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“Temos apenas algumas horas antes que vídeos sejam apagados e vozes acabem silenciadas”: a correspondente da BBC na China descreve a corrida contra a censura para saber o que aconteceu na enchente do Tibete, onde ativistas dizem que quem posta ou fala com jornalista pode ser preso
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 07/09/2026 às 13:15
Atualizado em 07/09/2026 às 13:16
Economia
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Laura Bicker, da BBC, relata: as enchentes de quarta (26/8) em Gyirong, na fronteira do Tibete com o Nepal, deixaram 752 mortos e mais de 2.500 desaparecidos, mas o telejornal estatal chinês mostrou uma única imagem. Xi Jinping presidiu reunião de emergência, e Li Qiang também foi enviado à região
As inundações repentinas que atingiram o porto de Gyirong, uma das principais passagens de fronteira entre o Nepal e o Tibete, na quarta-feira (26/8), deixaram pelo menos 752 mortos e mais de 2.500 desaparecidos, mas as imagens da torrente, que correram o mundo pelas redes sociais, praticamente não circulam na China. Até a publicação do relato, o principal telejornal estatal do país havia exibido uma única imagem estática do desastre, e jornalistas estrangeiros seguem proibidos de viajar ao Tibete sem autorização do governo.
As informações foram publicadas pela BBC News Brasil em 29 de agosto de 2026, com atualização em 30 de agosto, em texto de Laura Bicker, correspondente da BBC News na China, com base na cobertura da mídia estatal chinesa, em comunicado do Partido Comunista e em manifestações de ativistas e da Campanha Internacional para o Tibete.
Câmeras de segurança em Gyirong: a torrente que o mundo viu, menos a China
As cenas foram capturadas por câmeras de segurança: uma torrente de água invadindo o porto de Gyirong e arrastando tudo no caminho, enquanto centenas de pessoas fugiam para salvar a vida. As imagens se espalharam rapidamente pelas redes sociais e chegaram a telas de todo o mundo.
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Na internet chinesa, fortemente censurada, o vídeo é difícil de encontrar. O mesmo vale para publicações que descrevam as inundações, segundo a correspondente.
752 mortos e mais de 2.500 desaparecidos na quarta (26/8)
As inundações repentinas aconteceram na quarta-feira, 26 de agosto, e deixaram pelo menos 752 mortos e mais de 2.500 desaparecidos, conforme a BBC.
Os noticiários chineses trazem atualizações diárias sobre mortos e desaparecidos, além de informações sobre as operações de resgate e sobre um lago de contenção que corre o risco de transbordar.
Uma única imagem estática no telejornal estatal
Até o momento do relato, apenas uma imagem estática do desastre havia sido transmitida pelo principal telejornal estatal da China.
Ao comparar o conteúdo disponível na internet do país com o que o mundo viu nos dias seguintes, o bloqueio chinês fica mais visível do que nunca, escreve Laura Bicker.
Xi preside reunião de emergência e Li Qiang vai aos escombros
Pequim lançou uma operação de resgate em larga escala, com centenas de socorristas, e o presidente Xi Jinping presidiu uma reunião de emergência com autoridades para coordenar os esforços.
O primeiro-ministro Li Qiang foi rapidamente enviado à região, onde inspeciona a remoção de escombros. Segundo a BBC, é uma visita rara do segundo líder mais importante do país logo após um grande desastre, e um sinal de que o governo parece muito preocupado com a situação.
Sábado (29/8): imagens de resgate na lama, mas nenhum sobrevivente ouvido
No sábado (29/8), novas imagens divulgadas pela mídia estatal mostraram equipes de resgate andando por um terreno baldio cheio de lama e pedras, tentando identificar pessoas presas. Equipes especializadas escalam montanhas e penhascos ou atravessam rios caudalosos para chegar às áreas mais afetadas.
Além disso, há poucos detalhes. Não existem relatos de sobreviventes no Tibete, quase nenhuma filmagem feita por usuários mostra a enchente e suas consequências, e não há notícias das famílias dos desaparecidos. “Ainda não sabemos o que aconteceu depois, nem quem eles conseguiram salvar”, escreve a correspondente.
Mais fácil falar com Pyongyang do que com Lhasa
Tentar contatar pessoas no local é praticamente impossível, mesmo em tempos normais, segundo Bicker.
Como jornalista que cobriu a Coreia do Norte, ela relata que muitas vezes foi mais fácil contatar entrevistados em Pyongyang do que na capital tibetana, Lhasa.
Quinta (27/8): o telejornal abriu com o livro de Xi
Na noite de quinta-feira (27/8), enquanto as manchetes globais destacavam a devastação em um vale do Himalaia, a emissora estatal chinesa abriu seu principal boletim com o lançamento do novo livro de Xi Jinping, uma seleção de suas “obras mais importantes e fundamentais”.
