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Uma caverna escondida no sudoeste da China preservou até 120 mil anos de vestígios dos denisovanos e agora revela como esses humanos antigos caçavam e sobreviviam

Uma caverna escondida no sudoeste da China preservou até 120 mil anos de vestígios dos denisovanos e agora revela como esses humanos antigos caçavam e sobreviviam

11 min de leitura

Uma caverna escondida no sudoeste da China preservou até 120 mil anos de vestígios dos denisovanos e agora revela como esses humanos antigos caçavam e sobreviviam

Escrito por Roberta Souza

Publicado em 14/09/2026 às 18:09

Atualizado em 14/09/2026 às 18:10

Curiosidades

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Escavações na Caverna de Bianfu, em Yunnan, revelaram cinco fósseis humanos, quase 1.400 artefatos de pedra e mais de 64 mil ossos de animais. Proteínas antigas confirmaram restos denisovanos, incluindo o primeiro osso do antebraço já identificado desse grupo humano extinto

Durante muito tempo, os denisovanos foram quase “humanos fantasmas” para a ciência. Sabíamos que existiram principalmente porque fragmentos minúsculos encontrados na Sibéria preservaram seu DNA, mas havia tão poucos fósseis que reconstruir sua aparência, seus hábitos e a extensão dos territórios que ocuparam permanecia extremamente difícil. Agora, uma caverna no sudoeste da China está começando a mudar esse cenário. Segundo reportagem publicada pelo Live Science, pesquisas divulgadas na revista científica Nature revelaram que denisovanos ocuparam repetidamente a região da Caverna de Bianfu, na província de Yunnan, entre aproximadamente 190 mil e 70 mil anos atrás.

O conjunto encontrado é excepcional: cinco fósseis humanos, quase 1.400 artefatos de pedra e mais de 64 mil restos de animais foram recuperados no sítio. Análises de proteínas antigas permitiram confirmar restos denisovanos, entre eles dentes, fragmentos cranianos e o primeiro rádio — um dos ossos do antebraço — já identificado dessa população humana extinta.

Além disso, os vestígios permitem enxergar algo muito mais difícil de reconstruir do que simplesmente sua anatomia. Os denisovanos de Bianfu caçavam animais de médio e grande porte, utilizavam ferramentas de pedra e também transformavam ossos em instrumentos, sobrevivendo em um ambiente florestal durante um período extraordinariamente longo. A descoberta oferece um dos registros culturais mais extensos já associados aos denisovanos.

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Durante anos a ciência conheceu esses humanos antigos principalmente por um pequeno osso de dedo encontrado na Sibéria, mas a caverna chinesa finalmente começa a mostrar como eles realmente viviam

A história dos denisovanos é incomum até para a paleoantropologia.

Eles não foram descobertos inicialmente a partir de um esqueleto quase completo.

Nem de um crânio facilmente reconhecível.

A existência dessa população humana antiga foi identificada em 2010 principalmente graças ao DNA extraído de um pequeno fragmento de osso de dedo encontrado na Caverna de Denisova, na Sibéria.

A genética revelou algo extraordinário.

Aquele indivíduo não era Homo sapiens.

Também não era neandertal.

Pertencia a outra linhagem humana, intimamente relacionada aos neandertais, que passou a ser conhecida como denisovana.

Desde então, surgiram outros fósseis atribuídos aos denisovanos.

Uma mandíbula na Caverna de Baishiya, no planalto tibetano.

Outra mandíbula proveniente do estreito de Taiwan.

E, mais recentemente, evidências moleculares associaram o famoso crânio de Harbin, conhecido popularmente como “Homem Dragão”, aos denisovanos.

Ainda assim, o quebra-cabeça continuava cheio de espaços vazios.

Bianfu acrescenta agora várias peças de uma só vez.

Uma antiga pedreira expôs os sedimentos da caverna e pesquisadores perceberam que estavam diante de um arquivo arqueológico que atravessava mais de 100 mil anos

A Caverna de Bianfu fica na província de Yunnan, no sudoeste da China.

O local acabou exposto em uma antiga área de mineração.

Escavações arqueológicas começaram em 2019 e revelaram sucessivas camadas de sedimentos contendo vestígios deixados por antigos humanos.

Os pesquisadores então começaram a estabelecer quando aquelas camadas haviam se formado.

O resultado revelou uma cronologia impressionante.

