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Ucrânia busca contornar veto de Lula para comprar 24 Super Tucano da brasileira Embraer
Escrito por Ana Alice
Publicado em 21/09/2026 às 23:33
Atualizado em 21/09/2026 às 23:35
Forças Armadas
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A possível compra de 24 Super Tucano pela Ucrânia envolve Embraer, Otan, combate a drones e regras brasileiras de exportação, enquanto Kiev tenta encontrar uma alternativa para superar as restrições impostas pelo governo brasileiro.
A Ucrânia voltou a colocar o brasileiro A-29 Super Tucano no centro de seus planos de defesa aérea.
A iniciativa envolve a possível aquisição de 24 aeronaves fabricadas pela Embraer para combater drones russos, mas esbarra na posição do governo brasileiro de não autorizar o fornecimento de material militar ao país em guerra.
Segundo a agência Interfax-Ukraine, a tentativa foi apresentada pelo ex-presidente ucraniano Petro Poroshenko, hoje deputado e líder do partido de oposição Solidariedade Europeia.
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Em 19 de setembro, ele afirmou que trabalha para viabilizar a operação depois de discutir o assunto com representantes da Embraer durante a feira de defesa MSPO 2026, realizada na Polônia.
A proposta também foi levada ao ministro da Defesa da Ucrânia, Yevhen Khmara.
Ucrânia avalia 24 Super Tucano para combater drones
Poroshenko diz que as conversas chegaram à definição de um conjunto de 24 Super Tucano destinado principalmente à interceptação de drones de ataque usados pela Rússia.
Até agora, porém, não há anúncio público de contrato entre a Embraer e a Ucrânia, nem confirmação da fabricante brasileira sobre uma venda das aeronaves.
A iniciativa, portanto, ainda está em fase política e de negociação.
É justamente nesse ponto que aparece a estratégia para tentar contornar a restrição brasileira.
Segundo Poroshenko, novas negociações poderiam ocorrer por intermédio de um país da Otan que já mantenha contratos de defesa com o Brasil.
O político não revelou qual seria esse país.
Reexportação ainda dependeria de autorização brasileira
Essa alternativa, no entanto, não significa que uma aeronave brasileira poderia simplesmente ser comprada por um terceiro país e repassada à Ucrânia sem participação de Brasília.
A legislação brasileira estabelece controles específicos para produtos de defesa.
Pelas regras em vigor, empresas precisam de autorização para negociar e exportar produtos classificados na área de defesa.
Além disso, a reexportação para um terceiro país depende de autorização prévia do Ministério da Defesa, ouvido o Ministério das Relações Exteriores.
O certificado de usuário final também prevê que o equipamento não seja transferido novamente sem consentimento do país exportador.
Na prática, isso significa que a participação de um integrante da Otan poderia abrir uma nova frente de negociação, mas não elimina automaticamente a necessidade de aval brasileiro para uma eventual transferência.
Impasse brasileiro não começou agora
O impasse não começou agora.
Durante o governo Lula, o Brasil já recusou pedidos relacionados ao fornecimento de material militar destinado ao esforço de guerra ucraniano.
Em declaração pública feita em 2023, Lula afirmou que havia rejeitado um pedido alemão envolvendo munições porque não queria que o Brasil participasse diretamente do conflito.
Ao mesmo tempo, a posição oficial brasileira condena a invasão russa e defende a integridade territorial da Ucrânia.
O governo Lula tem afirmado que prefere atuar diplomaticamente em busca de uma negociação para encerrar a guerra, postura reiterada pelo presidente e pelo Itamaraty em diferentes ocasiões desde 2023.
Segundo a Folha de S.Paulo, restrições brasileiras a pedidos de fornecimento de equipamento militar para Kiev também ocorreram ainda durante o governo de Jair Bolsonaro, em 2022.
Por isso, a resistência brasileira ao envio de armamentos para o conflito atravessou administrações diferentes, embora tenha adquirido nova dimensão diplomática durante o governo atual.
