela Síria. Foi nesse ponto que a agência encontrou uma quantidade muito maior de material nuclear do que as partículas identificadas anteriormente nas amostras ambientais.
Os inspetores confirmaram a presença de aproximadamente 73 toneladas de urânio metálico natural, armazenado na forma de varetas de combustível com revestimento.
As 73 toneladas não significam 73 toneladas de material para armas nucleares
O número chama atenção, mas exige uma distinção importante. Urânio natural não é o mesmo que urânio altamente enriquecido, e a reportagem da Associated Press não afirma que as 73 toneladas encontradas constituíssem material destinado à fabricação de uma arma nuclear.
Por isso, seria incorreto transformar a descoberta em “73 toneladas de urânio para bombas”. O fato confirmado é que os inspetores encontraram uma grande quantidade de urânio natural na forma de varetas de combustível em um local anteriormente não declarado.
A fonte também não estabelece que todo esse estoque estivesse destinado especificamente ao reator de Deir el-Zour. Dessa forma, qualquer ligação direta entre as 73 toneladas e aquela instalação ultrapassaria as evidências apresentadas.
Urânio agora está sob contenção e vigilância internacional
Depois de verificar o material, a AIEA estabeleceu medidas de controle. Segundo o relatório, todo o urânio encontrado está agora submetido à contenção e vigilância da agência.
Na prática, a medida permite acompanhar o material dentro do sistema internacional de salvaguardas e verificar sua localização e eventual movimentação. Dessa maneira, um estoque que anteriormente permanecia fora das declarações passou a integrar o mecanismo de fiscalização.
A nova administração síria tenta, assim, colocar sob supervisão internacional materiais e instalações herdados de um período marcado pela falta de transparência diante da AIEA.
Reator secreto não deve ser confundido com programa nuclear civil declarado
É importante separar energia nuclear de atividade nuclear clandestina. Diversos países constroem e operam reatores civis dentro de estruturas de licenciamento, declaração e fiscalização internacional.
O problema identificado no caso sírio é diferente. Segundo a AIEA, o reator, materiais e atividades relacionadas não foram declarados conforme as obrigações internacionais do país.
Essa distinção é essencial porque a existência de um reator não representa, por si só, uma violação. A preocupação surge quando instalações e materiais sujeitos a salvaguardas permanecem escondidos do sistema internacional de verificação.
Instalação de fabricação de combustível amplia dimensão do programa
A identificação de uma instalação relacionada à fabricação de combustível também aumenta a complexidade do caso. Um reator não depende apenas do edifício principal e de sistemas de resfriamento. Ele precisa de uma cadeia capaz de fornecer materiais preparados para utilização nuclear.
Por isso, a existência de uma unidade ligada à conversão ou fabricação de combustível indica que o projeto investigado possuía elementos além da estrutura principal. Entretanto, a fonte não fornece detalhes suficientes para afirmar qual era a capacidade dessa instalação ou até que ponto ela havia avançado.
Da mesma forma, a menção a atividades de reprocessamento planejadas exige cautela. A AP não afirma que a Síria chegou a operar efetivamente uma instalação de reprocessamento naquele local. Portanto, a atividade deve permanecer descrita como planejada.
Relatório não conclui que Síria tenha produzido uma arma nuclear
Outra distinção fundamental envolve a finalidade militar. O documento confirma um reator em construção, instalações relacionadas e atividades nucleares não declaradas, mas não afirma que a Síria tenha conseguido fabricar uma arma nuclear.
A reportagem também não informa que o reator chegou a funcionar ou produzir material destinado a armamentos. Consequentemente, não existe base para apresentar essas possibilidades como fatos comprovados.
A conclusão segura é mais específica: o antigo governo sírio desenvolveu infraestrutura nuclear que deveria ter sido declarada à AIEA e não foi.
Novo governo afirma querer desenvolver energia nuclear civil
Enquanto tenta esclarecer o passado, a atual administração síria também demonstra interesse em um eventual programa nuclear para fins civis. Segundo as informações divulgadas, o governo afirma que materiais nucleares encontrados no território permanecerão sob custódia síria e dentro das salvaguardas internacionais.
Essa postura cria uma diferença importante em relação ao período investigado. Agora, Damasco tenta demonstrar disposição para cooperar com a AIEA e colocar materiais anteriormente não declarados sob supervisão.
Entretanto, qualquer futuro programa nuclear civil dependerá de fatores como transparência, confiança regulatória e cumprimento das obrigações internacionais. O esclarecimento do legado deixado pelo antigo governo também deverá influenciar essa relação.
