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Organismo sem cérebro resolve labirinto, recria rede ferroviária de Tóquio e parece “lembrar” por onde já passou e após 40 anos de estudos, cientistas entram em disputa sobre chamar isso de inteligência

Organismo sem cérebro resolve labirinto, recria rede ferroviária de Tóquio e parece “lembrar” por onde já passou e após 40 anos de estudos, cientistas entram em disputa sobre chamar isso de inteligência

16 min de leitura

Organismo sem cérebro resolve labirinto, recria rede ferroviária de Tóquio e parece “lembrar” por onde já passou e após 40 anos de estudos, cientistas entram em disputa sobre chamar isso de inteligência

Escrito por Roberta Souza

Publicado em 08/09/2026 às 13:39

Atualizado em 08/09/2026 às 13:40

Ciência e Tecnologia

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Physarum polycephalum é uma única célula com muitos núcleos, move-se a cerca de 1 cm por hora, escolhe rotas eficientes, evita caminhos já explorados e reacende uma questão incômoda para a biologia: inteligência realmente exige cérebro e neurônios?

Durante décadas, chamar um bolor limoso sem cérebro de “inteligente” pareceria absurdo. Entretanto, o Physarum polycephalum acumulou comportamentos difíceis de ignorar: resolveu labirintos, encontrou rotas eficientes entre pontos de alimento, reproduziu de forma surpreendentemente próxima a malha ferroviária da região metropolitana de Tóquio e, em outros testes, mostrou sinais de memória mesmo sem possuir um único neurônio. É justamente essa história que o The Guardian reconstrói em uma longa reportagem publicada nesta terça-feira, 8 de setembro de 2026, mostrando como um organismo aparentemente simples virou o centro de uma disputa científica e filosófica sobre o próprio significado de inteligência.

Além disso, o caso é ainda mais estranho porque o Physarum não é exatamente um fungo, apesar do nome popular “slime mould”, nem planta ou animal. Na fase estudada em laboratório, pode formar uma massa visível a olho nu e, ainda assim, continuar sendo essencialmente uma única célula multinucleada. Por isso, quando essa massa amarela começa a tomar decisões espaciais eficientes, reagir a padrões repetidos e evitar caminhos já percorridos, surge uma pergunta desconfortável: quanto do que chamamos de inteligência realmente depende de um cérebro?

Ao mesmo tempo, a resposta está longe de ser consensual. Alguns pesquisadores defendem que organismos sem sistema nervoso podem exibir formas reais de cognição. Outros consideram perigoso estender palavras como “inteligência”, “memória” e “aprendizado” para seres que não possuem neurônios. Consequentemente, o Physarum deixou de ser apenas uma curiosidade de laboratório e passou a funcionar como um teste para os limites da linguagem científica.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

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Tudo começa há 40 anos, quando um estudante japonês encontra uma mancha amarela se movendo numa placa de Petri

A trajetória moderna dessa pesquisa passa por Toshiyuki Nakagaki.

Ainda estudante em Hokkaido, no Japão, ele encontrou há cerca de 40 anos uma mancha amarelo-limão em uma placa de Petri.

À primeira vista, parecia apenas mais um organismo simples.

Entretanto, uma característica chamou imediatamente sua atenção: a velocidade com que aquilo se movia.

Imagem Ilustrativa

Para padrões humanos, 1 centímetro por hora é quase nada.

Porém, para um organismo ameboide, essa velocidade é extraordinária.

Além disso, o Physarum não se espalha completamente ao acaso.

Ele percebe fontes de alimento, lança extensões de protoplasma em direção a elas e, depois, recua de caminhos pouco eficientes.

Assim, aquilo que parecia apenas uma mancha começou a mostrar comportamento espacial organizado.

Uma única célula consegue ocupar metros quadrados e ainda assim buscar comida de forma coordenada

O Physarum possui uma característica que parece contraditória.

Ele pode se espalhar por uma área enorme e, ainda assim, continuar sendo uma única célula com muitos núcleos.