Super Tucano ganha espaço no mercado internacional
Para a Embraer, a discussão acontece em um momento no qual o Super Tucano ganha novas funções no mercado internacional de defesa.
O A-29 é um turboélice desenvolvido para treinamento avançado e ataque leve.
Segundo dados divulgados pela Embraer, mais de 290 unidades foram encomendadas e a aeronave já foi selecionada por 22 forças aéreas, acumulando mais de 600 mil horas de voo.
A capacidade que desperta interesse ucraniano está diretamente ligada à transformação do campo de batalha provocada pelos drones.
Em março de 2026, a Embraer anunciou uma parceria com a americana Valkyrie Aero para ampliar as capacidades do A-29 em missões C-UAS, sigla em inglês usada para sistemas de combate a aeronaves não tripuladas.
Embraer adapta A-29 para missões contra drones
O projeto prevê integrar ao Super Tucano o sistema Gunslinger, que utiliza inteligência artificial para auxiliar na detecção, acompanhamento e neutralização de ameaças aéreas não tripuladas.
A fabricante apresenta características como tempo de permanência em voo, agilidade e capacidade de transportar diferentes sensores e armas como vantagens para esse tipo de operação.
Essa adaptação ajuda a explicar por que uma aeronave turboélice entrou nas discussões ucranianas mesmo em uma guerra marcada pelo emprego de caças modernos e sofisticados sistemas de defesa aérea.
Poroshenko afirma que o objetivo seria utilizar os A-29 contra drones de ataque russos, inclusive modelos da família Shahed, empregados em ataques contra cidades e infraestruturas ucranianas.
Essa é, por enquanto, a justificativa apresentada pelo político ucraniano, e não uma missão oficialmente contratada pela Ucrânia junto à Embraer.
A-29N aproxima Super Tucano dos padrões da Otan
A aproximação do Super Tucano com a Otan também deixou de ser apenas uma possibilidade comercial.
Portugal tornou-se o primeiro país a operar a versão A-29N, configurada para atender requisitos operacionais da aliança militar.
Em dezembro de 2025, a Embraer entregou à Força Aérea Portuguesa os cinco primeiros exemplares de uma encomenda de 12 aeronaves.
A fabricante também anunciou a possibilidade de estabelecer uma linha de montagem final do A-29 em Portugal.
Segundo a Embraer, a estrutura poderia atender à crescente demanda europeia por uma aeronave capaz de desempenhar missões contra drones.
Esse movimento industrial faz de Portugal uma peça relevante no avanço europeu do Super Tucano, mas não há confirmação pública de que o país seja o intermediário citado por Poroshenko.
Qualquer associação nesse sentido continua sendo hipótese enquanto governos ou empresas envolvidas não identificarem oficialmente o possível parceiro.
Possível encomenda ainda não tem valor nem cronograma
Do ponto de vista comercial, uma eventual encomenda de 24 aeronaves seria significativa para o programa A-29.
Ainda assim, não há valor divulgado, cronograma de fabricação ou definição sobre qual configuração seria destinada à Ucrânia.
Poroshenko afirmou esperar que as aeronaves possam chegar ao país até o fim de 2026.
Esse prazo também deve ser tratado como uma expectativa do ex-presidente ucraniano, já que nenhuma entrega foi anunciada pela Embraer e as autorizações necessárias ainda não estão publicamente confirmadas.
O caso reúne, assim, três questões que passaram a se encontrar no mercado de defesa europeu: a necessidade ucraniana de encontrar formas de enfrentar drones, a expansão internacional do Super Tucano e os controles brasileiros sobre o destino final de equipamentos militares produzidos no país.
Por enquanto, o plano das 24 aeronaves permanece em negociação.
O próximo passo dependerá de saber se o governo ucraniano adotará formalmente a proposta apresentada por Poroshenko, qual país da Otan participaria da operação e, principalmente, se uma estrutura desse tipo receberia as autorizações exigidas pelo Brasil.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

