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Sacolas e canudos não são os principais responsáveis pela Grande Mancha de Lixo do Pacífico: estudos apontam que redes e equipamentos de pesca representam parcela significativa dos resíduos, revelando uma indústria inesperada por trás da poluição oceânica  

Sacolas e canudos não são os principais responsáveis pela Grande Mancha de Lixo do Pacífico: estudos apontam que redes e equipamentos de pesca representam parcela significativa dos resíduos, revelando uma indústria inesperada por trás da poluição oceânica  

8 min de leitura

Sacolas e canudos não são os principais responsáveis pela Grande Mancha de Lixo do Pacífico: estudos apontam que redes e equipamentos de pesca representam parcela significativa dos resíduos, revelando uma indústria inesperada por trás da poluição oceânica  

Escrito por Hilton Libório

Publicado em 03/09/2026 às 20:28

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Redes de pesca e plástico ameaçam a vida marinha

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Estudos revelam o peso das redes, boias e equipamentos de pesca no lixo do Pacífico e mostram por que combater a poluição marinha exige novas estratégias. 

Segundo artigo publicado por Xataka Brasil em 30 de agosto de 2026, a  imagem de uma gigantesca ilha formada por sacolas, garrafas e canudos ajuda a popularizar o problema, mas não explica o que realmente acontece no Pacífico Norte. A mancha de lixo do Pacífico é uma extensa concentração de resíduos flutuantes, formada por fragmentos de diferentes tamanhos e objetos maiores que circulam pelas correntes oceânicas.

Um estudo publicado em 2022 trouxe uma conclusão importante: entre 75% e 86% da massa de plástico flutuante com mais de cinco centímetros acumulada na região pode estar relacionada a atividades de pesca em alto-mar e aquicultura.

A descoberta muda parte da percepção sobre a origem dos resíduos encontrados naquela área. Em vez de concentrar a atenção apenas em itens domésticos, a pesquisa aponta para redes, cordas, boias, armadilhas e outros equipamentos utilizados no mar.

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Paulo Nogueira

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Como funciona a mancha de lixo do Pacífico

A mancha de lixo do Pacífico está localizada no Pacífico Norte, entre a América do Norte e o Japão. Ela se forma dentro do chamado giro subtropical do Pacífico Norte, um enorme sistema de circulação oceânica.

Quatro grandes correntes contribuem para esse movimento. Elas transportam materiais flutuantes e podem concentrá-los em áreas onde os detritos permanecem durante longos períodos.

Isso não significa que exista uma superfície contínua de lixo. O plástico fica espalhado pela coluna superficial da água, em concentrações que variam de acordo com as condições do oceano.

Com a exposição ao sol e à ação mecânica das ondas, objetos maiores podem se fragmentar. O material, porém, não desaparece. Ele se transforma em pedaços cada vez menores.

O que os pesquisadores encontraram no Pacífico

Durante uma expedição realizada em 2019, a The Ocean Cleanup e cientistas da Universidade de Wageningen recolheram mais de 6.000 objetos de plástico rígido com tamanho superior a cinco centímetros.

Os pesquisadores fizeram uma espécie de investigação forense. Procuraram marcas, símbolos, idiomas, datas, logotipos e outras características que ajudassem a identificar a procedência dos objetos.

Entre as 232 peças cuja origem nacional pôde ser determinada, os resultados foram:

Somados, esses seis países representavam mais de 92% dos objetos com origem nacional identificável. Todos possuem atividades pesqueiras relevantes no Pacífico Norte.

Esse resultado não significa que todo o plástico produzido nesses países seja destinado ao oceano. Ele indica, especificamente, uma forte associação entre os resíduos encontrados na região e atividades marítimas realizadas por países com intensa atuação pesqueira.

Resíduos de pesca aparecem em grande quantidade

A análise dos materiais encontrados revelou a importância dos resíduos de pesca para compreender a composição do lixo flutuante. Redes, linhas, cabos, armadilhas, boias e flutuadores são especialmente relevantes porque foram produzidos para permanecer na água e resistir às condições do ambiente marinho.

Um estudo anterior estimou que as redes de pesca respondiam por quase 46% da massa de plástico encontrada na área analisada. A pesquisa de 2022 ampliou essa compreensão ao considerar diferentes tipos de equipamentos associados à pesca e à aquicultura.

Outro dado chama atenção: boias e flutuadores representavam aproximadamente 3% das peças analisadas, mas respondiam por cerca de 21% da massa. Isso mostra por que simplesmente contar a quantidade de objetos pode esconder a dimensão real do problema.

Plástico nos oceanos não tem uma única origem

O debate sobre plástico nos oceanos precisa considerar uma diferença fundamental: a fonte do lixo e o local onde ele se concentra não são necessariamente a mesma coisa. Em escala global, materiais provenientes de áreas urbanas e de outras fontes terrestres continuam sendo uma preocupação enorme. Rios transportam grandes quantidades de resíduos para o ambiente marinho, enquanto parte do material permanece em praias, regiões costeiras ou acaba no fundo do oceano.

Por isso, a composição da mancha de lixo do Pacífico não pode ser usada para representar todo o lixo existente nos mares. O estudo analisou especificamente por que determinados materiais conseguem chegar ao centro do giro do Pacífico Norte e permanecer ali. Nesse contexto, a origem marítima dos equipamentos se torna particularmente relevante.