Tecnicamente, essa estrutura recebe o nome de sincício.

Consequentemente, não existe um cérebro central dando ordens.

Também não há sistema nervoso.

Mesmo assim, diferentes partes da massa respondem ao ambiente e alteram o fluxo interno de protoplasma.

Na prática, o organismo percebe alimento, sal, acidez, luz, temperatura e umidade.

Além disso, estudos sugerem sensibilidade a outros estímulos, embora alguns mecanismos ainda permaneçam pouco compreendidos.

A curiosidade cresce justamente porque comportamentos complexos aparecem em uma arquitetura biológica radicalmente diferente da nossa.

Em 2000, o organismo entra num labirinto e encontra a rota mais curta até a comida

O experimento que colocou Nakagaki no centro dessa discussão apareceu em 2000.

Pesquisadores colocaram o Physarum dentro de um labirinto e utilizaram alimento para atraí-lo.

Inicialmente, o organismo se espalhou por diferentes corredores.

Entretanto, depois começou a eliminar caminhos desnecessários.

Por fim, manteve justamente a rota mais curta entre os pontos de alimento.

Foi aí que a história ganhou repercussão.

Não se tratava simplesmente de uma massa crescendo em direção a um estímulo.

O organismo parecia comparar alternativas e preservar uma solução eficiente.

Por isso, o artigo acabou associado à área de ciência cognitiva quando Nakagaki recebeu um de seus Ig Nobel.

E esse não seria o último experimento estranho.

Dez anos depois, cientistas dão aveia ao bolor e ele praticamente redesenha a rede ferroviária de Tóquio

Em 2010, Nakagaki realizou o experimento que se tornaria o mais famoso.

Ele posicionou flocos de aveia representando Tóquio e 35 cidades satélites.

Depois, colocou o Physarum no ponto correspondente ao centro da capital japonesa.

Em seguida, o organismo começou a crescer.

Criou ramificações.

Conectou um ponto de alimento ao outro.

Depois, eliminou conexões redundantes.

O resultado ficou surpreendentemente parecido com a rede ferroviária da Grande Tóquio.

Mais do que isso, Nakagaki chegou a sugerir que, livre de decisões políticas e limitações humanas, o organismo havia produzido uma solução ainda mais eficiente em alguns aspectos.

Assim, uma célula sem cérebro passou a competir conceitualmente com décadas de engenharia de transportes.

O experimento de Tóquio transforma uma curiosidade biológica em problema de engenharia

Esse resultado teve consequências muito além da biologia.

A rede formada pelo Physarum não buscava beleza.

Ela buscava alimento com o menor desperdício possível.

Consequentemente, o organismo precisava equilibrar distância, redundância e eficiência.

Esses mesmos problemas aparecem em sistemas humanos de transporte.

Por isso, a pesquisa ganhou atenção de engenheiros, matemáticos e cientistas interessados em otimização.

É um exemplo curioso de como a natureza encontra soluções extremamente eficientes sem utilizar planejamento centralizado.

No caso do Physarum, essa eficiência nasce de fluxos internos, respostas químicas e ajustes contínuos.

O organismo também parece usar o próprio rastro como uma forma rudimentar de memória

A questão fica ainda mais complicada quando entra a ideia de memória.

O pesquisador Chris Reid, da Macquarie University, estudou como o Physarum reage ao próprio muco deixado para trás.

A hipótese é simples e extraordinária: o organismo usa esse rastro como uma memória externa do espaço.

Quando se move, o Physarum deixa uma camada viscosa.

Esse material funciona como sinal de que aquela região já foi explorada.

Assim, ao encontrar novamente o próprio rastro, o organismo tende a evitar o caminho e procurar áreas ainda não percorridas.

Dessa forma, ele não precisa guardar uma representação espacial em neurônios.

O próprio ambiente carrega parte da informação.

Em laboratório, ele quase sempre escolhe a rota seca quando outra já está coberta por seu próprio muco

Um dos experimentos de Reid tornou essa hipótese mais concreta.

