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Quando o Saara passa dos 45°C no Níger, mesquita faz tijolos de terra, tetos altos e um jardim cheio de árvores trabalharem juntos como sistema de resfriamento e mantém o interior até 15°C mais fresco sem ar-condicionado

Quando o Saara passa dos 45°C no Níger, mesquita faz tijolos de terra, tetos altos e um jardim cheio de árvores trabalharem juntos como sistema de resfriamento e mantém o interior até 15°C mais fresco sem ar-condicionado

7 min de leitura

Quando o Saara passa dos 45°C no Níger, mesquita faz tijolos de terra, tetos altos e um jardim cheio de árvores trabalharem juntos como sistema de resfriamento e mantém o interior até 15°C mais fresco sem ar-condicionado

Escrito por Ana Alice

Publicado em 02/09/2026 às 18:59

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Mesquita no Níger usa tijolos de terra, tetos altos e árvores para ficar até 15°C mais fresca que o exterior, sem usar ar-condicionado. – Imagem: IIustrativa

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Em uma região marcada por calor extremo, uma mesquita no Níger combina técnicas antigas, materiais locais e soluções arquitetônicas simples para criar um ambiente interno muito mais fresco sem depender de sistemas convencionais de refrigeração.

Do lado de fora, a temperatura pode passar dos 45°C.

Dentro da mesquita, não há uma central de ar-condicionado trabalhando para vencer o calor.

O que reduz a temperatura são paredes de terra, um teto que chega a nove metros de altura, portas posicionadas para receber o vento e árvores que ajudam a refrescar o ar ao redor.

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Essa combinação está em Dandaji, uma pequena comunidade do Níger, na borda do Saara, onde fica o Hikma Community Centre.

Concluído em 2018, o complexo voltou a receber atenção internacional em maio de 2026, quando o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o PNUMA, destacou o projeto em meio às discussões sobre como edifícios podem enfrentar temperaturas extremas gastando menos energia.

Segundo o PNUMA, nos dias mais quentes a diferença entre o interior da mesquita e o ambiente externo pode chegar a 15°C, sem utilização de ar-condicionado.

O resultado não depende de uma única invenção escondida nas paredes, mas de várias decisões arquitetônicas relativamente simples funcionando ao mesmo tempo.

Tijolos de terra ajudam a controlar o calor no interior

O princípio por trás da mesquita é conhecido como resfriamento passivo.

Em vez de depender principalmente de máquinas para retirar calor de um ambiente, a arquitetura tenta impedir que ele se acumule e cria caminhos para que o ar quente consiga sair.

No Hikma, isso começa pelas paredes.

Tirando algumas estruturas de concreto, elas são feitas com blocos de terra comprimida produzidos a partir de laterita, solo de tonalidade avermelhada comum em partes da África Ocidental, misturada com pequenas quantidades de cimento e água.

O material retoma técnicas encontradas há muito tempo na arquitetura da região, mas com adaptações para uma construção contemporânea.

Segundo o PNUMA, os blocos são mais porosos que o concreto convencional e permitem que parte do calor acumulado seja dissipada durante a noite.

Isso ajuda a explicar por que trocar simplesmente terra por concreto não seria necessariamente uma modernização do ponto de vista térmico.

Em um lugar onde o calor externo pode permanecer intenso durante horas, o comportamento do material utilizado nas paredes influencia diretamente a sensação dentro do prédio.

Hikma Community Centre, em Dandaji, no Níger, combina blocos de terra comprimida, ventilação natural e grandes alturas internas para enfrentar o calor extremo. Crédito: James Wang / Studio Chahar.

Tetos de até nove metros fazem o ar quente subir

As paredes são apenas uma parte do sistema.

Ao entrar na mesquita, outro detalhe muda completamente a maneira como o calor circula: os tetos abobadados têm entre seis e nove metros de altura.

Como o ar aquecido tende a subir, ele se afasta da região ocupada pelas pessoas e chega às partes superiores do edifício.

No teto, anéis construídos com tijolos de terra pelos próprios artesãos locais ajudam a compor a estrutura.

O desenho favorece a dissipação do calor para o ambiente externo, enquanto a área mais próxima dos frequentadores permanece em condições mais confortáveis.

Portas e janelas também não foram colocadas apenas por aparência.

Elas foram alinhadas para favorecer a passagem das correntes de ar quando abertas.

O espaço interno, além disso, não funciona como um único salão gigantesco.

A mesquita foi dividida em dois volumes, cada um com aberturas posicionadas de forma a permitir que a ventilação atravesse diferentes áreas.

Assim, paredes, altura e circulação de ar trabalham juntas.

Não existe um aparelho central responsável pelo resfriamento, mas um conjunto de elementos que reduz a necessidade desse equipamento.

