5 min de leitura
Quase 6 milhões de argentinos estão com dívidas atrasadas há mais de 90 dias, um terço de todos que pegaram empréstimo, e o governo Milei responde que isso é questão entre quem empresta e quem toma: enquanto isso, entregadores pagam 131% ao ano ao PedidosYa para voltar a trabalhar
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 07/09/2026 às 13:51
Atualizado em 07/09/2026 às 13:52
Economia
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
A Câmara Argentina de Fintech estima quase 6 milhões de pessoas com dívidas atrasadas há mais de 90 dias, e o Banco Central registrou 12,8% de inadimplência das famílias em junho, contra 2,8% no fim de 2023. Entregadores como Albert Quintero, de 41 anos, tomam crédito a 131% ao ano
Quase 6 milhões de argentinos estão há mais de 90 dias com dívidas em atraso, o equivalente a quase um terço de todos os tomadores de empréstimo no país, segundo estimativas da Câmara Argentina de Fintech. Entre eles estão entregadores de aplicativo que, para recuperar uma moto apreendida em Buenos Aires, recorrem a crédito com juros anuais acima de 100%, como os 131% cobrados pela PedidosYa, enquanto o governo de Javier Milei resiste a qualquer alívio financiado pelo Estado.
As informações foram publicadas pelo g1 em 7 de setembro de 2026, em texto da Redação g1, em São Paulo, com base em reportagem da agência Reuters, dados do Banco Central argentino, da Câmara Argentina de Fintech e da consultoria Analytica.
Moto apreendida custa 140 mil pesos, dois dias de trabalho de um entregador
Albert Quintero, entregador de 41 anos, ganha em média 70 mil pesos argentinos por dia, cerca de US$ 46, fazendo entregas de comida. Recuperar uma moto apreendida pelas autoridades de trânsito de Buenos Aires pode custar cerca de 140 mil pesos, ou US$ 90, em multas e taxas.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Recomendado para você
Petróleo e Gás
ANP leva sandbox regulatório a consulta pública com três modalidades para testar regras antes de aplicá-las ao mercado de energia
A ANP colocou em consulta pública uma norma de regulação experimental com três modalidades, criando caminhos para testar produtos, serviços e regras em ambiente controlado antes de decidir como aplicá-los…
Paulo Nogueira
0
O valor equivale a dois dias inteiros de trabalho. Segundo Quintero disse à Reuters, muitos entregadores não conseguem pagar isso sem recorrer a empréstimos.
PedidosYa cobra 131% ao ano; Personal Pay, cerca de 170%
Entre as opções de crédito estão empréstimos oferecidos pelos próprios aplicativos para os quais os entregadores trabalham, com taxas anuais que frequentemente passam de 100%.
A PedidosYa, por exemplo, oferece empréstimos aos entregadores a uma taxa anual de 131%. A carteira digital Personal Pay cobra cerca de 170%.
“Há muitos que não têm o dinheiro”: o ciclo de dívida que prende ao aplicativo
“Há muitos que não têm o dinheiro”, disse Quintero à Reuters. Por isso, acabam assumindo dívidas.
O empréstimo ajuda a pagar multas e taxas para recuperar o veículo, mas também pode alimentar um ciclo de dívidas que aumenta a dependência dos aplicativos usados para obter renda, conforme o g1. O trabalhador toma crédito do app para voltar a trabalhar no app e pagar o app.
Empréstimos de fintechs saltaram de 500 mil para 10 milhões em sete anos
O número de empréstimos concedidos por fintechs na Argentina cresceu 20 vezes em sete anos: passou de cerca de 500 mil para 10 milhões, segundo Mariano Biocca, diretor-executivo da Câmara Argentina de Fintech.
Os aplicativos financeiros se tornaram uma importante fonte de crédito num momento em que as famílias enfrentam aumento do custo de vida e preocupações com o emprego. Eles ajudam a mostrar, segundo a reportagem, como trabalhadores e famílias lidam com as mudanças econômicas promovidas por Milei.