Pesquisadores coletaram o muco de Physarum e revestiram uma das rotas disponíveis em um labirinto.

Depois, introduziram outro organismo no sistema.

O resultado foi consistente: ele quase sempre preferia as regiões secas, sem aquele rastro.

Além disso, o Physarum consegue distinguir seu próprio muco daquele produzido por outras espécies.

Isso torna a história ainda mais estranha.

Uma célula sem olhos, cérebro ou neurônios parece reconhecer uma espécie de “assinatura” química do caminho que já percorreu.

Por isso, alguns cientistas consideram legítimo falar em memória espacial externa.

Outros, entretanto, preferem termos mais mecanicistas.

Ele não possui neurônios, mas milhares de pequenos osciladores internos parecem coordenar seu comportamento

Como isso acontece sem cérebro?

Uma das respostas está no próprio corpo.

O Physarum possui milhares de pequenos sistemas oscilatórios distribuídos pela célula.

Quando determinadas regiões detectam sinais químicos de alimento, essas oscilações se aceleram.

Consequentemente, o protoplasma flui com maior intensidade naquela direção.

Em outras palavras, o organismo não precisa enviar uma ordem central do tipo “vá para a esquerda”.

O comportamento emerge da soma das respostas locais.

Assim, inteligência, nesse caso, pode não depender de um centro de comando.

Ela pode nascer de uma rede distribuída.

Um teste com frio deixa cientistas ainda mais intrigados: o Physarum parece antecipar algo que não acontece

Em 2008, Nakagaki e colegas submeteram o organismo a outro teste.

A cada hora, o Physarum recebia uma corrente de ar frio e seco.

Como resposta, diminuía sua velocidade.

Os pesquisadores repetiram o estímulo três vezes.

Então veio a parte mais estranha.

Na quarta hora, nenhum vento frio apareceu.

Mesmo assim, o organismo desacelerou espontaneamente como se estivesse esperando o estímulo.

Ou seja, o Physarum pareceu antecipar uma repetição temporal.

Até hoje, segundo a reportagem, ninguém conseguiu explicar completamente como ele mantém esse tipo de referência de tempo.

Se isso for memória, onde exatamente ela fica?

Essa é uma das perguntas mais difíceis.

Nos humanos, associamos memória a redes de neurônios e modificações em conexões sinápticas.

No Physarum, essas estruturas simplesmente não existem.

Portanto, qualquer forma de memória precisa utilizar outro mecanismo.

Ela pode envolver:

Entretanto, ainda não existe uma resposta simples capaz de explicar todos os comportamentos observados.

E é justamente essa ausência de uma explicação completa que alimenta a disputa.

Durante mais de um século, inteligência significava praticamente cérebro e sistema nervoso

Historicamente, a biologia tratou cognição como algo profundamente ligado aos neurônios.

Essa visão parecia intuitiva.

Animais possuem sistemas nervosos.

Humanos possuem cérebros altamente desenvolvidos.

Logo, memória, aprendizado e tomada de decisão seriam propriedades associadas a essas estruturas.

Entretanto, desde os anos 1980, uma corrente científica começou a contestar essa limitação.

Alguns pesquisadores passaram a defender que formas básicas de cognição podem existir em toda vida.

Consequentemente, plantas, bactérias, células individuais e organismos como o Physarum passaram a entrar nessa discussão.

Uma corrente diz que até células individuais podem ter formas próprias de cognição

A filósofa Pamela Lyon, da Universidade de Adelaide, chama essa visão de abordagem biogênica.

Nessa perspectiva, cognição não surge apenas quando aparecem neurônios.

Ela seria uma propriedade muito mais fundamental da vida.

Assim, uma bactéria que detecta mudanças no ambiente e altera seu comportamento poderia exibir uma forma mínima de cognição.

Da mesma forma, uma célula que mantém informação sobre experiências passadas poderia apresentar memória em sentido funcional.

Essa posição é radical justamente porque desloca a inteligência para muito antes da evolução dos cérebros.