Imagem Ilustrativa

O registro arqueológico se estende aproximadamente de 190 mil a 70 mil anos atrás.

Isso não significa necessariamente que uma única comunidade permaneceu ininterruptamente dentro da caverna durante 120 mil anos.

O que as evidências indicam é uma ocupação repetida ao longo desse enorme intervalo temporal.

Ainda assim, poucos lugares oferecem uma janela tão extensa para acompanhar o comportamento de populações humanas antigas.

Para colocar a escala em perspectiva, 120 mil anos equivalem a 1.200 séculos.

Civilizações inteiras surgiram e desapareceram em uma pequena fração desse tempo.

E os sedimentos de Bianfu preservaram vestígios de atividades humanas atravessando praticamente toda essa enorme janela.

No meio de mais de 60 mil fragmentos de ossos, cientistas procuraram sinais humanos que seriam praticamente impossíveis de reconhecer apenas olhando e recorreram às proteínas para encontrá-los

Um dos maiores desafios era descobrir quais ossos pertenciam aos denisovanos.

Visualmente, milhares de fragmentos eram difíceis ou impossíveis de identificar.

Por isso, pesquisadores utilizaram uma técnica chamada ZooMS, baseada nas diferenças existentes nas proteínas de colágeno de diferentes espécies.

Funcionou como uma espécie de triagem molecular.

Os cientistas examinaram dezenas de milhares de fragmentos.

Depois, análises proteômicas mais detalhadas permitiram atribuir fósseis humanos aos denisovanos.

Ao todo, cinco restos foram identificados molecularmente como denisovanos.

Entre eles estavam dentes e ossos.

E um fragmento chamou atenção especial.

Um pequeno pedaço do braço resolveu uma lacuna curiosa porque, depois de mais de uma década estudando denisovanos, ninguém havia identificado com segurança esse osso em nenhum indivíduo

O fóssil é um rádio.

Trata-se de um dos dois grandes ossos que formam o antebraço humano.

Pode parecer uma descoberta modesta.

Entretanto, para uma população conhecida por tão poucos restos físicos, cada parte inédita do esqueleto tem enorme valor.

Esse é o primeiro rádio denisovano identificado até hoje.

Os fósseis humanos analisados foram datados de aproximadamente 167 mil a 134 mil anos atrás.

Assim, cientistas começam lentamente a montar um corpo que permaneceu quase invisível durante anos.

Dentes ajudam a compreender sua anatomia dentária.

Mandíbulas revelam características faciais.

Crânios ampliam as possibilidades de reconstrução.

E agora existe também uma nova parte do braço.

A cada descoberta, aqueles humanos conhecidos inicialmente quase exclusivamente por sequências genéticas começam a adquirir uma forma física mais concreta.

Quase 1.400 ferramentas de pedra mostram que eles sabiam exatamente quais materiais encontrar perto da caverna e como transformá-los em instrumentos para sobreviver

Os fósseis contam quem estava ali.

As ferramentas ajudam a revelar o que faziam.

Pesquisadores recuperaram aproximadamente 1.400 artefatos de pedra no sítio.

A tecnologia encontrada em Bianfu não parece extraordinariamente sofisticada quando comparada a alguns conjuntos associados aos neandertais e a outros humanos do Pleistoceno.

Porém, isso não significa que fosse inútil.

Muito pelo contrário.

Os denisovanos aproveitavam matérias-primas disponíveis localmente e produziam instrumentos adequados às necessidades do cotidiano.

E existe uma curiosidade ainda maior.

Ao longo daquele enorme intervalo de ocupação, as ferramentas de pedra permaneceram relativamente simples, sem uma transformação tecnológica radical aparente.

Isso levanta uma questão fascinante.

Como uma população humana conseguiu sobreviver durante dezenas de milhares de anos sem apresentar no registro local uma sucessão evidente de tecnologias cada vez mais complexas?

Talvez a resposta seja simplesmente eficiência.

Se aquilo funcionava naquele ambiente, não havia necessariamente pressão para substituí-lo.

Mais de 64 mil ossos de animais transformaram o chão da caverna em um registro do cardápio e revelaram que esses humanos não dependiam apenas de pequenas presas

Ao redor das ferramentas havia outra quantidade extraordinária de evidências.

Mais de 64 mil restos de animais.

Esses ossos permitiram reconstruir parte do ambiente e das estratégias de subsistência.

A região era florestada.

E os denisovanos exploravam diferentes animais disponíveis naquele ecossistema.