Os tetos elevados da mesquita, que chegam a 9 metros de altura, permitem que o calor suba e se afaste dos fiéis. Crédito: James Wang

Jardim arborizado também participa do resfriamento

Do lado de fora, as árvores fazem mais do que criar uma paisagem ao redor da mesquita.

O jardim é abastecido por um sistema de irrigação por gotejamento associado ao armazenamento da água captada durante a curta estação chuvosa do Níger.

Parte desse recurso fica guardada em uma cisterna para utilização posterior.

As copas fornecem sombra e reduzem a exposição direta ao Sol em áreas próximas ao edifício.

Há ainda outro efeito que ocorre nas próprias folhas.

Quando a água é liberada pelas plantas e evapora, em um processo chamado transpiração, parte do calor do ambiente é utilizada nessa mudança de estado.

O resultado pode contribuir para resfriar o ar nas proximidades da vegetação.

É por isso que o jardim não aparece no projeto apenas como decoração.

Ele faz parte da estratégia climática da construção, trabalhando em conjunto com a orientação das aberturas, as paredes e a altura dos espaços internos.

Antiga mesquita foi transformada em biblioteca comunitária

A história do Hikma Community Centre também começou com outra construção.

A comunidade possuía uma antiga mesquita de adobe e discutia substituí-la por uma estrutura maior de concreto.

As arquitetas Mariam Issoufou e Yasaman Esmaili perceberam que o edifício antigo tinha valor arquitetônico e apresentava características adequadas ao clima da região.

A solução foi preservar e restaurar a construção existente, convertendo-a em uma biblioteca comunitária, enquanto uma nova mesquita seria erguida nas proximidades.

Os dois prédios passaram a formar o complexo Hikma, conectados por espaços públicos e pelo paisagismo.

A Holcim Foundation, que premiou o projeto em 2018, destaca que os blocos de terra comprimida e o trabalho de artesãos locais foram elementos centrais da proposta.

A fundação também aponta que o projeto combinou técnicas tradicionais com exigências contemporâneas de durabilidade e utilização.

A antiga mesquita, portanto, não desapareceu para que uma construção moderna ocupasse seu lugar.

Ela ganhou uma nova função, enquanto parte do conhecimento incorporado naquele tipo de arquitetura serviu de referência para o prédio novo.

Técnicas tradicionais voltaram a chamar atenção em 2026

O interesse renovado pelo complexo ajuda a mostrar uma mudança na discussão sobre arquitetura em regiões muito quentes.

Mariam Issoufou relatou ao PNUMA que, durante anos, o concreto foi associado à ideia de progresso, enquanto construir com terra podia ser visto como algo ultrapassado.

Para ela, porém, edifícios tradicionais guardam soluções desenvolvidas justamente a partir de séculos de convivência com o clima local.

A carreira da arquiteta também ganhou reconhecimento internacional.

Em dezembro de 2025, Mariam Issoufou foi escolhida pelo PNUMA como uma das Campeãs da Terra, principal reconhecimento ambiental concedido pelas Nações Unidas, na categoria Visão Empreendedora.

O órgão destacou seu uso de materiais locais e estratégias de resfriamento passivo em projetos no Sahel.

Quando o próprio PNUMA voltou ao Hikma em uma reportagem publicada em 19 de maio de 2026, o complexo já tinha cerca de oito anos de funcionamento.

A atenção, portanto, não surgiu porque a mesquita fosse nova, mas porque seu funcionamento oferece um exemplo concreto em uma discussão cada vez mais atual: como manter construções habitáveis quando o calor externo aumenta sem depender exclusivamente de sistemas mecânicos de refrigeração.

Vista elevada do Hikma mostra a mesquita, a antiga construção transformada em biblioteca e a vegetação que participa da estratégia climática do complexo. Crédito: Pierre Juan / Mariam Issoufou Architects.

Sistema combina soluções simples para reduzir a temperatura

Nenhum dos elementos utilizados no Hikma parece, isoladamente, uma tecnologia futurista.

Tijolos de terra existem há séculos.

Tetos altos são conhecidos há gerações.

Árvores produzem sombra, janelas deixam o vento entrar e cisternas armazenam água há muito tempo.

O que diferencia o projeto é a forma como esses recursos foram organizados para responder às condições de Dandaji.

As paredes retardam e dissipam calor, a altura afasta o ar quente das pessoas, as aberturas favorecem a ventilação e o jardim ajuda a criar sombra e um microclima mais ameno.

Há momentos de calor extremo em que ventiladores grandes ainda são utilizados no local, segundo o PNUMA.

Mesmo assim, o edifício não depende de ar-condicionado para produzir a diferença de temperatura destacada pelo órgão.

O caso de Dandaji acabou se tornando um exemplo de uma ideia que parece simples depois de pronta: antes de gastar energia para corrigir a temperatura dentro de um prédio, a própria construção pode ser desenhada para receber menos calor, movimentá-lo melhor e facilitar sua saída.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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