Rafael Grossi tenta encerrar uma investigação aberta há quase duas décadas
O diretor-geral da AIEA vem trabalhando para esclarecer o antigo programa desde que as novas autoridades permitiram acesso aos locais. As descobertas de 2026 representam um avanço significativo porque combinam novas inspeções físicas, estruturas identificadas durante escavações e materiais colocados sob vigilância.
De um lado, a agência conseguiu definir a natureza de uma instalação cercada de dúvidas desde 2007. Do outro, encontrou e passou a monitorar cerca de 73 toneladas de urânio natural em outro local.
Esses dois resultados ajudam a reconstruir uma parte do programa nuclear sírio que permaneceu escondida durante o governo Assad.
Estrutura destruída ainda forneceu evidências quase 19 anos depois
O caso também mostra como grandes instalações industriais deixam vestígios mesmo depois de sua destruição. Israel atacou Deir el-Zour em 2007 e, posteriormente, autoridades sírias nivelaram o local. Ainda assim, quase duas décadas depois, escavações revelaram estruturas capazes de ajudar os inspetores a determinar o que havia sido construído ali.
A infraestrutura de resfriamento ganhou importância justamente por ser compatível com aquela necessária para um reator. Assim, a agência conseguiu combinar evidências físicas recentes com informações reunidas ao longo dos anos.
Isso permitiu transformar uma suspeita histórica em uma conclusão técnica mais robusta.
Caso mostra por que materiais nucleares exigem rastreabilidade
O urânio pode fazer parte de programas civis de geração de energia, pesquisa e outras aplicações. Entretanto, materiais nucleares também exigem mecanismos rigorosos de controle porque determinadas etapas do ciclo podem possuir implicações sensíveis.
Por isso, a AIEA acompanha quantidade, localização e utilização de materiais nucleares declarados. A descoberta na Síria demonstra o problema criado quando parte dessa infraestrutura permanece fora do sistema de fiscalização.
O caso contrasta, por exemplo, com programas civis desenvolvidos sob licenciamento e acompanhamento internacional. O ponto central não é simplesmente possuir urânio ou um reator, mas garantir que materiais e atividades sujeitos a salvaguardas estejam devidamente declarados e verificáveis.
Síria agora precisa esclarecer o que restou do programa antigo
A cooperação do atual governo não elimina automaticamente as dúvidas acumuladas durante o regime anterior. Pelo contrário, ela abre caminho para que a AIEA tente determinar quais instalações existiram, que materiais foram produzidos ou armazenados e qual era a relação entre diferentes pontos investigados.
As 73 toneladas de urânio natural representam uma responsabilidade concreta no presente porque o material ainda existe. Já Deir el-Zour representa uma investigação sobre o passado, pois a instalação principal foi destruída em 2007.
Dessa forma, a agência trabalha simultaneamente em duas frentes: reconstruir a história do antigo programa e garantir que materiais existentes permaneçam sob controle internacional.
De uma suspeita em 2007 à confirmação em 2026
A cronologia mostra por que a descoberta ganhou relevância. Em 2007, Israel destruiu a instalação de Deir el-Zour sob a alegação de que o local escondia um projeto nuclear. Nos anos seguintes, a Síria não ofereceu respostas suficientes para encerrar as dúvidas internacionais.
Em 2024, inspetores coletaram novas amostras e encontraram partículas de urânio. Depois da mudança de governo, a AIEA ganhou acesso adicional aos locais e conseguiu aprofundar a investigação.
Finalmente, em 29 de agosto de 2026, os inspetores observaram durante escavações uma infraestrutura de resfriamento compatível com um reator. Paralelamente, a agência verificou em outro local cerca de 73 toneladas de urânio natural, que agora permanecem sob contenção e vigilância.
Relatório muda o caso de suspeita histórica para confirmação internacional
Esse é o principal ponto da história. Durante quase duas décadas, Deir el-Zour apareceu internacionalmente como um suposto reator nuclear sírio, cercado por acusações, informações de inteligência e negativas do antigo governo.
Agora, a AIEA afirma possuir elementos suficientes para estabelecer que a Síria realmente construía um reator nuclear naquele local e deixou de declarar atividades e instalações relacionadas.
A descoberta não significa que o país tenha produzido uma arma nuclear, tampouco transforma as 73 toneladas encontradas em material bélico. O que ela confirma é algo diferente e historicamente relevante: um programa nuclear não declarado avançou até a construção física de um reator e contou com instalações relacionadas que permaneceram fora do sistema internacional de salvaguardas.
Para a nova administração síria, o desafio será esclarecer o restante desse legado e demonstrar que qualquer atividade nuclear futura ocorrerá de forma transparente e sob fiscalização internacional.
Você acredita que países que mantiveram instalações nucleares não declaradas deveriam cumprir exigências adicionais antes de receber cooperação internacional para novos projetos nucleares civis?
Fonte
AP News
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Roberta Souza.

