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Poeira do deserto do Saara atravessa o oceano e atinge a Amazônia após percorrer mais de 5 mil quilômetros pelo Atlântico, despeja cerca de 27,7 milhões de toneladas por ano e leva fósforo que ajuda a repor nutrientes perdidos pela floresta
Escrito por Ana Alice
Publicado em 12/09/2026 às 14:52
Atualizado em 12/09/2026 às 14:53
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Todos os anos, partículas minerais deixam o norte da África, cruzam milhares de quilômetros sobre o Atlântico e chegam à Amazônia, onde ajudam a repor nutrientes perdidos naturalmente pelo solo da floresta.
Todos os anos, enormes plumas de poeira mineral deixam o norte da África e seguem pelos ventos sobre o Atlântico até alcançar a América do Sul.
Parte desse material entra na Bacia Amazônica e deposita no solo elementos como fósforo, um nutriente importante para as plantas e que pode ser perdido da floresta pela ação das chuvas, dos rios e das inundações.
Uma das estimativas mais conhecidas desse fenômeno veio da NASA: observações realizadas entre 2007 e 2013 indicaram uma deposição média de 27,7 milhões de toneladas de poeira por ano sobre a Bacia Amazônica, carregando cerca de 22 mil toneladas de fósforo.
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Os números, porém, não representam uma quantidade fixa que necessariamente se repete a cada ano, e trabalhos posteriores mostraram que há considerável incerteza sobre o volume efetivamente depositado.
O que permanece bem estabelecido é a existência de uma conexão atmosférica entre dois ambientes que parecem não ter relação direta.
Um dos lugares mais secos do planeta fornece partículas minerais para a maior floresta tropical do mundo, depois de uma viagem de aproximadamente 5 mil quilômetros sobre o Atlântico.
Ventos mantêm partículas suspensas por milhares de quilômetros
A viagem começa quando ventos fortes passam sobre áreas secas do norte da África e conseguem retirar partículas muito pequenas da superfície.
Depois de suspensas, elas entram em correntes atmosféricas capazes de transportá-las por grandes distâncias antes que a gravidade ou a chuva as removam do ar.
Nas medições divulgadas pela NASA em 2015, cerca de 182 milhões de toneladas de poeira por ano passavam pela borda ocidental do Saara, na longitude de 15 graus oeste.
Conforme a nuvem avançava pelo Atlântico, parte do material caía no oceano ou era retirada da atmosfera pelas precipitações.
Perto da costa leste da América do Sul, na longitude de 35 graus oeste, aproximadamente 132 milhões de toneladas ainda permaneciam suspensas.
A estimativa baseada no satélite CALIPSO indicou que 27,7 milhões de toneladas acabavam depositadas na área definida pelos pesquisadores como Bacia Amazônica, enquanto cerca de 43 milhões de toneladas continuavam em direção ao Caribe.
Isso significa que apenas uma fração do material inicialmente transportado chega ao solo da floresta.
A trajetória funciona como uma espécie de filtro natural: partículas maiores tendem a cair mais rapidamente, enquanto outras são removidas pela chuva durante a travessia.
Fósforo transforma a poeira em algo além de simples areia
A importância ecológica dessa viagem não está apenas na quantidade de material transportado.
A poeira mineral leva fósforo, elemento utilizado pelas plantas em processos fundamentais relacionados ao crescimento, à transferência de energia e ao funcionamento celular.
Em partes da Amazônia, a disponibilidade desse nutriente é limitada porque muitos solos são antigos e passaram por intenso intemperismo ao longo de enormes períodos.
Ao mesmo tempo, a floresta possui um sistema eficiente de reciclagem, no qual nutrientes presentes em folhas, galhos, raízes e outros resíduos orgânicos retornam ao ciclo à medida que a matéria se decompõe.
Essa reciclagem, entretanto, não impede todas as perdas. A água da chuva, o escoamento superficial, os rios e as áreas inundadas podem transportar fósforo para fora de determinadas partes do sistema.
O estudo publicado em 2015 na revista Geophysical Research Letters calculou que a poeira africana poderia fornecer cerca de 22 mil toneladas de fósforo por ano à Bacia Amazônica.
Os pesquisadores concluíram que esse aporte era comparável à perda hidrológica estimada de fósforo, indicando um papel importante da poeira em evitar o esgotamento do nutriente em escalas de décadas ou séculos.
A conclusão não significa que o Saara seja responsável por “alimentar sozinho” a Amazônia. O fósforo trazido de fora da bacia é muito menor que o volume movimentado internamente pela queda e decomposição de matéria vegetal, e sua importância está em repor parte do nutriente que efetivamente deixa o sistema.
CALIPSO permitiu enxergar a poeira em três dimensões
Os números de 27,7 milhões de toneladas ganharam destaque porque vieram de uma forma de observação capaz de acompanhar não apenas onde a poeira estava, mas também sua distribuição vertical na atmosfera.
