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Padre de Pernambuco abre as portas da igreja para cães abandonados, resgata animais das ruas, apresenta-os aos fiéis no fim das missas e transforma o altar em uma ponte para quase 200 deles encontrarem uma família

Padre de Pernambuco abre as portas da igreja para cães abandonados, resgata animais das ruas, apresenta-os aos fiéis no fim das missas e transforma o altar em uma ponte para quase 200 deles encontrarem uma família

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Padre de Pernambuco abre as portas da igreja para cães abandonados, resgata animais das ruas, apresenta-os aos fiéis no fim das missas e transforma o altar em uma ponte para quase 200 deles encontrarem uma família

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 07/09/2026 às 13:44

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Padre de Pernambuco abre as portas da igreja para cães abandonados, resgata animais das ruas – Foto: Arquivo Pessoal

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Padre João Paulo transformou missas em ponte para adoção de cães abandonados e estima ter ajudado quase 200 animais a encontrar um lar.

Há cerca de uma década, o padre João Paulo Araújo Gomes não imaginava que uma conversa aparentemente banal depois de uma missa em Pernambuco mudaria parte de sua trajetória religiosa. Algumas mulheres tentavam vender biscoitos para manter um abrigo precário com 97 animais. O sacerdote decidiu ajudá-las, conheceu de perto a situação dos cães e passou a usar aquilo que tinha ao alcance das mãos: a própria igreja, seus fiéis e sua capacidade de mobilização. Em menos de seis meses, segundo ele, todos aqueles 97 animais conseguiram um lar e três foram adotados pelo próprio padre.

A iniciativa cresceu. Cães abandonados passaram a encontrar água, comida e liberdade para entrar na igreja, animais resgatados começaram a ser apresentados aos fiéis durante as celebrações e casos de atropelamento e abandono passaram a chegar diretamente ao sacerdote.

Em entrevista ao UOL em dezembro de 2024, João Paulo afirmou não conseguir precisar o número total de adoções, mas estimou que quase 200 animais já haviam encontrado famílias por meio dessa mobilização. O trabalho iniciado em Gravatá atravessou anos, ganhou repercussão nacional e internacional e continuou posteriormente em Caruaru.

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Tudo começou com algumas mulheres vendendo biscoitos depois da missa

João Paulo contou ao UOL que estava trabalhando em uma paróquia de Gravatá, no Agreste de Pernambuco, quando algumas mulheres lhe ofereceram biscoitos. Ao perguntar por que estavam vendendo os produtos, soube que o dinheiro seria utilizado para ajudar um abrigo de animais.

O padre sugeriu algo simples: elas poderiam aproveitar o fluxo de pessoas das celebrações e vender os biscoitos ao fim das missas. Ele faria o anúncio aos fiéis e ajudaria a divulgar a iniciativa.

Foto: Reprodução/Instagram

A venda funcionou. Mas o envolvimento do sacerdote não terminou quando os biscoitos acabaram.

Curioso para saber exatamente onde o dinheiro seria empregado, João Paulo foi conhecer o abrigo. O que encontrou mudou completamente sua relação com a causa animal.

Abrigo tinha 97 animais e pouca estrutura para cuidar de todos

O local reunia 97 animais, segundo o relato do próprio padre ao UOL. Não havia estrutura adequada para uma operação daquele tamanho. O que mantinha os cães atendidos era, principalmente, o trabalho de pessoas dispostas a fazer o possível com recursos limitados.

João Paulo decidiu se envolver.

O passo seguinte não foi simplesmente doar dinheiro. Ele começou a participar das tentativas de conseguir famílias para os animais.

Feiras e outras ações de adoção eram realizadas primeiro. Os cães que continuavam sem interessados ganhavam uma oportunidade diferente: eram levados para a igreja.

Ali, deixavam de ser fotografias em anúncios ou animais invisíveis dentro de um abrigo. Passavam a ficar diante de dezenas ou centenas de pessoas.

A estratégia teve resultado.

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Segundo o padre, em menos de seis meses os 97 animais haviam conseguido lares.

Ele próprio terminou com três deles.

Igreja virou uma grande vitrine para cães que ninguém havia adotado

A lógica utilizada por João Paulo era simples. Um animal abandonado pode passar despercebido na rua ou permanecer durante meses num abrigo sem nunca encontrar a pessoa certa.

Dentro de uma igreja lotada, a situação muda.

Os fiéis conseguem observar o cachorro, aproximar-se, fazer carinho e conhecer um pouco de sua história.

Foi assim que os animais que não conseguiam adoção em outras ações começaram a aparecer durante as missas.

Reportagens de 2019 já mostravam cães circulando pela Paróquia de Sant’Ana, em Gravatá, enquanto João Paulo incentivava diretamente os frequentadores a considerar a adoção.

A presença não era meramente simbólica. O objetivo era que aqueles animais saíssem dali acompanhados por uma família.

Gradualmente, a prática acabou se tornando uma das características mais conhecidas do trabalho do sacerdote.

Cães passaram a poder entrar livremente e ficar no meio dos fiéis

O acolhimento não ficou limitado aos animais previamente selecionados para adoção. João Paulo também mudou a maneira como o espaço religioso recebia cães que apareciam espontaneamente.

Em entrevista ao UOL, explicou que houve uma mudança de postura: os animais passaram a poder entrar na igreja, permanecer entre os participantes da celebração e encontrar comedouros com água e alimento nas áreas externas.

Padre João Paulo Araújo Gomes ajuda a achar lar para animais ao final da missa

Isso produziu cenas pouco comuns. Enquanto o sacerdote celebra, um cachorro pode aparecer próximo aos bancos.