As evidências indicam o processamento de animais de médio e grande porte, incluindo cervos e bovídeos.

Marcas presentes nos ossos ajudam pesquisadores a diferenciar aquilo que foi simplesmente acumulado naturalmente do material manipulado por humanos.

Assim, o cenário começa a ganhar vida.

Grupos chegavam à região.

Caçavam.

Levavam partes das presas.

Cortavam carne.

Quebravam ossos.

Utilizavam ferramentas.

E repetiam atividades semelhantes geração após geração.

É exatamente esse tipo de vestígio que permite transformar pequenos fragmentos encontrados no solo em pistas sobre acontecimentos ocorridos milhares de anos antes.

Alguns ossos não terminaram apenas como restos de alimento porque os denisovanos os transformaram deliberadamente em ferramentas, aproximando seu comportamento daquele observado entre neandertais

Entre milhares de restos animais, pesquisadores encontraram peças ainda mais reveladoras.

Ferramentas feitas de osso.

Algumas apresentam modificações deliberadas incompatíveis com simples marcas produzidas durante o consumo da carne.

Ou seja, determinados ossos foram escolhidos e trabalhados para funcionar como instrumentos.

Isso é importante porque amplia nossa visão do comportamento denisovano.

Durante muito tempo, havia tão pouco material arqueológico diretamente associado a eles que era difícil comparar suas capacidades tecnológicas com as de outras populações humanas antigas.

Agora aparecem paralelos interessantes.

Algumas ferramentas ósseas de Bianfu lembram objetos encontrados em contextos associados aos neandertais na Eurásia ocidental.

Denisovanos e neandertais eram grupos geneticamente próximos.

Sabemos inclusive que houve cruzamentos entre diferentes populações humanas antigas.

Agora, Bianfu oferece outra dimensão para a comparação.

Não apenas genética.

Mas comportamental.

O mais intrigante é que esses humanos não viveram somente em uma região porque evidências denisovanas já apareceram da Sibéria ao planalto tibetano e agora alcançam o sudoeste da China

Talvez uma das grandes mudanças provocadas pelas descobertas recentes seja geográfica.

Durante os primeiros anos depois da identificação dos denisovanos, quase tudo girava em torno da Caverna de Denisova, na Sibéria.

Parecia possível imaginar uma população relativamente localizada.

Hoje, essa visão ficou difícil de sustentar.

Restos molecularmente associados aos denisovanos apareceram no planalto tibetano, no nordeste da China, no estreito de Taiwan e agora no sudoeste chinês.

As distâncias são enormes.

E os ambientes também.

Frio siberiano.

Altitudes extremas do Tibete.

Regiões temperadas.

Ambientes florestais no sudoeste chinês.

Isso sugere uma população — ou diferentes populações relacionadas — capaz de ocupar uma variedade extraordinária de ambientes asiáticos.

A Caverna de Bianfu preenche justamente uma lacuna importante nessa distribuição.

E ajuda a aproximar os fósseis de outro indício que já estava diante dos geneticistas havia anos.

Os denisovanos desapareceram como população distinta, mas parte deles continua literalmente dentro de milhões de pessoas vivas atualmente

Os denisovanos não desapareceram completamente.

Pelo menos não geneticamente.

Isso porque diferentes populações humanas antigas se cruzaram.

Denisovanos tiveram filhos com ancestrais de humanos modernos.

E parte daquele DNA chegou ao presente.

Populações atuais da Oceania e de partes da Ásia carregam ancestralidade denisovana, evidência que já indicava uma presença significativa desses humanos em regiões muito além da Sibéria.

Esse fato tornava o sudoeste da China particularmente interessante.

Se ancestrais de populações do Sudeste Asiático e da Oceania tiveram contato com denisovanos, fazia sentido procurar vestígios em possíveis corredores geográficos entre diferentes regiões da Ásia.

Bianfu agora fornece evidências físicas importantes nessa direção.

E isso significa que aqueles cinco pequenos fósseis podem ajudar a conectar dois tipos de evidência.

Os mortos encontrados nas cavernas.

E o DNA preservado nas pessoas vivas.

A capacidade de novas técnicas científicas revelarem informações antes invisíveis também aparece em descobertas que só se tornam possíveis quando pesquisadores conseguem analisar materiais antigos de maneiras completamente novas.

A descoberta também mostra por que chamar os denisovanos simplesmente de “homens das cavernas” esconde uma história muito mais complexa de adaptação

Bianfu oferece um retrato específico.