O satélite CALIPSO, desenvolvido pela NASA em parceria com a agência espacial francesa CNES, foi lançado em 28 de abril de 2006.
Seu principal instrumento, chamado CALIOP, utilizava lidar: pulsos de laser eram enviados em direção à atmosfera e parte da luz retornava ao equipamento depois de atingir nuvens, poeira e outros aerossóis.
A técnica permitia distinguir camadas de partículas em diferentes altitudes e construir uma visão tridimensional das grandes plumas.
Para o estudo sobre a ligação entre Saara e Amazônia, os pesquisadores analisaram observações realizadas de 2007 a 2013, produzindo a primeira estimativa multianual desse transporte baseada em dados tridimensionais de satélite.
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O CALIPSO continuou funcionando muito além dos três anos inicialmente previstos para a missão. Após 17 anos de operação, NASA e CNES encerraram a fase científica em 1º de agosto de 2023, quando as reservas de combustível já estavam esgotadas.
Os 27,7 milhões de toneladas não se repetem igualmente todos os anos
Um dos cuidados necessários ao interpretar o dado da NASA é entender que ele representa uma média calculada para sete anos de observações, e não uma medição que se repete exatamente todos os anos.
O próprio CALIPSO detectou grande variação. Entre 2007 e 2011, por exemplo, a quantidade transportada mudou em até 86%, segundo a NASA.
Os pesquisadores encontraram ainda uma relação entre as chuvas no Sahel, faixa semiárida ao sul do Saara, e o transporte de poeira no ano seguinte: períodos mais úmidos tendiam a ser seguidos por menor transporte.
Estudos mais recentes também mostram que existe incerteza sobre a quantidade total que efetivamente termina no solo amazônico.
Um trabalho publicado em 2021 na revista Atmospheric Chemistry and Physics, combinando modelos e restrições observacionais, estimou aproximadamente 10 milhões de toneladas anuais de deposição de poeira na Amazônia, valor duas a três vezes menor que algumas estimativas anteriores obtidas com satélites.
Isso não invalida a descoberta feita com o CALIPSO. Mostra como a ciência ajusta estimativas à medida que novos métodos, modelos e observações permitem enxergar detalhes que antes carregavam margens maiores de incerteza.
Poeira que chega à Amazônia não parece sair de um único ponto
A origem exata do material também ficou mais complexa com pesquisas posteriores. Durante anos, a Depressão de Bodélé, no Chade, foi apresentada como uma das principais fontes da poeira que atravessa o Atlântico.
A região corresponde ao leito de um antigo lago e contém sedimentos ricos em restos de diatomáceas, organismos microscópicos cujos depósitos possuem minerais associados ao fósforo. Sua localização entre formações montanhosas também favorece ventos intensos capazes de levantar grandes quantidades de partículas.
Em 2020, porém, um estudo publicado na Geophysical Research Letters concluiu que El Djouf, região desértica situada entre Mauritânia e Mali, possui trajetórias mais favoráveis para levar poeira até a Amazônia.
Segundo os pesquisadores, boa parte do material levantado no Bodélé acaba depositada ainda na África ou é retirada do ar pela chuva antes de completar a travessia.
Outro trabalho, publicado em 2021, estimou que o oeste do norte da África, região que inclui El Djouf, responderia por cerca de 41% da poeira depositada na Amazônia, enquanto o sul do Saara e o Sahel, onde fica Bodélé, contribuiriam com aproximadamente 36%.
Os autores concluíram que diferentes áreas africanas participam do fluxo e que apontar um único local como responsável por toda a fertilização simplifica demais o processo.
Influência aumenta durante a estação chuvosa amazônica
Um estudo publicado em 2023 trouxe outra atualização ao analisar o transporte entre 2013 e 2017 com o modelo atmosférico GEOS-Chem, comparado a diferentes conjuntos de observações.
Os pesquisadores verificaram que a influência da poeira africana sobre a Amazônia é particularmente importante durante a estação chuvosa, entre janeiro e abril. Nesse período, as plumas vindas da África representaram, em média, cerca de 40% da massa de aerossóis na superfície da bacia nas simulações do estudo, podendo alcançar porcentagens maiores durante episódios intensos.
A posição da Zona de Convergência Intertropical, faixa atmosférica associada a nuvens e chuvas próximas ao Equador, influencia quais trajetórias conseguem conduzir as partículas até a América do Sul. A precipitação exerce um efeito duplo: ajuda a remover a poeira do ar e, quando ocorre sobre a floresta, contribui para depositar esse material no solo.
O mesmo trabalho calculou aportes de ferro, fósforo e magnésio associados à poeira africana e concluiu que eles podem compensar parte das perdas de nutrientes do ecossistema.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