Outro pode aproximar-se do altar.

Alguns simplesmente entram buscando sombra, água ou descanso. Em vez de expulsá-los, a orientação passou a ser acolhê-los.

As imagens dessas celebrações começaram a circular intensamente nas redes sociais e ampliaram a visibilidade da iniciativa.

O templo passou a funcionar simultaneamente como espaço religioso e ponto de conexão entre animais sem lar e possíveis adotantes.

Padre começou a ser procurado sempre que aparecia um cão atropelado ou abandonado

Uma consequência inesperada da notoriedade foi a ampliação das demandas. Depois que moradores perceberam que João Paulo ajudava animais, ele começou a ser acionado sempre que surgiam casos de abandono ou atropelamento.

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O próprio sacerdote contou que foi sendo envolvido progressivamente e passou a utilizar seu espaço também para conscientizar a população sobre proteção animal e adoção responsável.

A situação transformou uma ação pontual ligada a um abrigo em trabalho contínuo.

Já não existia apenas o grupo inicial de 97 cães.

Novos animais continuavam aparecendo. Alguns precisavam de tratamento veterinário. Outros precisavam de castração.

Havia ainda aqueles que simplesmente necessitavam de alimentação e um lugar temporário onde pudessem permanecer até aparecer uma família.

João Paulo passou a participar dessas diferentes etapas com apoio de voluntários e protetores.

Padre adotou animais que não encontraram família imediatamente

João Paulo não apenas incentivou outros a abrir suas casas. Em alguns casos, ele mesmo ficou com os cães.

Dos 97 animais daquele primeiro abrigo, três foram adotados pelo sacerdote, conforme seu relato ao UOL.

Reportagens produzidas durante os anos seguintes também registraram animais acolhidos em sua residência e sua participação direta em tratamentos e resgates.

Quando pedia aos fiéis que considerassem adotar, João Paulo já havia tomado a mesma decisão. O padre também passou a utilizar as redes sociais como extensão da igreja.

Trabalho de Pernambuco chegou a uma série mundial da Netflix

A repercussão ultrapassou Gravatá. Em 2021, João Paulo tornou-se o único brasileiro entre os protagonistas dos quatro episódios da segunda temporada de “Apenas Cães”, produção documental da Netflix sobre relações entre pessoas e cachorros.

O episódio acompanha o trabalho realizado pelo sacerdote e por protetores de animais em Pernambuco.

Segundo o Jornal do Commercio, João Paulo aceitou participar da produção principalmente para aumentar a visibilidade das pessoas que atuavam na proteção animal em Gravatá. Ele rejeitava a ideia de ser apresentado individualmente como uma espécie de herói da história.

A exposição, entretanto, fez as imagens das missas pernambucanas chegarem a espectadores de outros países.

Aquilo que havia começado com biscoitos vendidos para manter um abrigo agora estava disponível numa plataforma internacional.

A série também tornou mais conhecida uma característica fundamental do trabalho: o padre não atuava sozinho.

Havia protetores, voluntários, veterinários, famílias adotantes e moradores participando da rede.

Trabalho continuou depois da mudança de Gravatá para Caruaru

A iniciativa não terminou quando João Paulo deixou a paróquia de Gravatá. Anos depois, ele continuou a desenvolver trabalho semelhante em Caruaru, também no Agreste pernambucano.

Em dezembro de 2024, um vídeo voltou a repercutir nacionalmente ao mostrar o sacerdote apresentando um cachorro para adoção ao final de uma missa na cidade.

Naquele período, João Paulo atuava ligado à Capela São Sebastião, onde animais também podiam permanecer entre os fiéis e encontrar alimento e água no exterior do templo.

A Câmara Municipal de Caruaru registrou oficialmente sua atuação social ao analisar, em 2024, a concessão do Título de Cidadão de Caruaru ao religioso.

O documento legislativo destacou expressamente suas ações em defesa dos animais, a conscientização promovida junto à população, as adoções e a repercussão alcançada por sua participação na série da Netflix.

Uma igreja aberta transformou abandono em encontro

A história de João Paulo Araújo Gomes não começou com a criação de uma grande ONG, um investimento milionário ou uma estrutura veterinária própria.

Começou com um pacote de biscoitos. Algumas mulheres tentavam arrecadar dinheiro para alimentar animais.

O padre perguntou por quê. Visitou o abrigo.

Encontrou 97 cães e poucos recursos. Percebeu que possuía algo que poderia ser tão importante quanto dinheiro: acesso regular a uma comunidade reunida no mesmo lugar.

Abriu espaço durante as missas. Os cães começaram a aparecer diante dos fiéis.

Quando os animais não conseguiam interessados em feiras, entravam na igreja. Em menos de seis meses, segundo João Paulo, os 97 haviam encontrado famílias.

Depois disso, o envolvimento não terminou.

O padre passou a ser chamado para casos de abandono e atropelamento, adotou animais, divulgou outros nas redes sociais e transformou o próprio espaço religioso num local onde um cão de rua poderia encontrar água, alimento, abrigo e, eventualmente, alguém disposto a levá-lo definitivamente para casa.

Anos mais tarde, sua estimativa chegava a quase 200 animais encaminhados para novos lares.

As imagens de cachorros andando entre bancos e aproximando-se do altar podem parecer apenas cenas curiosas para quem as encontra nas redes sociais.

Por trás delas existe uma estratégia extremamente concreta.

João Paulo percebeu que cada missa reunia dezenas de possíveis adotantes diante de cães que precisavam ser vistos. Em vez de fechar a porta para os animais abandonados, decidiu deixá-la aberta e transformou o encontro entre os dois lados em uma segunda chance para quase 200 deles.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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