Do outro lado, cientistas acusam colegas de transformar simples respostas biológicas em “pensamento”

A reação é forte.

Pesquisadores mais tradicionais argumentam que respostas químicas e adaptações automáticas não devem ser confundidas com inteligência.

Na reportagem, esse grupo aparece como uma espécie de corrente “neuropurista”.

Um de seus argumentos principais é que usar palavras como “decisão”, “memória” ou “cognição” para células pode antropomorfizar processos bioquímicos.

Essa preocupação não é trivial.

Se qualquer resposta adaptativa receber o rótulo de inteligência, o conceito pode se tornar tão amplo que perde utilidade científica.

Por isso, a disputa não é apenas sobre o Physarum.

É também sobre onde traçar a linha.

Debate fica tão agressivo que pesquisadores relatam cartas hostis e acusações de “insanidade”

A discussão científica deixou de ser apenas técnica.

Segundo o Guardian, o professor Michael Levin, da Tufts University, que defende formas amplas de cognição celular, afirma receber mensagens hostis por suas posições.

Ao mesmo tempo, críticos já classificaram certas abordagens como perigosas.

Em um processo de revisão científica mencionado na reportagem, um avaliador chegou a afirmar que a ideia de cognição fora do cérebro era “perigosa” demais para receber legitimidade em uma revista de alto nível.

Consequentemente, o Physarum virou um campo de batalha conceitual.

Não porque alguém discuta se ele se move.

Isso está estabelecido.

A discussão é sobre como interpretar o que ele faz.

Plantas entram na mesma guerra científica

O debate também alcança as plantas.

Alguns pesquisadores defendem que vegetais conseguem reconhecer padrões, adaptar-se e utilizar redes subterrâneas de fungos para compartilhar recursos ou informação.

Entretanto, outros cientistas rejeitam a ideia de “neurobiologia vegetal” e argumentam que plantas não possuem estruturas equivalentes a sistemas nervosos.

Assim, o Physarum funciona quase como um caso extremo.

Se uma célula sem neurônios consegue realizar tarefas que parecem envolver escolha e memória, então talvez o problema esteja menos no organismo e mais na definição humana de inteligência.

Ao mesmo tempo, casos de animais com adaptações que desafiam nossa ideia de funcionamento normal já mostram como a evolução encontra soluções muito diferentes das nossas.

Physarum nem é fungo, planta ou animal — e já confundia cientistas antes mesmo da disputa sobre inteligência

Existe outro detalhe que combina perfeitamente com a história.

Durante muito tempo, cientistas nem sabiam exatamente onde colocar esses organismos na árvore da vida.

Apesar do nome “slime mould”, eles não são fungos.

Também não são plantas.

Nem animais.

Carl Linnaeus chegou a agrupá-los em um gênero chamado “chaos”.

Posteriormente, Ernst Haeckel os colocou entre os protistas.

Hoje, sabe-se que existem centenas de espécies de bolores limosos com características muito diferentes.

Ou seja, eles já eram biologicamente difíceis de classificar antes mesmo de começarem a bagunçar a definição de inteligência.

Esses organismos existem há cerca de 600 milhões de anos — muito antes dos humanos

Os bolores limosos possuem uma história evolutiva antiga.

A reportagem aponta que formas desse grupo existem há cerca de 600 milhões de anos.

Para comparação, Homo sapiens existe há aproximadamente 300 mil anos.

Portanto, esses organismos passaram centenas de milhões de anos evoluindo soluções próprias para sobrevivência, movimento e tomada de decisão ambiental.

Eles aparecem em lugares extremamente diferentes.

Há espécies em florestas.

Outras vivem em desertos.

Também existem registros em ambientes muito frios.

Essa capacidade de ocupar nichos variados ajuda a explicar por que cientistas se interessam tanto por seus mecanismos.

A aparência quase absurda esconde um organismo capaz de surpreender pesquisadores noite após noite

O Physarum costuma aparecer como uma massa brilhante amarela.

Em alguns lugares, ganhou apelidos pouco elegantes, ligados à aparência de vômito.

