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Um pequeno polvo azul viveu escondido a quase 1.800 metros de profundidade, só foi visto três vezes pela ciência e agora volta a Galápagos como a referência oficial de uma espécie que ninguém sabia que existia
Escrito por Roberta Souza
Publicado em 10/09/2026 às 18:54
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Do tamanho de uma bola de golfe e encontrado por acaso durante uma expedição em 2015, o Microeledone galapagensis passou anos sem identidade, viajou até um museu de Chicago para ser estudado e retorna ao arquipélago como holótipo de uma espécie endêmica que pesquisadores ainda mal conhecem
Durante anos, ele foi apenas um pequeno polvo azul encontrado nas profundezas do oceano. Não havia um nome científico para aquela criatura, ninguém sabia exatamente quantos outros indivíduos existiam e somente um exemplar havia sido recolhido fisicamente. Agora, mais de uma década depois de ser encontrado a quase 1.800 metros abaixo da superfície, o animal retornou às Ilhas Galápagos com uma identidade completamente diferente. Conforme reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 4 de setembro de 2026, o exemplar foi oficialmente classificado como Microeledone galapagensis e passou a ocupar uma posição especialmente importante para a ciência: é o holótipo, o indivíduo usado como referência para a descrição da nova espécie.
A raridade impressiona. Apenas três indivíduos dessa espécie foram observados até hoje, e somente aquele descoberto em 2015 acabou coletado. Os outros dois são conhecidos exclusivamente por registros em vídeo. Além disso, o animal mede aproximadamente o tamanho de uma bola de golfe e, quando vivo, apresentava uma intensa coloração azul que o destacava no ambiente escuro das profundezas.
Porém, a viagem de volta foi muito diferente daquela que o levou aos Estados Unidos. O polvo, já morto e preservado, retornou envolvido em gaze embebida em álcool, sem o azul intenso que surpreendeu os pesquisadores quando estava vivo. Agora, ficará definitivamente na Estação Científica Charles Darwin, junto a aproximadamente 140 mil exemplares de organismos preservados, enquanto cientistas tentam responder uma pergunta aparentemente simples, mas ainda impossível de responder: quantos desses pequenos polvos realmente existem nas profundezas de Galápagos?
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Paulo Nogueira
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Tudo começou em 2015 quando uma expedição desceu onde a luz praticamente desaparece e encontrou uma criatura azul que ninguém estava procurando
A história do Microeledone galapagensis começou muito antes de ele receber esse nome.
Em 2015, uma expedição de exploração do fundo do mar navegava ao norte da Ilha Darwin, no arquipélago de Galápagos.
O trabalho era realizado a bordo do E/V Nautilus, com auxílio de um veículo operado remotamente capaz de explorar regiões onde seres humanos não poderiam simplesmente mergulhar.
Foi então que, entre centenas de organismos coletados, apareceu algo diferente.
Um minúsculo polvo azul.
Segundo a Fundação Charles Darwin, o animal estava a aproximadamente 1.770 metros de profundidade.
Isso significa viver numa região permanentemente escura, submetida a enorme pressão e completamente diferente do ambiente marinho que normalmente enxergamos próximo à superfície.
Naquele momento, entretanto, ninguém sabia que o pequeno animal representava uma espécie desconhecida pela ciência.
Ele era apenas mais um exemplar entre centenas coletados durante a expedição.
Foi somente depois, quando pesquisadores voltaram às imagens registradas pelo veículo submarino, que aquele corpo azul começou a chamar atenção.
O animal era menor que a palma de uma mão, mas sua cor chamou atenção justamente em um lugar onde quase tudo deveria ajudá-lo a desaparecer
O tamanho torna a descoberta ainda mais curiosa.
O polvo mede aproximadamente o tamanho de uma bola de golfe.
Além disso, possui braços relativamente curtos.
Porém, aquilo que realmente chamou atenção foi a cor.
Azul intenso.
