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Pai brasileiro transforma a dificuldade de se comunicar com o próprio filho autista e não verbal em missão pessoal, começa com cartões desenhados à mão, chama o irmão para fazer quase 250 imagens “falarem” pela tela do celular e vê a invenção familiar saltar de 1 download na primeira semana para mais de 500 mil instalações
Escrito por Ana Alice
Publicado em 02/09/2026 às 15:32
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Uma solução criada dentro de casa para ajudar uma criança a se comunicar acabou atravessando fronteiras, ganhando centenas de milhares de usuários e levando uma família brasileira a transformar cartões simples em uma ferramenta digital.
Antes de virar um aplicativo usado fora do Brasil, a ideia cabia em alguns cartões desenhados dentro de casa.
Wagner Yamuto e a esposa, Grazyelle, procuravam uma maneira simples de entender o que o filho Gabriel queria, sentia ou precisava quando perceberam que imagens poderiam criar uma ponte onde a fala não conseguia chegar.
Anos depois, aquela solução familiar se transformou no Matraquinha, aplicativo brasileiro de comunicação alternativa que reúne imagens capazes de reproduzir palavras e expressões quando tocadas na tela.
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A história continua crescendo: em 2026, o próprio projeto informa atender mais de 700 mil famílias em mais de 90 países, enquanto o perfil do Matraquinha no #WeArePlay, do Google, registra mais de 637 mil downloads.
As métricas são apresentadas de formas diferentes pelas duas fontes e, por isso, não devem ser tratadas como números equivalentes.
A trajetória também ganhou uma atualização em 2026.
Em março, o Google incluiu o Matraquinha na primeira turma do Google Play Apps Accelerator, programa de 12 semanas voltado a aplicativos selecionados em diferentes regiões do mundo.
A lista oficial reúne o projeto brasileiro entre os participantes das Américas.
Matraquinha começou com cartões desenhados dentro de casa
A origem do aplicativo está ligada diretamente à história de Gabriel.
Wagner e Grazyelle adotaram o menino quando ele tinha 10 meses.
Mais tarde, a família descobriu que ele era autista e percebeu que a comunicação pela fala não estava se desenvolvendo como esperavam.
O problema era cotidiano.
Gabriel precisava demonstrar coisas simples, como o que queria, onde desejava ir ou como estava se sentindo, mas os pais nem sempre conseguiam compreender essas necessidades.
A saída encontrada inicialmente não envolvia programação, inteligência artificial ou qualquer ferramenta sofisticada.
Wagner e Grazyelle começaram a criar cartões com desenhos de objetos e frases, permitindo que Gabriel apontasse para a imagem correspondente ao que queria comunicar.
O sistema funcionava como uma espécie de vocabulário visual construído dentro de casa.
Em vez de depender apenas da fala, a criança tinha outra forma de expressar escolhas e necessidades.
Foi então que Wagner percebeu que aqueles cartões poderiam caber em um celular ou tablet.
Irmãos transformaram os cartões no aplicativo Matraquinha
Para levar a ideia para o ambiente digital, Wagner procurou o irmão, Adriano Yamuto.
A proposta inicial continuava pequena: desenvolver algo que pudesse ser usado pela própria família.
O resultado foi o Matraquinha, lançado em 2018, segundo o histórico publicado pelo projeto.
O aplicativo passou a reunir os cartões em formato digital, permitindo que a criança tocasse em uma imagem e ouvisse o aparelho reproduzir aquilo que ela queria comunicar.
Na versão apresentada pela família ao Google, o sistema reunia quase 250 desenhos organizados como cartões digitais.
Eles representam elementos como objetos, lugares, sentimentos e outras situações do cotidiano.
O funcionamento foi pensado para ser direto.
Ao tocar no cartão correspondente, o aplicativo anuncia em voz alta a informação associada àquela imagem.
Para quem observa de fora, tocar em um desenho de comida, de um lugar ou de uma emoção pode parecer uma ação simples.
Para uma família que precisa descobrir o que uma criança não verbal está tentando expressar, porém, cada escolha pode transmitir uma necessidade concreta.