Quase 6 milhões com atraso acima de 90 dias, um terço dos tomadores
Quase 6 milhões de pessoas estão há mais de 90 dias com dívidas em atraso, de acordo com estimativas compiladas pela Câmara Argentina de Fintech.
O número equivale a quase um terço de todos os tomadores de empréstimos do país. De cada três argentinos com crédito, um está em atraso há mais de três meses.
Inadimplência das famílias: de 2,8% no fim de 2023 para 12,8% em junho, recorde desde 2010
A parcela dos empréstimos às famílias em atraso chegou a 12,8% em junho, o maior nível desde o início da série histórica, em 2010, segundo o Banco Central argentino.
Quando Milei assumiu a Presidência, no fim de 2023, esse índice era de 2,8%. Em pouco mais de dois anos e meio, a inadimplência das famílias multiplicou-se por mais de quatro.
Inflação alta diluía dívidas; agora juros acima da inflação pesam
Analistas afirmam que a mudança não se explica apenas pela situação econômica atual. Durante anos de inflação elevada, os argentinos viram o peso das dívidas diminuir com o tempo, porque preços e renda subiam rápido enquanto o valor devido não acompanhava o mesmo ritmo.
Agora, com juros acima da inflação, o custo das dívidas pesa mais no orçamento e os empréstimos ficam mais difíceis de pagar. O mecanismo que antes aliviava o devedor passou a trabalhar contra ele.
Jovens são os mais afetados, aponta a Analytica
Um estudo da consultoria Analytica apontou que os jovens são os mais afetados pelo aumento das dívidas em atraso.
A facilidade de acesso ao crédito pelas carteiras digitais está no centro dessa avaliação, repetida por quem foi às ruas pedir ajuda.
Protesto em agosto: “não percebem os juros que estão pagando”
“Eles conseguem dinheiro facilmente pelas carteiras digitais, mas não percebem os juros que estão pagando”, disse Enrique Tobani, que participou de um protesto em agosto em frente ao Ministério da Economia, em Buenos Aires, em defesa de medidas para aliviar as dívidas.
“Todo vizinho, familiar ou trabalhador com quem você conversa está passando pela mesma situação”, afirmou.
Governo Milei: dívida é questão entre quem empresta e quem toma
O governo de Milei tem resistido aos pedidos de sindicatos, consumidores e organizações de defesa dos devedores por medidas financiadas pelo Estado para aliviar as dívidas. Para o governo, em geral, o endividamento das famílias é uma questão entre quem empresta e quem toma o crédito.
Autoridades também afirmam que o aumento dos empréstimos em atraso é uma consequência temporária da expansão do mercado de crédito privado na Argentina.
Crédito privado é 12% do PIB argentino, contra 80% no Brasil
O crédito privado representa atualmente 12% do Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina, segundo o g1.
No Brasil, a proporção é de cerca de 80%. O argumento do governo argentino é que o mercado ainda está em expansão, e a inadimplência seria um efeito dessa fase.
Sem alívio estatal em Buenos Aires, e alerta também no Brasil
Quando a reportagem foi publicada, em 7 de setembro de 2026, o governo Milei mantinha a posição de não financiar medidas de alívio, e as taxas de 131% da PedidosYa e de cerca de 170% da Personal Pay seguiam em vigor para os entregadores.
Na semana anterior, autoridades brasileiras também demonstraram preocupação com o aumento do endividamento das famílias, associado a linhas de crédito caras e a critérios menos rigorosos para a concessão de empréstimos. O g1 não informa se há nova rodada de protestos marcada em Buenos Aires.
Na sua opinião, o governo argentino tem razão em tratar as dívidas como questão privada entre credor e devedor, ou juros de 131% cobrados por um aplicativo aos próprios entregadores exigem intervenção do Estado? Deixe sua opinião nos comentários.
Tags
endividamento na Argentina entregadores crédito 131% PedidosYa
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

