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Trabalhadores encontram em obra cemitério colonial dos séculos 17 a 19, com mais de 800 fragmentos humanos

Trabalhadores encontram em obra cemitério colonial dos séculos 17 a 19, com mais de 800 fragmentos humanos

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Trabalhadores encontram em obra cemitério colonial dos séculos 17 a 19, com mais de 800 fragmentos humanos

Escrito por Alisson Ficher

Publicado em 11/09/2026 às 18:41

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Escavações na Praça dos Pescadores, em Santiago do Iguape, identificaram camadas arqueológicas de épocas diferentes, incluindo sepultamentos de povos originários abaixo do cemitério histórico; parte dos vestígios foi encaminhada a universidades para conservação temporária e análises especializadas.

A requalificação da Praça dos Pescadores, ao lado da Igreja Matriz, passou a exigir trabalho arqueológico depois do aparecimento de restos humanos no terreno. O Governo da Bahia informou que foram identificadas 11 ossadas completas, além de mais de 800 fragmentos humanos.

A obra é executada pela Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder) em Santiago do Iguape, distrito de Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Os vestígios humanos foram relacionados a um cemitério utilizado entre os séculos 17 e 19.

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Com a descoberta, a área passou a ser escavada e documentada de forma controlada. O procedimento permite registrar a posição dos materiais, as camadas do terreno e a relação entre os diferentes vestígios antes que sejam removidos de seu contexto original.

Os mais de 800 fragmentos ajudam a dimensionar o volume do material recuperado, mas não equivalem automaticamente à mesma quantidade de pessoas enterradas. Partes de um mesmo indivíduo podem aparecer separadas, e sua interpretação depende da análise conjunta dos restos e das condições em que foram encontrados.

A investigação mostrou ainda que o terreno preservava evidências anteriores ao cemitério colonial. A equipe alcançou níveis arqueológicos mais antigos sob as sepulturas cristãs, revelando vestígios de ocupações humanas de períodos diferentes na mesma área.

Sepultamentos indígenas abaixo do cemitério histórico

A Universidade Federal do Piauí (UFPI) informou que seu Laboratório de Osteoarqueologia participou do projeto e que a pesquisa identificou um cemitério de povos originários abaixo do cemitério histórico. A instituição descreveu o nível pré-colonial como um sambaqui também utilizado para sepultamentos.

Sambaquis são estruturas arqueológicas formadas ao longo do tempo pela acumulação de conchas, restos de alimentação e outros materiais relacionados à presença humana. Nesse caso, a presença de sepultamentos dentro da camada pré-colonial acrescentou ao sítio um conjunto diferente daquele encontrado no cemitério cristão sobreposto.

Rosivânia Aquino, coordenadora-geral do projeto de intervenção arqueológica, explicou à UFPI que os pesquisadores encontraram um cemitério cristão sobre uma construção indígena também utilizada para enterramentos antes da colonização. A equipe chegou aos níveis pré-coloniais durante os trabalhos realizados em 2024.

Nas áreas ligadas aos enterramentos mais antigos, foram localizados objetos produzidos com ossos e dentes de animais. Entre eles estava uma ponta de seta de osso polido, encontrada junto de um dos indivíduos considerados provavelmente pré-coloniais pela equipe responsável pela pesquisa.

Os sepultamentos históricos forneceram outro conjunto de materiais. A UFPI registrou a presença de crucifixos e contas de rosário relacionados a práticas cristãs, além de contas de guias e figas associadas a tradições de matriz africana.

Uma sepultura infantil continha ainda restos de um objeto descrito pelos pesquisadores como uma boneca ou anjo, formado por uma cabeça de porcelana e um corpo originalmente feito de tecido. A parte orgânica se degradou, enquanto o componente de porcelana permaneceu preservado.

O valor arqueológico desses objetos não depende apenas de sua conservação individual. A posição em que aparecem, sua proximidade com os sepultamentos e a camada do solo à qual pertencem integram o registro usado pelos pesquisadores para interpretar o sítio após a escavação.

Materiais foram encaminhados para universidades

Os restos humanos também passaram a ser estudados fora da área da obra. A análise bioarqueológica de ossos e dentes permite examinar características dos indivíduos sepultados, respeitando os limites impostos pelo estado de conservação de cada peça e pelas informações preservadas no contexto arqueológico.

Em julho de 2025, o Governo da Bahia informou que 18 caixas com materiais arqueológicos retirados da área foram entregues à Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), em Ilhéus, para guarda temporária. Outra parte dos vestígios humanos foi encaminhada ao Laboratório de Osteoarqueologia da UFPI para estudos especializados.

A transferência separou materiais destinados à conservação daqueles selecionados para análises específicas. As 18 caixas não correspondiam somente às ossadas completas, mas reuniam parte do conjunto arqueológico recolhido, organizado e acondicionado depois dos trabalhos realizados no terreno.

A previsão divulgada pelo governo estadual era de permanência das caixas na Uesc por aproximadamente 15 meses. O prazo foi apresentado como período de guarda temporária, sem que o comunicado tratasse essa etapa como destinação definitiva do material arqueológico.

O trabalho realizado depois da retirada dos vestígios depende também da documentação produzida durante a escavação. Uma vez removidos ossos, objetos e fragmentos, registros sobre profundidade, posição e associação entre materiais preservam informações que não podem ser recuperadas apenas pelo exame posterior das peças.

Esse registro é especialmente necessário em Santiago do Iguape porque sepultamentos históricos e evidências pré-coloniais apareceram em camadas diferentes do mesmo terreno. A documentação permite manter separadas as informações de cada contexto mesmo quando os materiais passam a ser conservados e estudados fora do sítio.

As caixas entregues à Uesc foram destinadas à guarda temporária, enquanto parte dos restos humanos seguiu para estudos osteoarqueológicos na UFPI. Os materiais deixaram a área acompanhados pelos registros produzidos durante a escavação, necessários para relacionar cada vestígio ao contexto em que foi encontrado.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

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