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Professor titular de petrologia que passou 10 anos rachando granito no Alto Sertão de Sergipe acha neodímio, nióbio e tântalo entre Nossa Senhora da Glória e Canindé, e a parceira dele vira a única nordestina entre os 10 brasileiros escalados para a missão de terras raras nos EUA
Escrito por Douglas Avila
Publicado em 10/09/2026 às 06:01
Atualizado em 10/09/2026 às 06:16
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O mapeamento de terras raras em Sergipe levou cerca de dez anos de martelo, lupa e caminhada sobre os granitos do Alto Sertão até a dupla da Universidade Federal de Sergipe conseguir dizer, com alguma segurança, quais minerais daqueles corpos rochosos guardam elementos que o mundo inteiro passou a disputar.
Herbert Conceição é professor titular de Petrologia da Universidade Federal de Sergipe. Petrologia, para quem nunca ouviu falar, é o ramo da geologia que estuda como as rochas se formam.
Ao lado da professora Maria de Lourdes da Silva Rosa, também da UFS, ele passou aproximadamente uma década percorrendo os granitos do sertão sergipano em busca de uma resposta bastante específica.
A pergunta não era se havia rocha ali. Rocha sempre houve. A dupla queria saber quais minerais daqueles corpos graníticos conseguem concentrar elementos de interesse econômico.
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A dupla encontrou neodímio, nióbio e tântalo na mesma faixa de granito do Alto Sertão
Segundo a pesquisa, os elementos localizados incluem neodímio, nióbio, tântalo, urânio, zircônio, rádio e ouro. São sete nomes que raramente aparecem juntos numa mesma notícia regional.
O neodímio é o que mais chama atenção no debate atual, porque entra na fabricação de ímãs permanentes. Nióbio e tântalo, por sua vez, circulam no universo de ligas metálicas e componentes eletrônicos.
A faixa estudada vai de Nossa Senhora da Glória a Poço Redondo e Canindé de São Francisco, três municípios sergipanos que dificilmente entram numa conversa sobre cadeia global de minerais críticos.
Olhando assim, de fora, é um recorte geográfico modesto. Mas o trabalho de campo que sustenta esse recorte não teve nada de modesto em duração.
Dez anos de campo produziram um mapa, não uma mina
Aqui está a parte que costuma se perder quando o assunto vira manchete. Localizar a ocorrência é apenas o primeiro degrau de uma escada bem mais longa.
Conforme os pesquisadores, as ocorrências já foram localizadas e a etapa atual é outra: avaliar o potencial econômico daquilo que está no chão sergipano.
Ou seja, saber que o elemento existe na rocha não significa saber se compensa tirá-lo de lá. São duas perguntas diferentes, e a segunda é a cara.
O próprio professor diz que a média entre descoberta e mina em operação é de 10 a 15 anos
A frase de Herbert Conceição é direta e vale ser lida com calma. “A média é de 10 a 15 anos para você identificar e ter a mina em funcionamento”, afirmou o professor.
Some isso ao tempo já gasto. Foram cerca de 10 anos só para chegar ao mapa das ocorrências, e o relógio da viabilidade econômica ainda está correndo.
Portanto, na hipótese mais otimista, quem começou a bater martelo naquele granito estaria falando de um horizonte total próximo de 20 anos até a lavra.
É difícil não estranhar o contraste. O noticiário sobre terras raras costuma ter a pressa de uma corrida, enquanto a geologia trabalha na escala de uma carreira acadêmica inteira.
O trabalho começou a atrair contato de empresas
De acordo com o levantamento divulgado, a pesquisa passou a receber procura de empresas interessadas no que foi identificado na região.
Não há nome de companhia divulgado, nem proposta pública, nem valor sobre a mesa. Há apenas o registro de que o telefone começou a tocar depois de uma década de silêncio.
Esse movimento faz sentido dentro do ciclo mineral. Empresas raramente iniciam do zero quando existe pesquisa acadêmica prévia mapeando onde vale a pena olhar primeiro.
Maria de Lourdes vai aos Estados Unidos como única representante do Nordeste
A parceira de Herbert nessa década de campo foi escalada para a Missão Fulbright-CNPq sobre Terras Raras e Minerais Críticos, nos Estados Unidos.
A missão acontece entre 19 de setembro e 1º de outubro de 2026, com uma delegação de dez pesquisadores brasileiros selecionados para a viagem.
Dentro desse grupo, Maria de Lourdes da Silva Rosa é a única representante do Nordeste. Uma professora da UFS ocupando a única cadeira nordestina numa delegação nacional.
O simbolismo salta aos olhos. A região que costuma aparecer nesse tipo de pauta como território a ser explorado aparece, dessa vez, como quem produziu o conhecimento.
O granito do sertão entrou tarde no radar dos minerais críticos
Terras raras e minerais críticos viraram assunto geopolítico nos últimos anos por causa da dependência industrial que criaram em cadeias de tecnologia e energia.
No entanto, a base de tudo isso continua sendo trabalho geológico lento, feito a pé, com amostra na mão e análise depois. Não existe atalho para essa etapa.
A pesquisa da UFS, divulgada em 8 de setembro de 2026, é justamente um retrato dessa lentidão produtiva que raramente cabe em manchete de mercado.
Avaliar potencial econômico é uma etapa diferente de encontrar o elemento
Encontrar neodímio numa rocha responde a uma pergunta científica. Decidir se aquela rocha vira mina responde a uma pergunta industrial, com custo, logística e licenciamento no meio.
Por isso a fase atual da dupla sergipana importa tanto quanto a anterior. É nela que se define se a década de campo vira projeto ou permanece como acervo científico.
Enquanto essa conta não fecha, o que existe em Sergipe é ocorrência mapeada. Termo técnico, sem promessa embutida, e bem mais honesto do que a palavra jazida usada de forma solta.
Três municípios entraram no mapa por causa de trabalho de campo, não de anúncio
Nossa Senhora da Glória, Poço Redondo e Canindé de São Francisco não apareceram nessa história por um comunicado corporativo. Apareceram por caminhada de pesquisador.
A informação sobre o mapeamento foi publicada pelo portal Só Sergipe, que detalhou o alcance do estudo em Poço Redondo e nos municípios vizinhos da faixa estudada.
Contudo, nenhum teor, tonelagem ou dimensão de área foi divulgado até agora. O que se sabe publicamente é o conjunto de elementos identificado e a região onde ele ocorre.
O tempo é a informação mais concreta dessa história
Fico imaginando quantas vezes, ao longo de dez anos, aquele trabalho pareceu não levar a lugar nenhum antes de virar notícia nacional.
Assim, o dado mais sólido que sobra dessa pesquisa não é um número de concentração. É a régua temporal que o próprio pesquisador colocou na mesa sem rodeio.
De 10 a 15 anos entre identificar e operar, segundo ele. Qualquer leitura mais apressada sobre terras raras no Nordeste esbarra nessa frase.
Além disso, o caso mostra que universidade pública em estado pequeno continua produzindo o tipo de informação que empresa nenhuma consegue comprar pronta.
Você teria paciência de passar dez anos rachando pedra no sertão para só então descobrir se vale a pena?
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Fontes
Só Sergipe
Movimento Econômico
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Douglas Avila.