Entretanto, essa estética pouco sofisticada contrasta com seu comportamento.

Pesquisadores relatam que indivíduos diferentes, mesmo geneticamente idênticos, podem tomar decisões diferentes diante do mesmo teste.

Isso também levanta perguntas sobre variabilidade comportamental.

Se quatro fragmentos clonados de uma mesma massa recebem as mesmas opções, por que nem sempre escolhem o mesmo caminho?

A resposta ainda não é completamente clara.

Até clones podem agir de forma diferente diante da mesma escolha

Audrey Dussutour, pesquisadora que trabalha com Physarum, descreveu justamente esse comportamento.

Se um organismo é dividido em quatro partes, os fragmentos são geneticamente idênticos.

Portanto, seria razoável esperar respostas iguais.

Entretanto, um fragmento pode escolher uma alternativa enquanto outro prefere outra.

Isso mostra que o comportamento não depende apenas do DNA.

Estado fisiológico, pequenas diferenças ambientais e dinâmica interna podem influenciar cada resposta.

Consequentemente, mesmo em organismos simples, prever comportamento individual pode ser difícil.

O próprio corpo do organismo funciona como computador distribuído

Uma das maneiras mais interessantes de entender o Physarum é tratá-lo como um sistema de processamento distribuído.

Não existe CPU central.

Também não existe cérebro.

Entretanto, milhares de pequenas unidades locais recebem informação e alteram o comportamento global.

A lógica lembra certos algoritmos de otimização.

Cada região reage a condições próximas.

Depois, essas respostas se combinam.

Por fim, a estrutura inteira encontra um caminho eficiente.

Por isso, pesquisadores já estudaram bolores limosos como inspiração para redes, algoritmos e planejamento.

A natureza já produz comportamento complexo sem usar a arquitetura que humanos associam à inteligência

Esse ponto conecta o Physarum a uma questão maior.

Nós tendemos a imaginar inteligência como algo semelhante ao cérebro humano.

Entretanto, a evolução não precisa repetir a mesma solução.

Um polvo possui sistema nervoso muito diferente do nosso.

Insetos realizam tarefas complexas com cérebros minúsculos.

Plantas coordenam respostas sem neurônios.

E uma única célula pode processar uma quantidade surpreendente de informação ambiental.

A própria diversidade da vida mostra que formas biológicas muito diferentes podem desenvolver estratégias altamente eficientes.

Portanto, talvez o erro esteja em procurar sempre uma versão reduzida do cérebro humano.

Mas chamar tudo isso de inteligência pode criar outro problema

Por outro lado, os críticos levantam um ponto legítimo.

Se detectar comida e mover-se em direção a ela for suficiente para chamar algo de inteligente, então praticamente qualquer ser vivo poderia receber esse rótulo.

Bactérias fazem quimiotaxia.

Plantas crescem em direção à luz.

Células do sistema imunológico reconhecem sinais.

Consequentemente, a definição pode se tornar ampla demais.

É por isso que alguns pesquisadores preferem separar:

adaptação

processamento de informação

aprendizado

memória

cognição

inteligência

Essas palavras podem descrever níveis diferentes de complexidade.

A disputa real talvez esteja menos no organismo e mais no dicionário científico

Nakagaki chegou a afirmar que, depois do experimento do labirinto, talvez fosse necessário reescrever o dicionário.

Essa frase resume o problema.

O Physarum não precisa mudar seu comportamento para continuar intrigante.

O que precisa mudar, talvez, seja a maneira como cientistas definem aquilo que observam.

Se a palavra “memória” exige neurônios, então o rastro químico do Physarum precisa receber outro nome.

Se memória significa utilizar informação do passado para alterar comportamento futuro, então o organismo pode se encaixar.

Assim, a discussão depende diretamente da definição escolhida.

O cérebro humano deixa de ser a única referência possível

Pamela Lyon considera que essa mudança pode ser profunda.

Para ela, a ciência estaria se aproximando de uma transformação comparável, em espírito, a retirar a humanidade do centro absoluto da natureza.

