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Tem gás, tem gasoduto, mas falta consumo: por que o mercado brasileiro ainda não decolou?

Tem gás, tem gasoduto, mas falta consumo: por que o mercado brasileiro ainda não decolou?

RJ

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Tem gás, tem gasoduto, mas falta consumo: por que o mercado brasileiro ainda não decolou?

Escrito por Paulo Nogueira

Publicado em 23/09/2026 às 08:42

Atualizado em 23/09/2026 às 08:47

O desafio entre infraestrutura disponível e baixo consumo no mercado de gás brasileiro

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ROG.e 2026 mostra que ampliar gasodutos já não basta: setor precisa transformar infraestrutura em consumo, atrair novos clientes e reduzir incertezas regulatórias

O Brasil ampliou sua infraestrutura de gás natural, mas uma parte dessa rede ainda está longe de entregar todo o potencial imaginado quando os investimentos foram feitos. Entre 2021 e 2024, o volume de gás movimentado por quilômetro de rede caiu em boa parte dos mercados analisados, criando um paradoxo para o setor: há mais infraestrutura disponível, mas o consumo não avançou na mesma proporção.

A situação entrou no centro da sessão técnica “Panorama da Indústria de Gás Natural no Brasil”, acompanhada pelo Click Petróleo e Gás durante a ROG.e 2026, no Riocentro, no Rio de Janeiro. Organizado pelo IBP entre 21 e 24 de setembro, o evento reúne debates sobre gás natural, regulação, segurança energética, infraestrutura e competitividade.

É justamente aí que a discussão muda. Durante anos, falar em desenvolvimento do mercado brasileiro de gás significava, quase automaticamente, falar em construir mais gasodutos e ampliar redes de distribuição. Essa necessidade continua existindo. Mas os dados apresentados na ROG.e mostram que colocar mais tubos no mapa não garante que haverá gás suficiente circulando por eles.

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Infraestrutura sem consumo pode virar capacidade ociosa. E capacidade ociosa pesa diretamente na conta do próximo investimento.

Rede cresceu, mas novos consumidores não chegaram na mesma velocidade

A lógica econômica de uma rede de gás depende de movimento. Quando quilômetros adicionais de tubulação entram em operação, espera-se que novos consumidores apareçam, contratos sejam firmados e mais volume passe pela infraestrutura. Caso contrário, o custo continua existindo enquanto a utilização fica abaixo do esperado.

Foi esse descompasso que apareceu no debate. Entre 2021 e 2024, a expansão física da rede não foi acompanhada pelo mesmo ritmo de crescimento do volume transportado por quilômetro em boa parte dos mercados avaliados.

Não significa que expandir foi um erro. Significa que agora existe outra etapa a resolver.

O país precisa fazer com que indústria, geração elétrica, transporte e outros consumidores encontrem condições para utilizar essa capacidade. Sem isso, novos projetos podem enfrentar mais dificuldade para provar sua viabilidade econômica.

Essa discussão não começou agora. O CPG já mostrou como o mercado brasileiro de gás natural tenta combinar produção, infraestrutura, regulação e expansão do consumo para sair de gargalos históricos. mercado brasileiro de gás natural

Fernando Montera, do IBP, aponta a demanda como peça que falta na expansão

Fernando Montera, do IBP ROG.e 2026

Fernando Montera, do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás, levou a discussão para um ponto essencial: a infraestrutura precisa crescer acompanhada de mercado consumidor. É uma relação bastante direta.

Gasodutos e redes de distribuição exigem capital elevado e são construídos para permanecer operando por muitos anos. Uma empresa não investe nesse tipo de estrutura pensando apenas no consumo do próximo trimestre.

O problema aparece quando a rede chega antes da demanda. Se os novos clientes demoram a entrar, o volume transportado permanece baixo em relação à capacidade disponível e o retorno daquele investimento se alonga.

Nesse cenário, grandes consumidores industriais ganham importância. Termelétricas também. Transporte pesado e outras aplicações podem ajudar a aumentar a base de consumo.

O próprio setor já procura alternativas. O CPG mostrou, por exemplo, como o gás natural vem sendo observado pelo transporte pesado como uma possível frente de crescimento da demanda brasileira. gás natural no transporte pesado

A pergunta deixou de ser apenas onde construir a próxima rede. Agora é também: quem vai consumir o gás quando ela estiver pronta?