Por que a pesca industrial tem tanta influência nessa região

A pesca industrial ajuda a explicar a presença de grandes volumes de equipamentos no Pacífico porque suas operações ocorrem diretamente em alto-mar. Uma rede ou armadilha perdida já começa sua trajetória dentro do ambiente oceânico. Um objeto que entra no mar por meio de um rio, por outro lado, precisa atravessar diferentes ambientes antes de eventualmente chegar a uma região oceânica distante.

Modelos analisados pelos pesquisadores indicaram que, dependendo das premissas utilizadas sobre a permanência dos resíduos na água, um objeto proveniente de atividades pesqueiras poderia ter mais de dez vezes a probabilidade de alcançar o giro subtropical do que um item transportado por um rio.

A localização inicial, portanto, pode ser tão importante quanto a quantidade de lixo produzida. Existe ainda uma consequência particularmente grave. Redes, linhas e armadilhas perdidas podem continuar capturando animais mesmo depois de deixarem de ser utilizadas.

Esse fenômeno é conhecido como pesca fantasma. Os equipamentos podem prender tartarugas, aves, peixes e mamíferos marinhos, provocando ferimentos, afogamento, sufocamento ou morte por inanição.

Uma estimativa baseada em informações de pescadores de sete grandes países calculou que cerca de 2% dos equipamentos de pesca utilizados no mundo acabam no oceano todos os anos.

Em escala global, a estimativa apresentada no material de referência corresponde a aproximadamente:

São números que ajudam a dimensionar por que os equipamentos perdidos merecem atenção específica nas políticas de combate à poluição marinha.

Uma praia no Havaí mostra a dimensão do problema

Os impactos não ficam restritos ao centro do Pacífico. Em Papahānaumokuākea, no arquipélago havaiano, equipes de limpeza encontraram volumes expressivos de equipamentos pesqueiros transportados pelas correntes.

Em uma operação de apenas 24 dias, foram retiradas mais de 94 mil libras de detritos, aproximadamente 43 toneladas, de apenas 25 quilômetros de costa. Desse total, quase 36 toneladas eram redes fantasma e outros equipamentos de pesca.

O histórico da região também impressiona. Desde 1996, mais de 900 toneladas de detritos marinhos foram removidas daquele território protegido. O episódio demonstra que o problema não precisa ocorrer próximo a grandes centros urbanos para produzir impactos ambientais significativos.

A poluição dos oceanos exige uma resposta mais ampla

Os resultados não significam que sacolas, garrafas ou canudos deixaram de ser um problema. A poluição dos oceanos possui múltiplas fontes, e os resíduos de origem terrestre continuam chegando ao mar em grandes volumes.

O ponto central é outro: diferentes regiões podem apresentar diferentes padrões de acumulação.

Na mancha de lixo do Pacífico, equipamentos associados à pesca representam uma parcela especialmente importante da massa de plástico flutuante. Por isso, reduzir a entrada desses materiais exige ações específicas voltadas à atividade pesqueira.

Entre as medidas possíveis estão:

Ao mesmo tempo, políticas de redução de resíduos urbanos e de prevenção do descarte de plástico em rios continuam indispensáveis.

O que essa descoberta muda na prática

A principal contribuição dos estudos é tornar o debate mais preciso. O plástico nos oceanos não deve ser tratado como um problema homogêneo, porque seus caminhos e impactos variam conforme o tipo de material e o ambiente.

Para a pesca industrial, os dados reforçam a necessidade de reduzir a perda e o abandono de equipamentos. Para governos, mostram a importância de políticas direcionadas às diferentes fontes de resíduos.

Para consumidores, a mensagem também é relevante: reduzir produtos descartáveis continua sendo uma atitude importante, mas não é suficiente para explicar ou resolver todos os problemas relacionados ao lixo marinho. A própria existência da mancha de lixo do Pacífico resulta de uma combinação entre circulação oceânica, persistência dos materiais e local de entrada dos resíduos.

Uma questão que vai além das sacolas

A nova evidência não inocenta o consumo terrestre nem diminui a responsabilidade individual e empresarial pela geração de lixo. Ela apenas revela que parte importante da solução precisa estar onde o problema também acontece: no mar.

Os resíduos de pesca ganharam destaque porque são grandes, resistentes e capazes de continuar capturando animais depois de abandonados. Já o lixo terrestre segue representando uma ameaça global que exige prevenção desde a origem.

Um problema que precisa ser visto por inteiro

A poluição dos oceanos não pode ser reduzida a uma disputa entre sacolas e redes de pesca. O desafio é muito maior e envolve diferentes fontes, rotas de transporte e formas de acúmulo. Os estudos sobre a mancha de lixo do Pacífico mostram, porém, que combater o problema exige olhar para além dos resíduos mais conhecidos pelo público.

A presença expressiva de equipamentos ligados à pesca industrial revela uma indústria que precisa participar ativamente da solução. Reduzir perdas, recuperar equipamentos e impedir que redes abandonadas continuem circulando são medidas tão importantes quanto diminuir a entrada de plástico de origem terrestre.

A lição mais importante é simples: para enfrentar o plástico nos oceanos, é preciso entender não apenas quanto lixo produzimos, mas também de onde ele vem, como chega ao mar e para onde as correntes o levam. Essa visão mais ampla permite criar respostas ambientais mais eficientes e proporcionais à dimensão real do problema.

Fonte

Xataka Brasil


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Hilton Libório.

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