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Operador de betoneira que não sabia escrever o próprio nome direito assina os documentos pela primeira vez depois das aulas dentro do canteiro, agora quer a CNH, e entra numa conta de 13,5 mil trabalhadores alfabetizados pelo Seconci desde os anos 1990
Escrito por Douglas Avila
Publicado em 10/09/2026 às 02:39
Atualizado em 10/09/2026 às 02:42
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A alfabetização na construção civil deixou de ser assunto de discurso e virou papel assinado no Distrito Federal, onde um operador de betoneira que mal desenhava o próprio nome terminou as aulas dentro da obra, tirou documentos, escreveu a própria assinatura e passou a mirar a habilitação como próximo degrau.
Francisco Gilmar Eugênio opera betoneira e, segundo o relato divulgado pela entidade do setor, chegou ao projeto sem conseguir escrever o próprio nome de forma legível.
O caso foi divulgado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção como marco do Dia Mundial da Alfabetização, celebrado em 8 de setembro de 2026.
Quem assina o próprio nome deixa de depender da digital e do favor alheio, portanto o ganho aparece primeiro na burocracia comum do dia a dia.
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Ele diz que não escrevia nem o próprio nome direito antes das aulas
A frase é dele, registrada no material divulgado pela entidade: “Eu praticamente não sabia escrever nem o meu próprio nome direito”, contou o operador de betoneira.
Em seguida vem a parte que muda a rotina: “Depois das aulas, consegui tirar meus documentos e assiná-los”, afirmou, no relato publicado pela entidade do setor.
Por fim, o plano seguinte: “Agora quero continuar estudando para realizar o sonho de conseguir minha CNH”, disse Francisco Gilmar Eugênio no mesmo depoimento.
A assinatura destravou a fila dos documentos que ele não tinha
Documento no Brasil pede assinatura em quase toda etapa, do cadastro ao formulário de admissão, portanto quem não assina depende de terceiros para resolver o básico.
Conforme o próprio relato, os documentos vieram depois das aulas, ou seja, a ordem foi aprender a escrever primeiro e resolver a papelada em seguida.
É difícil não ver aí uma inversão de dependência, já que o mesmo trabalhador que precisava de ajuda passou a assinar sozinho o que é dele.
A CNH virou o próximo alvo, e na obra isso abre outras funções
A habilitação é exigência legal para dirigir, portanto ela funciona como chave de acesso a atividades que dependem de conduzir veículo dentro e fora do canteiro.
Para tirar a carteira, no entanto, é preciso passar por prova escrita, e é exatamente aí que a alfabetização deixa de ser abstrata e vira requisito.
Sem carteira, o trabalhador fica restrito ao que dá para fazer a pé dentro do canteiro, portanto o documento funciona como limite invisível de carreira.
Ele mesmo diz que quer continuar estudando com esse objetivo, ou seja, o curso dentro da obra não terminou a história, apenas destravou o passo seguinte.
As aulas acontecem onde o trabalhador já passa o dia, dentro do canteiro
O projeto do Seconci-DF, o Serviço Social da Indústria da Construção Civil do Distrito Federal, oferece alfabetização e ensino fundamental para quem trabalha nas obras.
Levar a sala para dentro do canteiro resolve o problema mais banal da educação de adultos, que é o deslocamento depois de uma jornada inteira de serviço.
Geraldo Henrique Gomes responde pela coordenação pedagógica do Seconci-DF, estrutura que dá ao projeto a cara de programa contínuo e não de ação pontual de calendário.
O programa roda desde o início dos anos 1990 sem interrupção anunciada
Conforme a entidade, o projeto funciona desde o início da década de 1990, o que coloca a iniciativa em mais de três décadas de operação continuada.
Programas sociais de empresa costumam durar um ciclo de gestão, portanto atravessar tantos anos diz algo sobre a demanda que continua chegando à porta.
Dito de outra forma, a fila não acabou, e cada turma nova indica que o setor segue recebendo gente que não completou a escola básica.
Mais de 13,5 mil trabalhadores já passaram pelas salas do projeto
O número acumulado divulgado pela entidade é de mais de 13,5 mil trabalhadores atendidos pelo projeto de alfabetização e ensino fundamental desde a criação.
Distribuído ao longo de mais de trinta anos, o total representa centenas de matrículas por ano, volume que exige turma aberta com regularidade, não campanha esporádica.
Não há detalhe público sobre quantos concluíram cada etapa, contudo o próprio acumulado indica um fluxo constante de matrícula ao longo das três décadas.
Cada um desses nomes, no entanto, representa alguém que chegou à obra sem a escola básica concluída, portanto a conta mede tanto avanço quanto atraso.
Uma única construtora colocou mais de 500 dos seus nas salas de aula
Do total, mais de 500 trabalhadores vieram de uma só empresa, a CONBRAL, o que concentra em um único empregador uma fatia relevante do programa.
Paulo Muniz é diretor da CONBRAL, empresa que responde sozinha por mais de quinhentos desses alunos, conforme os dados divulgados a respeito do programa.
Para a construtora, manter turma dentro da obra exige acerto de horário e espaço, ou seja, existe custo real na conta de quem decide bancar o projeto.
A CBIC contou 34% do setor com o ensino fundamental incompleto
Levantamento da Câmara Brasileira da Indústria da Construção mostra que, em 2024, 34% dos trabalhadores do setor tinham o ensino fundamental incompleto.
O mesmo levantamento aponta que 2% eram analfabetos, percentual pequeno na aparência, porém grande quando aplicado a um setor que emprega em massa no país.
Os dados foram divulgados pela entidade ao marcar o Dia Mundial da Alfabetização, e podem ser conferidos na publicação da CBIC sobre o projeto.
O atraso escolar do setor não é exceção, é um terço do efetivo
Se 34% não concluíram o fundamental, então um a cada três trabalhadores do setor carrega uma lacuna escolar que a obra recebe pronta e precisa administrar.
A construção civil absorve trabalhador que outros setores recusam por exigência de escolaridade, portanto ela herda o problema e, em alguns casos, acaba tratando dele.
O setor segue sendo porta de entrada para quem saiu da escola cedo, portanto o problema chega à obra antes de qualquer política interna de treinamento.
Fico imaginando quantos Franciscos existem nos canteiros do país sem nenhum projeto por perto, contando com a digital e com a boa vontade do colega.
O 8 de setembro passou, e a conta do canteiro segue aberta
O Dia Mundial da Alfabetização caiu em 8 de setembro de 2026 e serviu de gancho para a entidade expor números que costumam ficar fora da pauta.
Passada a data, o que resta é operacional: sala montada, turma aberta, empresa liberando o trabalhador e um sujeito assinando o próprio nome no final.
Para Francisco Gilmar Eugênio, o próximo documento da fila tem foto, validade e categoria, e depende do estudo que ele afirma querer continuar daqui em diante.
Quantos trabalhadores da sua cidade ainda assinam com o dedo porque nunca tiveram uma sala de aula dentro da obra?
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Fonte
CBIC
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Douglas Avila.