Brasil produz gás, mas fazer esse volume chegar ao consumidor continua sendo parte do problema

O debate ganha outra dimensão quando se olha para toda a cadeia. Produzir gás não significa necessariamente disponibilizar todo esse volume ao mercado final. Processamento, reinjeção, transporte, infraestrutura de escoamento, contratos e condições comerciais ficam no meio do caminho.

Uma discussão recente da própria cadeia de distribuição apontou que apenas 33% do gás natural produzido no Brasil chega ao consumidor final, segundo dado apresentado pela Abegás e abordado pelo CPG. apenas 33% do gás produzido chega ao consumidor final

Isso ajuda a explicar por que a discussão é mais complexa que simplesmente construir outra tubulação. De um lado, existem regiões precisando de infraestrutura. Do outro, redes já instaladas precisam aumentar sua utilização.

No meio está o consumidor, que só migra ou amplia o uso do gás quando preço, disponibilidade e condições contratuais fazem sentido.

Bruna Duarte, da TAG, coloca regulação dentro da conta do investimento

Bruna Duarte TAG

Se demanda é uma parte do quebra-cabeça, a outra apareceu na fala de Bruna Duarte, da TAG, Transportadora Associada de Gás. Ela destacou ao CPG a necessidade de previsibilidade regulatória para empresas que precisam decidir hoje sobre investimentos cujo retorno acontecerá ao longo de muitos anos.

Isso faz diferença porque o gás natural percorre uma cadeia com várias etapas: produção, processamento, transporte, distribuição e comercialização.

Além disso, regras federais convivem com regulações estaduais. Diferentes empresas participam do mesmo fluxo e contratos podem atravessar longos períodos.

Quando existe dúvida sobre como determinadas regras funcionarão no futuro, o risco sobe antes mesmo de a obra começar. Não é uma discussão sobre simplesmente retirar regras.

O desafio é criar competição e entrada de novos agentes sem retirar a segurança regulatória necessária para investimentos de longo prazo.

A própria revisão das tarifas de transporte em gasodutos já colocou transparência, competitividade e remuneração da infraestrutura no centro do debate regulatório do setor. revisão regulatória das tarifas de transporte de gás natural

Mais oferta de gás não elimina o desafio de criar mercado

Ao mesmo tempo em que o setor discute utilização das redes atuais, novos projetos prometem aumentar a quantidade de gás disponível no país.

O Complexo de Energias Boaventura, ligado ao gasoduto Rota 3, é um exemplo dessa expansão da capacidade nacional. O sistema acrescentou uma nova rota para trazer gás produzido no pré-sal até o mercado brasileiro. Complexo de Energias Boaventura e o gasoduto Rota 3

Outros projetos podem ampliar ainda mais essa oferta. Em Sergipe, por exemplo, um novo gasoduto associado a Sergipe Águas Profundas é projetado para transportar 18 milhões de metros cúbicos de gás por dia a partir de 2030, criando outra possível fonte relevante para o mercado nacional.

Mais moléculas disponíveis ajudam, mas o debate da ROG.e deixa claro que oferta sozinha também não fecha a equação. É preciso ter compradores para esse gás.

O gargalo do próximo ciclo pode estar menos no tubo e mais no mercado

Panorama da Indústria de Gás Natural no Brasil ROG.e 2026

Quando demanda, infraestrutura e regulação são colocadas lado a lado, aparece um cenário menos óbvio para o futuro do gás natural brasileiro. Algumas regiões ainda precisam de novas redes. Em outras, talvez o maior desafio seja usar melhor aquilo que já está construído.

Se a infraestrutura cresce muito mais rápido do que o consumo, aumenta a capacidade ociosa. Se grandes consumidores aparecem onde não existe infraestrutura, o gargalo muda de lugar. E mesmo quando rede e demanda se encontram, preços pouco competitivos ou insegurança regulatória podem atrasar decisões.

Tudo acaba ligado. É por isso que a próxima fase do mercado brasileiro de gás talvez não possa ser medida apenas pelo número de quilômetros de gasodutos inaugurados.

O indicador mais revelador pode ser outro: quanto gás efetivamente consegue atravessar essa infraestrutura e chegar a consumidores dispostos a comprá-lo.

A rede brasileira cresceu. Agora o desafio é fazer o mercado crescer dentro dela.

E você, acredita que o Brasil deveria priorizar novos gasodutos ou concentrar esforços em aumentar o consumo e a utilização da infraestrutura que já existe?

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Rio Oil & GasROG.e 2026


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Paulo Nogueira.

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