A escolha editorial, um dia depois da enchente, é citada pela BBC como exemplo da resposta discreta da China ao desastre.
“Temos apenas algumas horas”: a corrida contra o apagamento
“Temos apenas algumas horas para obter o máximo de informações possível sobre histórias importantes como esta, antes que vídeos sejam apagados e vozes acabem silenciadas”, escreve Laura Bicker.
Jornalistas estrangeiros não podem viajar ao Tibete sem autorização do governo. Por isso, a cobertura depende da mídia estatal, que até então se concentrava nos esforços de resgate.
Por que o nome Tibete atrai censura: anexação nos anos 1950 e o Dalai Lama
O Tibete foi anexado por Pequim na década de 1950 e resistiu por muito tempo ao domínio do Partido Comunista Chinês. Ao longo dos anos, a China reprimiu protestos, por vezes de forma violenta, e foi acusada de graves violações de direitos humanos na região de maioria budista.
O país classificou o líder espiritual exilado, o Dalai Lama, como separatista. Essa história, segundo a BBC, faz com que o próprio nome Tibete atraia a censura chinesa, sensibilidade que fica especialmente evidente em momentos como este.
Estabilidade acima de tudo: o medo do descontentamento e o papel da fé
O motivo da resposta discreta, na análise da correspondente, é preservar o que Xi mais deseja para o país: a estabilidade. O Partido Comunista temerá que o desastre alimente descontentamento, seja com a resposta dada, seja com a falta de visão para evitá-lo.
Pode haver também receio de que a tragédia se torne fator de mobilização numa comunidade onde a fé tem papel central. Grupos tibetanos no exterior já expressavam preocupação com novas leis educacionais que, segundo eles, visam enfraquecer o papel dos mosteiros e da fé budista.
Poucas horas depois do desastre, o escritório local do partido emitiu um comunicado instando os membros a se mobilizar nos esforços de socorro e a oferecer orientação emocional ou apoio psicológico aos moradores afetados.
A instrução principal determinava que eles “façam todos os esforços para manter a ordem social e garantir a estabilidade e a confiança pública nas áreas afetadas pelo desastre”. Quem tiver bom desempenho será recompensado; quem tiver desempenho ruim “será responsabilizado”, um aviso que, segundo a BBC, não será ignorado.
Ativistas: falar com jornalista ou postar pode dar prisão
Segundo ativistas de direitos humanos, tibetanos da região podem ser detidos ou presos por falar com jornalistas ou por publicar na internet qualquer coisa considerada contrária à narrativa do governo.
Isso dificulta a vida de tibetanos que vivem fora da região e querem saber o que aconteceu com parentes que ainda moram lá.
Campanha Internacional para o Tibete pede “informações completas e verificáveis”
A Campanha Internacional para o Tibete elogiou o trabalho dos socorristas, mas afirmou que Pequim tem removido vídeos e outras informações das redes sociais.
A organização pediu às autoridades chinesas que “divulguem informações completas e verificáveis sobre os danos e as vítimas”.
Monges de Kirti à BBC em 2025: “direitos humanos básicos negados”; Pequim nega
No ano passado, a BBC viajou a uma cidade na orla do planalto do Himalaia, nos arredores do que a China chama de Região Autônoma do Tibete, e conversou com monges no mosteiro de Kirti, em Aba, ou Ngaba em tibetano, antigo centro da resistência tibetana. “Nós, tibetanos, temos nossos direitos humanos básicos negados”, disse um monge. As fontes afirmaram viver sob vigilância constante, e as conversas foram breves porque a equipe não podia ser vista falando com ninguém por muito tempo.
Pequim nega violar os direitos dos tibetanos e destaca os investimentos feitos na região para impulsionar o turismo e integrá-la ao resto do país.
Lago com risco de transbordar, resgate em curso e famílias sem notícias
Quando o relato foi atualizado, em 30 de agosto de 2026, o resgate seguia em andamento, com o lago de contenção ainda sob risco de transbordar, os números oficiais em 752 mortos e mais de 2.500 desaparecidos, e nenhum relato de sobrevivente ou de família tibetana chegando ao exterior.
As pessoas na China, conclui a correspondente, não sabem muito sobre o que está acontecendo no Tibete neste momento. A BBC não informa se as autoridades chinesas responderam ao pedido da Campanha Internacional para o Tibete.
Na sua opinião, a prioridade de “manter a ordem social” durante um desastre com 752 mortos justifica o controle sobre vídeos e relatos, ou a falta de informação verificável sobre as vítimas do Tibete é o maior dano dessa resposta? Deixe sua opinião nos comentários.
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censura China enchente Tibete Gyirong
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