O azul é relativamente raro entre organismos vivos, e a aparência do animal se destacava contra o fundo arenoso observado durante as explorações. A National Geographic relata que justamente essa coloração chamou a atenção dos pesquisadores ao revisarem as imagens do fundo do mar.
E existe algo ainda mais interessante.
A cor não parece ser simplesmente decorativa.
Pesquisadores investigam como características desse tipo podem ajudar organismos de águas profundas a lidar com as condições particulares de iluminação existentes em seu ambiente.
Isso é importante porque, a quase 1.800 metros de profundidade, o mundo visual funciona de maneira completamente diferente daquele existente próximo à superfície.
A luz solar praticamente não participa da paisagem.
Consequentemente, cores, bioluminescência e capacidade de detectar pequenos sinais luminosos podem ter funções muito diferentes.
A natureza está cheia dessas adaptações inesperadas. Alguns animais chegaram a desenvolver formas de descansar sem desligar completamente o cérebro, mostrando como ambientes extremos conseguem produzir soluções biológicas que parecem estranhas quando vistas sob uma perspectiva humana.
Durante anos ninguém percebeu que aquele pequeno animal guardado pelos pesquisadores era, na verdade, a peça central de uma espécie nova
A descoberta física aconteceu em 2015.
A identificação formal demorou muito mais.
Isso porque encontrar um organismo diferente não significa automaticamente declarar uma nova espécie.
Pesquisadores precisam analisar características anatômicas, comparar o exemplar com espécies conhecidas, consultar coleções científicas e verificar se aquelas diferenças realmente justificam uma nova classificação.
No caso do pequeno polvo, esse trabalho acabaria levando o exemplar para longe de Galápagos.
Em 2022, o animal foi enviado ao Field Museum of Natural History, em Chicago, nos Estados Unidos.
Ali, passou por análises especializadas.
Finalmente, recebeu seu nome científico.
Microeledone galapagensis.
O segundo termo carrega justamente a ligação com o lugar onde foi encontrado.
E os estudos trouxeram outra informação particularmente importante.
A espécie é endêmica de Galápagos.
Até onde se sabe atualmente, portanto, aquele pequeno polvo azul pertence a uma espécie que existe naturalmente apenas naquela região.
A ciência encontrou três deles em mais de uma década, mas conseguiu colocar as mãos em apenas um
Aqui aparece talvez o número mais impressionante de toda a história.
Três.
Esse é o total de exemplares observados até agora.
Entretanto, existe uma diferença fundamental entre eles.
Somente o animal encontrado em 2015 foi coletado fisicamente.
Os outros dois foram registrados apenas em vídeo.
Isso significa que praticamente todo o conhecimento anatômico detalhado da espécie depende de um único exemplar preservado.
É uma amostra extremamente pequena.
Por isso, pesquisadores ainda não conseguem responder muitas questões básicas.
Qual é o tamanho total da população?
Em que regiões das profundezas ela vive?
O animal está restrito às proximidades da Ilha Darwin?
Como se reproduz?
Do que se alimenta?
Quanto tempo vive?
Existem diferenças importantes entre machos e fêmeas?
Qual é exatamente a função de sua coloração?
A própria equipe científica reconhece o tamanho dessa lacuna.
Paulina Sepa, responsável pelas coleções marinhas da Estação Científica Charles Darwin, resumiu a situação dizendo que ainda existem “um milhão de perguntas” sobre a espécie.
Depois de viajar milhares de quilômetros até Chicago, o polvo retornou para casa completamente diferente de quando saiu
Existe uma transformação visual curiosiosa nessa viagem.
Quando estava vivo, o animal chamava atenção pelo azul intenso dos tentáculos.
Agora, quem olha para o exemplar preservado encontra outra coisa.
O corpo está opaco.
A cabeça ficou pálida.
E aquela coloração que tornou o animal tão reconhecível praticamente desapareceu durante o processo de preservação.
Na volta a Galápagos, pesquisadores precisaram manipulá-lo com extremo cuidado.