Durante séculos, humanos utilizaram inteligência como um dos principais argumentos para se colocar acima de outras formas de vida.

Entretanto, quanto mais comportamentos complexos aparecem em organismos simples, mais difícil fica sustentar uma divisão rígida.

Isso não significa que um bolor limoso tenha inteligência humana.

Significa apenas que processar informação e adaptar comportamento talvez sejam propriedades muito mais antigas da vida.

O Physarum pode ajudar a responder uma pergunta muito maior do que como sair de um labirinto

No fundo, o organismo virou importante porque força pesquisadores a discutir algo básico:

quando começa a cognição?

Ela surge apenas com cérebros?

Com neurônios?

Com células sensoriais?

Ou aparece desde o momento em que um ser vivo consegue perceber o ambiente, comparar estados e alterar o comportamento com base em experiência?

Nenhuma dessas respostas possui consenso completo.

Por isso, cada novo experimento com Physarum pode ter implicações filosóficas muito maiores do que seu tamanho sugere.

Se uma célula pode lembrar, isso muda até a maneira como olhamos para bactérias e tecidos humanos

A discussão também ultrapassa ecologia e evolução.

Pesquisadores interessados em cognição celular analisam como células individuais tomam decisões dentro de organismos multicelulares.

Isso pode ter implicações para desenvolvimento embrionário, regeneração e comportamento de tecidos.

A ideia central é que células não seriam apenas tijolos passivos.

Elas processariam sinais e ajustariam ações constantemente.

Novamente, a palavra “inteligência” permanece controversa.

Entretanto, ninguém discute que células respondem a enorme quantidade de informação.

O organismo simples continua escapando de explicações simples

Depois de décadas de pesquisa, Physarum ainda surpreende.

Ele encontra rotas.

Evita rastros próprios.

Responde a padrões temporais.

Organiza redes eficientes.

Além disso, fragmentos geneticamente idênticos podem agir de maneira diferente.

Ainda assim, ele não possui:

cérebro

neurônios

olhos

ouvidos

sistema nervoso

É justamente essa combinação que impede a discussão de morrer.

A ciência sabe descrever muito do comportamento, mas ainda não concorda sobre o nome que deve dar a ele

Esse talvez seja o ponto mais importante.

Não existe dúvida de que o Physarum faz coisas complexas.

Os experimentos são reais.

Ele resolve determinados labirintos.

Também reorganiza redes.

Além disso, altera comportamento com base no rastro deixado anteriormente.

O conflito aparece quando alguém pergunta:

isso é inteligência?

Uma corrente diz sim, em uma forma básica e distribuída.

Outra responde que não, porque processos bioquímicos adaptativos não devem receber conceitos criados para descrever cognição animal.

Consequentemente, o mesmo experimento pode ser interpretado de maneiras diferentes dependendo da definição utilizada.

Depois de 40 anos, a mancha amarela continua ameaçando uma fronteira confortável da biologia

A trajetória completa ajuda a entender por que o debate se tornou tão intenso.

Há cerca de 40 anos, Nakagaki encontra uma mancha amarela numa placa.

Em 2000, o Physarum resolve um labirinto.

No ano de 2008, parece antecipar um estímulo horário que não acontece.

Em 2010, recria de maneira surpreendente a rede ferroviária da Grande Tóquio.

Depois, outros pesquisadores mostram que o organismo utiliza o próprio muco para evitar regiões já exploradas.

E tudo isso ocorre sem cérebro.

Sem neurônios.

Sem um sistema nervoso central.

Por isso, o Physarum não ameaça a ciência porque prove que uma gosma “pensa como gente”.

Ele ameaça uma fronteira muito mais confortável: a ideia de que inteligência começa somente quando a vida inventa um cérebro.

Para você, um organismo sem cérebro que resolve labirintos, reconhece caminhos já percorridos e parece antecipar padrões pode ser chamado de inteligente, ou isso ainda é apenas química sofisticada?

Fonte

The Guardian


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Roberta Souza.

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