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Trump diz na ONU que poderá recorrer ao poder militar dos EUA na América Latina e compara cartéis de drogas ao Estado Islâmico
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 22/09/2026 às 22:27
Atualizado em 22/09/2026 às 22:30
Geopolítica
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O discurso foi feito na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, logo depois da fala de Lula. Os dois não se encontraram nos bastidores, ao contrário do que ocorreu em 2025.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou em 22 de setembro de 2026 que seu país usará o “poderio militar incomparável” na América Latina para garantir segurança contra os cartéis de drogas. A declaração foi dada no discurso à Assembleia Geral da ONU, em Nova York, segundo a BBC News Brasil.
Trump foi o segundo líder a discursar, logo após o presidente Lula. Ele usou boa parte da fala para tratar das ações americanas na Venezuela e do combate a organizações criminosas na América Latina e no Caribe.
“Se necessário, usaremos nosso poderio militar incomparável”
A frase central do discurso ligou a ofensiva na Venezuela a uma advertência mais ampla sobre a região. “Nossas ações na Venezuela são prova de que os Estados Unidos não vão mais permitir que ameaças à América ganhem posição de destaque no hemisfério ocidental e, se necessário, usaremos nosso poderio militar incomparável para garantir os interesses nacionais vitais dos EUA”, disse.
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A formulação preserva uma condição: o uso da força aparece como possibilidade, ligada ao que Washington considerar ameaça aos seus interesses. Trump não citou país, prazo ou tipo de operação nessa parte da fala.
Cartéis descritos como “o Estado Islâmico do hemisfério ocidental”
Na sequência, Trump comparou as organizações criminosas latino-americanas ao grupo terrorista Estado Islâmico. “Depois de chegar ao cargo, eu designei os cartéis de drogas como organizações terroristas estrangeiras e desencadeei uma operação com as Forças Armadas Americanas para eliminá-los. Os cartéis são o Estado Islâmico do hemisfério ocidental”, afirmou.
A comparação não é apenas retórica. Ela sustenta o enquadramento jurídico que o governo americano vem usando para justificar ações militares contra grupos ligados ao tráfico de drogas.
O que significa chamar um cartel de organização terrorista estrangeira
A sigla usada nos Estados Unidos é FTO, de Foreign Terrorist Organization. Quando um grupo entra nessa lista, passam a valer sanções financeiras, restrições de entrada no país e punições para quem dá apoio material a ele.
Na prática, o rótulo aproxima o combate ao tráfico do repertório usado contra grupos terroristas, o que inclui operações militares. Foi esse deslocamento que Trump destacou no discurso ao dizer que designou os cartéis e acionou as Forças Armadas.
Da designação de grupos à ofensiva no Caribe
A designação de grupos criminosos ligados à Venezuela como organizações terroristas estrangeiras começou em janeiro de 2025, com o Tren de Aragua, e seguiu em julho do mesmo ano com o Cartel de los Soles, que Washington associava a Nicolás Maduro, acusação que ele negava.
Em agosto de 2025, os Estados Unidos iniciaram uma concentração militar no Caribe, com navios de guerra e tropas. A partir de setembro daquele ano, o Comando Sul passou a atacar embarcações acusadas de transportar drogas, e em dezembro as ações se estenderam a alvos em terra, com bloqueio marítimo a petroleiros sancionados.
Operação de 3 de janeiro terminou com Maduro preso
A escalada chegou ao ponto máximo em 3 de janeiro de 2026, na operação batizada de Absolute Resolve. Segundo relatório enviado ao Congresso americano e análises do CSIS, o ataque envolveu mais de 150 aeronaves e atingiu instalações militares em Caracas.
Maduro e sua mulher, Cilia Flores, foram capturados e levados a Nova York, onde respondem a acusações de narcoterrorismo, tráfico de drogas e armas. Em 5 de janeiro de 2026, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu como presidente encarregada da Venezuela.
Por que a Venezuela virou a vitrine do discurso
Ao dizer que as ações na Venezuela são “prova” da nova postura, Trump transformou a operação em modelo. O caso venezuelano é apresentado como demonstração do que Washington está disposto a fazer quando classifica um grupo como ameaça terrorista.
Essa leitura é do próprio presidente americano. Governos da região e organismos internacionais têm avaliações distintas sobre a legalidade e os efeitos dessas operações, tema que segue em disputa diplomática.
Cuba, segundo Trump, “vai cair”
O presidente americano também afirmou que o governo cubano enfrenta o maior aperto de sua história. “Estamos pensando também numa mudança radical em Cuba, onde o regime comunista está sob a maior pressão que jamais esteve. É um regime absolutamente falido, um Estado falido. E vai cair”, disse.
A previsão sobre a queda do governo cubano é dele, não um fato estabelecido. Nenhuma data, condição ou mecanismo foi apresentado no discurso.
Rubio negocia com o governo cubano
Trump informou que o secretário de Estado, Marco Rubio, conduz negociações com Havana. “Nós não vamos deixar que haja um porto seguro para o terror na nossa porta”, afirmou.
O conteúdo dessas conversas não foi detalhado na fala. Assim, o que existe publicamente é a confirmação da negociação e o enquadramento dado pelo presidente americano.
Lula abriu a sessão e falou em soberania
Por tradição mantida desde 1955, o Brasil abre o debate geral da Assembleia. Lula discursou primeiro e centrou a fala na defesa da soberania nacional e do multilateralismo, segundo a CNN Brasil, com críticas ao que classificou como imobilismo do Conselho de Segurança.
A orientação do Planalto, de acordo com a CartaCapital, era não transformar o discurso em resposta direta ao governo Trump nem acusar os Estados Unidos de interferência na eleição brasileira. Lula também tratou do conflito em Gaza e criticou o governo de Israel.
Os dois não se cruzaram nos bastidores
Lula e Trump não se encontraram nos corredores da ONU, segundo fontes próximas ao presidente brasileiro ouvidas pela BBC News Brasil. Havia expectativa de que se cruzassem na saída de Lula do plenário, quando Trump entrava para discursar.
Foi exatamente assim que os dois se viram rapidamente em 2025, episódio que destravou o diálogo entre eles. Desta vez, o encontro não aconteceu.
O encontro de 2025 mudou a relação, por um tempo
Naquele momento, o governo brasileiro buscava uma saída diplomática para o primeiro tarifaço aplicado por Trump ao país. Também estava em discussão a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, sob a acusação de ter agido politicamente na condenação de Jair Bolsonaro.
O breve encontro virou ponto de virada: os dois passaram a conversar e tiveram uma reunião presencial, que resultou na retirada de tarifas e sanções contra o Brasil.
Relação voltou a piorar às vésperas da eleição
Nos últimos meses, a relação entre os dois governos se deteriorou de novo. O momento é delicado: faltam duas semanas para as eleições brasileiras, a disputa comercial entre os países segue sem solução e há risco de uma nova rodada de sanções do governo Trump contra autoridades brasileiras.
O discurso desta terça-feira acrescenta outro elemento a esse quadro. Ao anunciar disposição de usar força militar na América Latina, Trump colocou a região inteira, e não apenas a Venezuela, dentro do alcance da política que seu governo vem aplicando desde 2025.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