O espécime chegou envolvido em gaze embebida em álcool.
Não parece mais o pequeno animal azul filmado caminhando sobre o fundo do oceano.
Entretanto, cientificamente, ele voltou muito mais importante do que saiu.
Quando deixou o arquipélago, ainda era um organismo misterioso aguardando classificação.
Quando retornou, carregava um nome científico e uma pequena etiqueta vermelha que muda completamente seu significado dentro de uma coleção científica.
Uma pequena etiqueta vermelha transforma aquele animal no exemplar que pesquisadores do mundo inteiro poderão consultar para saber exatamente o que é essa espécie
O termo usado para essa função é holótipo.
Quando pesquisadores descrevem formalmente uma nova espécie, um exemplar específico é designado como referência.
É ele que estabelece fisicamente aquilo que os cientistas quiseram dizer quando deram determinado nome ao organismo.
No caso do Microeledone galapagensis, o pequeno polvo coletado em 2015 é essa referência.
Isso significa que, no futuro, caso pesquisadores encontrem outro animal semelhante e precisem descobrir se pertence à mesma espécie, poderão comparar suas características com aquelas do holótipo.
Por isso, conservar esse único indivíduo possui enorme importância.
O animal deixou de ser apenas uma curiosidade encontrada no fundo do oceano.
Ele virou uma espécie de documento biológico permanente.
Só que, em vez de informações escritas numa folha, o documento é o próprio organismo.
O polvo agora divide espaço com 140 mil organismos preservados, mas talvez seja justamente um dos que menos conhecemos
O novo endereço do animal será a Estação Científica Charles Darwin, em Galápagos.
A instituição mantém uma coleção impressionante.
São aproximadamente 140 mil exemplares de organismos marinhos, vertebrados, invertebrados terrestres e plantas.
Essas coleções podem parecer apenas enormes arquivos de animais e plantas preservados.
Na prática, entretanto, funcionam como bibliotecas biológicas.
Um organismo coletado décadas atrás pode ser analisado novamente quando surge uma nova tecnologia.
DNA pode revelar relações evolutivas que não eram conhecidas.
Características microscópicas podem ser reavaliadas.
Comparações com novos exemplares podem alterar classificações.
E mudanças ambientais podem ser estudadas comparando organismos coletados em diferentes épocas.
Esse tipo de investigação também tem revelado fenômenos completamente inesperados no oceano. Pesquisadores chegaram a encontrar o chamado “oxigênio negro” no fundo do mar, levantando novas perguntas sobre processos que ocorrem longe da luz solar.
No caso do polvo azul, existe ainda uma vantagem adicional.
O exemplar permanece justamente na região à qual pertence.
A quase 1.800 metros abaixo da superfície ainda existe um mundo de animais que podem estar passando diante das câmeras sem sequer terem recebido um nome
Miguel Pinto, curador principal das coleções de História Natural da Estação Científica Charles Darwin, defende que serão necessárias mais explorações nas profundezas de Galápagos para encontrar outros indivíduos e compreender melhor a espécie.
Essa observação revela algo maior do que a história de um único polvo.
Apesar de séculos de exploração científica, as grandes profundidades oceânicas continuam extremamente pouco conhecidas.
E existe uma dificuldade óbvia.
Explorar quase dois quilômetros abaixo da superfície não é equivalente a realizar uma pesquisa numa praia.
É necessário utilizar embarcações especializadas.
Veículos submarinos.
Câmeras.
Sistemas de coleta.
Equipamentos capazes de resistir à pressão.
Equipes multidisciplinares.
E muitas horas de operação.
Mesmo depois de todo esse esforço, um pequeno organismo pode aparecer diante da câmera durante poucos segundos e desaparecer novamente.
Foi exatamente isso que aconteceu com dois dos três polvos conhecidos.
Eles existem cientificamente como imagens registradas no fundo do oceano, mas nunca foram coletados.