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Gabriel passou a usar o app para expressar o que precisava
Grazyelle contou ao Google que o uso da ferramenta ajudou Gabriel a comunicar aquilo de que precisava e reduziu momentos de frustração associados à dificuldade de ser compreendido.
“Antes, ele ficava frustrado. Agora, com o app, meu filho pode me dizer o que precisa”, afirmou ela no relato sobre a criação do Matraquinha.
A experiência de Gabriel acabou moldando o próprio produto.
O que havia sido criado para solucionar um problema específico dentro da família começou a mostrar utilidade para outras pessoas que enfrentavam dificuldades semelhantes de comunicação.
Essa expansão, no entanto, não aconteceu imediatamente.
Segundo Adriano, o aplicativo teve apenas um download durante a primeira semana.
A equipe não havia desenvolvido a ferramenta imaginando uma grande operação comercial nem previa que ela chegaria a outros países.
Um ano depois, o cenário já era diferente.
Adriano relatou que o Matraquinha havia alcançado cerca de 100 mil downloads, todos de maneira orgânica naquele período, sem campanhas de anúncios para gerar as instalações.
Matraquinha saiu de um download para centenas de milhares
A diferença entre aquela primeira semana e os números atuais ajuda a dimensionar como uma solução criada para uma única criança ganhou escala.
Atualmente, a página do aplicativo na Google Play informa mais de 500 mil downloads, enquanto a página do projeto no #WeArePlay mostra um número mais preciso, superior a 637 mil.
O próprio Matraquinha, por sua vez, passou a informar em julho de 2026 que sua plataforma alcançou mais de 700 mil famílias e está presente em mais de 90 países.
Os números não significam necessariamente a mesma coisa.
Downloads contabilizados pela loja, usuários, famílias atendidas e alcance total da plataforma são métricas diferentes.
Ainda assim, todas mostram uma distância considerável em relação ao único download registrado no começo da história.
O crescimento também levou os criadores a observar como as pessoas realmente utilizavam os cartões.
Adriano explicou que ferramentas de análise permitiram identificar categorias e imagens mais acessadas, informação usada pela equipe para orientar novas versões.
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Aplicativo ganhou novas imagens para acompanhar o crescimento das crianças
Outro desafio apareceu com o tempo.
As crianças que começaram utilizando ilustrações pequenas cresceram, e nem todas continuariam se identificando com desenhos desenvolvidos principalmente para o público infantil.
Na entrevista original, a equipe contou que trabalhava na inclusão de centenas de imagens reais e em uma estrutura com pronomes, substantivos e verbos, permitindo que o usuário combinasse diferentes elementos para formar frases mais completas.
Parte dessa evolução já pode ser observada na apresentação atual da plataforma.
O site do Matraquinha informa que o usuário pode alternar entre fotos reais e ilustrações, além de adicionar imagens da própria família, da casa, de animais ou de lugares conhecidos.
Também é possível organizar situações relacionadas a alimentação, rotina, desconforto e outros aspectos do cotidiano.
A proposta permanece ligada à Comunicação Aumentativa e Alternativa, conhecida pela sigla CAA, conjunto de recursos utilizados para complementar ou oferecer alternativas à comunicação pela fala.
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Projeto brasileiro foi selecionado para programa global do Google
A seleção para o Google Play Apps Accelerator em 2026 adicionou um novo capítulo à história iniciada com os cartões de Gabriel.
Segundo anúncio oficial do Google, o programa reuniu aplicativos de diferentes partes do mundo para receber masterclasses, orientação individual e contato com especialistas da empresa e do setor de tecnologia.
O Matraquinha aparece entre os projetos escolhidos para a região das Américas.
A equipe continua pequena.
O perfil publicado no #WeArePlay identifica Wagner, Grazyelle e Adriano como os três integrantes por trás da iniciativa.
Mesmo com a expansão, a lógica central continua muito próxima do primeiro conjunto de cartões desenhados dentro de casa: apresentar uma imagem, permitir uma escolha e transformar esse gesto em uma mensagem compreensível para outra pessoa.
O que começou com pais tentando descobrir como conversar melhor com o próprio filho acabou mostrando como uma solução bastante simples pode ganhar outra escala quando um problema vivido dentro de casa também faz parte da rotina de milhares de outras famílias.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

