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Um golpe de quase 28 mil reais numa negociação de carro pela transferência instantânea usou uma “voz clonada” por inteligência artificial para se passar pelo irmão da vítima, que buscou um mecanismo oficial de devolução depois de ver o dinheiro sumir da conta

Um golpe de quase 28 mil reais numa negociação de carro pela transferência instantânea usou uma “voz clonada” por inteligência artificial para se passar pelo irmão da vítima, que buscou um mecanismo oficial de devolução depois de ver o dinheiro sumir da conta

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Um golpe de quase 28 mil reais numa negociação de carro pela transferência instantânea usou uma “voz clonada” por inteligência artificial para se passar pelo irmão da vítima, que buscou um mecanismo oficial de devolução depois de ver o dinheiro sumir da conta

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 20/09/2026 às 02:54

Atualizado em 20/09/2026 às 02:55

Economia

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Tela de celular com o contato comercial falso usado num golpe de voz clonada, ao lado de fotos reais do carro negociado enviadas pelo golpista. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal via G1

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Depois de golpistas usarem uma voz clonada por inteligência artificial para se passar por parentes durante negociações de carro em Mato Grosso do Sul, veja como funciona o golpe, os sinais de alerta, a palavra de segurança da família e o passo a passo para acionar o Mecanismo Especial de Devolução do Pix

Um empresário de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, perdeu quase 28 mil reais numa negociação de carro pelo pix depois de ouvir, ao telefone, uma voz clonada que jurava ser a do próprio irmão. O caso veio a público em 19 de setembro de 2026.

A reportagem do G1 mostrou que golpistas usam inteligência artificial para clonar a voz de parentes e aplicar golpes em negociações de veículo. Márcio Antônio Fernandes da Silva, dono de uma oficina mecânica, contou que encontrou um carro anunciado por um valor parecido com o de mercado.

Segundo o G1, o suposto vendedor dizia estar em Ponta Porã, cidade onde Márcio nasceu e ainda tem família.

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Como a voz clonada do próprio irmão convenceu um empresário a fazer o pix de quase 28 mil reais

Segundo o G1, como morava em Campo Grande, Márcio passou o contato do próprio irmão para que ele fosse ver o carro pessoalmente. Foi a partir desse momento que os criminosos passaram a se fazer passar pelo parente, usando uma voz clonada que reproduzia o timbre dele com precisão.

Conversa de WhatsApp com os áudios de voz clonada enviados pelos golpistas durante a negociação do carro. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal via G1

“Entraram em contato comigo como se fosse o meu irmão, falando que já viu o carro, mandou vídeo e que estava tudo certo”, relatou Márcio. Acreditando que falava com o parente, ele fez o pix de quase 28 mil reais para pagar pelo veículo, e os golpistas bloquearam o contato logo em seguida.

“Mesmo atento e ciente dos golpes que circulam na sociedade, acabei acreditando porque entraram em contato como se fossem uma pessoa da minha família”, contou Márcio, ao descrever o momento em que percebeu o prejuízo.

A conversa que parecia real: o passo a passo do golpe que usa voz clonada por inteligência artificial

Conforme o G1, o golpe combina dados pessoais roubados das redes sociais com ferramentas de inteligência artificial capazes de clonar timbre e entonação a partir de poucos segundos de áudio. A tática mira o que costuma dar segurança à vítima, que é reconhecer a voz de alguém da família.

Explica a advogada Luiza Faccin Duarte, mestre em inteligência artificial e especialista em direito digital, que o alvo do golpista não é invadir a conta bancária da vítima, mas convencê-la a fazer a transferência com as próprias mãos.

“O criminoso não precisa invadir a conta bancária da vítima: ele manipula a própria pessoa para que ela faça a transferência”, afirma Luiza.

Antes de ligar, os golpistas juntam nomes de parentes, fotos, profissão e viagens publicadas nas redes sociais, explica a especialista. Depois, telefonam de um número novo, alegando ter trocado de aparelho, e usam a voz clonada para reforçar a farsa nos primeiros segundos de conversa.

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O segundo caso: a voz clonada de uma estudante quase enganou a própria mãe numa compra de carro

Relata o G1 que uma segunda vítima quase caiu no mesmo esquema. A estudante de medicina Isabela Cardoso, que mora em Campo Grande, teve a própria voz clonada enquanto a mãe, moradora de Dourados, negociava a compra de um HB20 na capital.

Segundo o G1, a mãe de Isabela recebeu mensagens, um áudio e um vídeo de uma suposta filha, avisando que já estava na oficina e que o mecânico de confiança da família tinha aprovado o carro. A suposta Isabela pedia que o pagamento fosse feito pelo pix, sem esperar o horário da avaliação já marcada.

A mãe, porém, resolveu confirmar a informação diretamente com a filha antes de pagar. Foi quando descobriu que Isabela não estava na oficina, e que a voz da suposta filha tinha sido gerada por inteligência artificial, mostra o G1.