A descoberta acontece em Galápagos, onde isolamento criou animais únicos e transforma cada espécie endêmica perdida em algo impossível de substituir
Galápagos está localizada aproximadamente 1.000 quilômetros da costa continental do Equador.
Esse isolamento ajudou a criar um dos ecossistemas mais extraordinários do planeta.
Ao longo de enormes períodos, populações ficaram separadas de parentes existentes em outras regiões.
Assim, surgiram linhagens particulares.
O arquipélago se tornou mundialmente famoso por sua biodiversidade e pelo papel histórico que suas espécies tiveram nas observações de Charles Darwin.
Hoje, Galápagos é reconhecida como Reserva da Biosfera e Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco.
O Microeledone galapagensis acrescenta mais uma espécie à lista de organismos endêmicos do arquipélago.
Entretanto, existe uma diferença importante.
Enquanto tartarugas gigantes, iguanas e aves podem ser observadas em terra, esse polvo vive num ambiente que praticamente nenhum ser humano verá diretamente.
Seu mundo começa centenas de metros abaixo de onde turistas e pesquisadores normalmente enxergam Galápagos.
Ser endêmico também significa que, se algo acontecer com sua população em Galápagos, talvez não exista outra escondida em algum oceano distante
Essa característica aumenta a importância de compreender a distribuição do animal.
Uma espécie endêmica possui uma área natural restrita.
No caso do pequeno polvo azul, os pesquisadores precisam de muito mais dados antes de compreender completamente seu alcance geográfico e seu estado de conservação.
Portanto, não seria correto afirmar que a espécie está ameaçada de extinção apenas porque poucos indivíduos foram observados.
Poucas observações podem simplesmente refletir a enorme dificuldade de explorar seu habitat.
Esse cuidado é fundamental.
Três animais observados não significam necessariamente que existam apenas três animais vivos.
Significa apenas que a ciência conseguiu registrar três até agora.
O fundo do oceano pode esconder muitos outros.
Ou pode esconder pouquíssimos.
Ainda não sabemos.
Situações como essa mostram por que classificações ambientais precisam ser construídas com evidências. Até espécies extremamente comuns podem provocar debates complexos quando são deslocadas de seu ambiente original, como aconteceu quando a tilápia entrou no centro de uma discussão sobre espécies invasoras e impactos ambientais.
Para o polvo azul, a prioridade agora é justamente obter informação suficiente para entender sua situação.
Ele perdeu o azul que chamou atenção dos cientistas, mas voltou carregando algo que não tinha quando foi retirado do fundo do mar
Existe uma ironia bonita na trajetória desse animal.
Em 2015, o pequeno polvo foi retirado das profundezas sem que ninguém soubesse exatamente o que ele era.
Depois, passou anos sendo estudado.
Em 2022, viajou para Chicago.
Lá, pesquisadores conseguiram classificá-lo.
Recebeu o nome Microeledone galapagensis.
Foi reconhecido como uma espécie própria e endêmica de Galápagos.
E então voltou para casa.
Fisicamente, voltou menos impressionante.
O azul desapareceu.
O corpo ficou opaco.
A cabeça ficou pálida.
Mas, cientificamente, retornou muito mais valioso.
Agora existe uma espécie formalmente descrita.
Existe um holótipo.
Existe um ponto de referência para futuras descobertas.
E existe uma enorme quantidade de perguntas esperando novos mergulhos.
Talvez centenas desses animais estejam escondidos nas profundezas.
Ninguém sabe.
Por enquanto, a ciência possui um único exemplar físico, dois outros indivíduos vistos somente em vídeo e quase 1.800 metros de oceano escuro onde as respostas continuam escondidas.
E você, o que acha mais impressionante nessa história — um animal do tamanho de uma bola de golfe permanecer desconhecido pela ciência até poucos anos atrás ou o fato de termos observado apenas três indivíduos de toda a espécie até hoje?
Fonte
Folha de S.Paulo
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Roberta Souza.

