Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Pesquisador encontra fragmento com versos do Livro 12 da Odisseia de 1.700 anos, datado de cerca de 300 d.C., do tamanho de um cartão com 6,6 por 7,7 cm, que ficou décadas catalogado como texto comum do século VII

Pesquisador encontra fragmento com versos do Livro 12 da Odisseia de 1.700 anos, datado de cerca de 300 d.C., do tamanho de um cartão com 6,6 por 7,7 cm, que ficou décadas catalogado como texto comum do século VII

5 min de leitura

Pesquisador encontra fragmento com versos do Livro 12 da Odisseia de 1.700 anos, datado de cerca de 300 d.C., do tamanho de um cartão com 6,6 por 7,7 cm, que ficou décadas catalogado como texto comum do século VII

Escrito por Flavia Marinho

Publicado em 20/09/2026 às 08:57

Atualizado em 20/09/2026 às 08:58

Fragmento de pergaminho com versos do Livro 12 da Odisseia, datado de cerca de 300 d.C., foi reconhecido em Utrecht após décadas na coleção; peça mede 6,6 por 7,7 cm e é uma de cerca de 30 conhecidas.

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Fragmento de pergaminho com versos do Livro 12 da Odisseia, datado de cerca de 300 d.C., foi reconhecido em Utrecht após décadas na coleção; peça mede 6,6 por 7,7 cm e é uma de cerca de 30 conhecidas.

Um pedaço de pergaminho manchado, rasgado e pouco maior que um cartão passou décadas no acervo da Universidade de Utrecht sem revelar o que realmente era. Quando o especialista em literatura grega Mark de Kreij examinou as letras minúsculas, reconheceu palavras típicas de Homero e descobriu que segurava um fragmento da Odisseia escrito há cerca de 1.700 anos.

A peça mede aproximadamente 6,6 por 7,7 centímetros, tem escrita dos dois lados e foi datada do século III ou IV d.C. Segundo a Universidade de Utrecht, o manuscrito fazia parte de uma pequena edição em códice da Odisseia produzida por volta de 300 d.C., provavelmente no oásis de Fayum, no Egito.

O que torna o achado ainda mais raro é a quantidade conhecida desse tipo de material. A universidade afirma que existem apenas cerca de 30 fragmentos comparáveis da Odisseia dessa época em todo o mundo. O pedaço identificado em Utrecht preserva versos do Livro 12, justamente um dos trechos mais dramáticos da viagem de Odisseu.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

Fragmento passou anos entre manuscritos cristãos e chegou a ser tratado como texto do século VII

A história do objeto dentro da biblioteca começou muito antes de sua identificação. Em meados do século XX, a Universidade de Utrecht comprou dos herdeiros do estudioso alemão Carl Schmidt uma coleção de manuscritos cristãos antigos. A maior parte era escrita em copta, língua egípcia registrada com alfabeto grego, mas o conjunto também continha papiros e outros textos em grego.

No meio desse material estava o pequeno pergaminho escurecido e danificado. A peça chegou a ser considerada um fragmento pouco importante do século VII. A aparência discreta e o estado de conservação ajudaram a mantê-la fora do radar até o projeto recente de estudo e publicação das coleções antigas da universidade.

De Kreij, pesquisador ligado à Radboud University e especialista em grego e papirologia, percebeu que algumas palavras presentes na folha eram características dos poemas homéricos. A checagem linha por linha mostrou que o texto correspondia ao Livro 12 da Odisseia, mudando completamente a interpretação do objeto e recuando sua datação em vários séculos.

O verso do fragmento também contém linhas em grego. Foto: Utrecht University.

A identificação foi feita cerca de dois anos antes do anúncio público de setembro de 2026. O fragmento sobreviveu por séculos e depois permaneceu preservado dentro de uma coleção universitária, onde sua verdadeira origem ficou escondida até a nova análise filológica.

Trecho registra o momento em que Helios descobre que os homens de Odisseu comeram seu gado sagrado

O pedaço não preserva um trecho qualquer. Ele registra o ponto em que Helios, o deus Sol, descobre que os companheiros de Odisseu mataram e comeram seu gado sagrado, apesar das advertências anteriores. A transgressão provoca a reação divina e leva à destruição do navio e da tripulação, deixando Odisseu como único sobrevivente.

Esse episódio encerra a longa narrativa em que Odisseu conta aos feácios os acontecimentos de sua viagem desde Troia. Antes dele, o herói já havia enfrentado os lotófagos, o ciclope Polifemo, Circe, Cila e Caríbdis. A perda definitiva dos companheiros marca o ponto mais baixo de sua jornada antes do retorno a Ítaca.

A Universidade de Utrecht identifica o manuscrito como Utrecht Gr. Ms. B6.39a. A instituição explica que a página fazia parte de uma edição compacta da obra, comparável em escala a um livro portátil moderno. Isso indica que a Odisseia circulava não apenas em grandes manuscritos de prestígio, mas também em formatos menores destinados à leitura individual.

O provável local de origem adiciona outro elemento à história. Pesquisadores situam o códice no oásis de Fayum, no Egito romano, região que preservou uma enorme quantidade de papiros e textos antigos graças às condições ambientais. Um leitor de cerca de 300 d.C. poderia ter carregado consigo uma versão portátil de um poema composto muitos séculos antes.

Mark de Kreij, especialista em literatura grega e papirologia que reconheceu o texto homérico. Foto: Anchoring Innovation.

Achado ajuda a mostrar como a Odisseia continuava popular mais de mil anos antes dos livros impressos

Homero provavelmente compôs a Odisseia entre os séculos VIII e VII a.C., muito antes do fragmento encontrado em Utrecht. Ainda assim, a presença do texto em um pequeno códice de aproximadamente 300 d.C. mostra que a obra continuava sendo copiada, lida e transportada durante a Antiguidade Tardia.

O material também registra uma transformação importante na história dos livros. Naquele período, leitores do mundo romano estavam deixando progressivamente os rolos e adotando o códice, formato de páginas encadernadas que se tornaria ancestral direto do livro moderno. O fragmento de Utrecht pertence justamente a essa fase de transição.

A identificação ganha peso porque não veio de uma escavação nova, mas de um acervo que já estava guardado havia décadas. Bibliotecas e coleções universitárias ainda mantêm milhares de documentos antigos cujo conteúdo pode mudar de significado quando são reexaminados com novas perguntas, especialistas e técnicas de catalogação.

O estudo completo dos textos greco-romanos da coleção de Utrecht deverá aparecer em uma publicação acadêmica dedicada ao conjunto. Até lá, o fragmento da Odisseia permanece como a peça mais chamativa dessa revisão: um pedaço de apenas alguns centímetros que atravessou cerca de 17 séculos e voltou a ser reconhecido por causa de algumas palavras gregas quase perdidas no pergaminho.

Para quem acompanha arqueologia e história dos livros, a descoberta deixa uma pergunta inevitável: quantos outros textos raros ainda podem estar guardados em coleções antigas sem terem sido corretamente identificados? Comente o que você acha e compartilhe esta matéria com quem gosta de descobertas históricas.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

Sair da versão mobile