Os sinais de alerta que ajudam a identificar uma ligação com voz clonada antes de fazer o pix

Os dois casos, apesar do desfecho diferente, compartilham as mesmas pistas. Segundo a especialista, oito sinais costumam aparecer juntos numa ligação com voz clonada, e nenhum deles depende de reconhecer o rosto ou a voz de quem está do outro lado da linha.

Resume a especialista que nenhum desses sinais garante, sozinho, um golpe em andamento. Juntos, porém, formam o roteiro que se repetiu nos dois casos registrados em Mato Grosso do Sul.

A palavra de segurança da família e as outras contramedidas indicadas pela especialista

A recomendação central da advogada é parar de tratar voz ou imagem como prova isolada de identidade. “Não precisamos de uma falsificação perfeita, precisamos de uma explicação emocionalmente plausível”, resume Luiza, ao descrever por que o golpe funciona mesmo quando a família desconfia.

Na leitura desta redação, as três medidas custam poucos minutos e bastariam para impedir os dois golpes de Mato Grosso do Sul, já que nenhuma das vítimas chegou a testar a palavra de segurança combinada em família.

O que é o Mecanismo Especial de Devolução e como ele tenta trazer o dinheiro de volta

Quando o pix já saiu da conta, a via oficial de recuperação chama-se Mecanismo Especial de Devolução, o MED. Segundo a Febraban, trata-se de “um recurso do Pix criado para facilitar as devoluções em caso de fraudes”, que aumenta as chances de reaver o dinheiro perdido em golpes como o de Mato Grosso do Sul.

Nota técnica da Febraban sobre o Mecanismo Especial de Devolução, com o trecho do prazo de 80 dias destacado em vermelho. Foto: Reprodução/Febraban

Ao acionar o mecanismo, a instituição bloqueia o saldo disponível na conta de quem recebeu o pix para analisar o caso e, se considerar a fraude comprovada, devolve o valor à vítima. A Febraban ressalva, porém, que essa devolução depende da existência de saldo na conta do golpista no momento do bloqueio.

Segundo o G1, foi esse o caminho seguido por Márcio. Orientado pela esposa, ele acionou o próprio banco pelo aplicativo e pediu a contestação da transferência pelo MED, no mesmo dia em que percebeu o golpe.

O prazo de 80 dias e o passo a passo para acionar o MED depois do pix

A Febraban detalha o roteiro que qualquer vítima pode seguir. “Ao perceber que foi vítima de um golpe, o cliente deve entrar em contato com seu banco, através do aplicativo ou pelos canais oficiais e acionar o MED”, orienta a entidade em nota técnica sobre o mecanismo.

O prazo não é imediato, mas também não é curto. Conforme a Febraban, a vítima pode reclamar em sua instituição em até 80 dias contados da data em que o pix foi feito, prazo que ajuda até quem só percebe o golpe semanas depois.

A entidade também trabalha numa versão ampliada do mecanismo, batizada de MED 2.0, que pretende bloquear valores em mais de uma conta pela qual o dinheiro passou, e não só na primeira. Segundo a Febraban, o desenvolvimento dessa etapa ocorreria entre 2024 e 2025, com implantação prevista para 2026.

O que fazer nas primeiras horas depois de cair no golpe

O tempo de reação pesa no resultado. Segundo o G1, Márcio contatou o banco horas depois de fazer o pix, registrou boletim de ocorrência e apresentou o documento no atendimento, num processo que consumiu quase três horas.

Comentários do público num vídeo sobre golpe do pix no YouTube, com os nomes borrados. Foto: Reprodução/YouTube

Ao fim desse processo, conforme o G1, ele conseguiu reaver cerca de 20% do valor perdido, uma fração dos quase 28 mil reais que tinha transferido. O resultado mostra como a devolução pelo MED depende de quanto sobrou na conta do golpista até o bloqueio.

Na leitura desta redação, preservar provas ajuda tanto quanto avisar o banco depressa. Prints das conversas, os áudios recebidos, o comprovante do pix e o protocolo de atendimento formam o conjunto que a vítima pode reunir enquanto aciona o MED, antes de o boletim de ocorrência sair.

O que diz o Ministério Público sobre o novo golpe de voz clonada

O promotor de Justiça Felipe Marques, do Centro de Pesquisa, Análise, Difusão e Segurança da Informação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, afirmou que o órgão ainda não tinha registrado casos idênticos com esse uso específico de clonagem de voz, o que reforça o quanto o método é recente.

Felipe reforçou a importância de registrar boletim de ocorrência mesmo quando a vítima percebe a fraude antes de perder dinheiro. “Você não caiu, mas outra pessoa pode cair. Através da sua informação, a polícia e o Ministério Público conseguem identificar padrões e rastrear os criminosos”, disse o promotor.

Felipe também citou outras fraudes que rodam pela mesma região: falsos advogados, golpistas que se passam por parentes no exterior e criminosos que usam nomes de facções para extorquir comerciantes locais.

O golpe da voz clonada, disse Felipe, é só a versão mais recente de um roteiro que muda de ferramenta, mas repete o mesmo alvo, a confiança dentro da família.

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golpe do pix


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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