Mas não necessariamente um modelo para todos os denisovanos.

Esse cuidado é importante.

Em outros locais, as condições ambientais eram radicalmente diferentes.

Na Caverna de Baishiya, no planalto tibetano, por exemplo, populações denisovanas enfrentaram grandes altitudes e condições muito mais severas.

Suas estratégias de subsistência também parecem ter variado.

Isso sugere algo importante.

Não existia necessariamente uma única “cultura denisovana” repetida de maneira idêntica em todo o continente.

Grupos diferentes provavelmente se adaptavam aos ambientes disponíveis.

Assim como populações de Homo sapiens podem desenvolver modos de vida profundamente diferentes, os denisovanos também não precisam ter formado um bloco cultural homogêneo.

Essa diversidade talvez ajude a explicar como conseguiram ocupar uma área tão grande.

Depois de 120 mil anos de vestígios, permanece um enigma curioso porque suas ferramentas parecem ter mudado muito menos do que poderíamos esperar durante um intervalo tão gigantesco

Existe uma tentação moderna de imaginar evolução tecnológica como uma escada.

Uma ferramenta simples.

Depois uma melhor.

Depois outra mais sofisticada.

Até chegarmos à tecnologia atual.

O registro arqueológico não funciona necessariamente assim.

Em Bianfu, os artefatos de pedra apresentam relativa continuidade tecnológica ao longo de um período extremamente longo.

Isso não significa que os denisovanos fossem incapazes de inovação.

Outros sítios asiáticos contemporâneos possuem tecnologias diferentes, e ainda não sabemos com certeza quem produziu todos esses conjuntos.

Além disso, inovação pode ocorrer em materiais que raramente sobrevivem dezenas de milhares de anos.

Madeira.

Fibras.

Peles.

Cordas.

Grande parte da cultura material de populações antigas simplesmente desaparece.

Portanto, arqueólogos trabalham com aquilo que conseguiu sobreviver.

Pedras.

Dentes.

Ossos.

E proteínas.

Às vezes, uma descoberta extraordinária começa justamente com algo pequeno que permaneceu escondido durante um período quase impossível de imaginar.

Cinco fósseis parecem pouco diante de milhares de ferramentas e dezenas de milhares de ossos, mas para uma linhagem humana conhecida durante anos quase apenas pelo DNA eles representam uma descoberta excepcional

Esse contraste ajuda a entender a importância da pesquisa.

Cinco fósseis humanos.

Pode parecer pouco.

Mas denisovanos estão entre nossos parentes evolutivos mais difíceis de encontrar fisicamente.

Em comparação, existem milhares de fósseis associados aos neandertais, enquanto o registro denisovano permaneceu extraordinariamente escasso.

Por isso, cada fragmento importa.

E a tecnologia está mudando a maneira como esses fragmentos são encontrados.

Antes, um pequeno pedaço de osso sem características anatômicas evidentes poderia permanecer catalogado simplesmente como indeterminado.

Agora, proteínas preservadas dentro dele podem revelar sua origem.

Foi dessa maneira que pesquisadores conseguiram vasculhar um enorme conjunto de restos de Bianfu procurando aqueles poucos fragmentos humanos.

Em outras palavras, os fósseis podem já estar em coleções arqueológicas sem que saibamos exatamente a quem pertencem.

A técnica abre a possibilidade de novas identificações em outros sítios.

A caverna chinesa não resolveu o mistério dos denisovanos, mas transformou uma população conhecida por fragmentos dispersos em caçadores que agora podemos imaginar entrando e saindo da floresta há mais de 100 mil anos

Ainda existem perguntas enormes.

Como exatamente eram seus rostos?

Quantas populações denisovanas diferentes existiram?

Até onde chegaram?

Quando desapareceram como grupos distintos?

Como interagiram com Homo sapiens?

E quais tecnologias desenvolveram que nunca chegaram ao registro arqueológico?

Bianfu não responde tudo.

Mas muda bastante aquilo que conseguimos enxergar.

Entre aproximadamente 190 mil e 70 mil anos atrás, humanos antigos ocuparam repetidamente aquela região do sudoeste chinês.

Eles fabricaram ferramentas.

Caçaram animais grandes.

Processaram carcaças.

Trabalharam ossos.

Sobreviveram em florestas.

Deixaram dentes.

Fragmentos do crânio.

E um pedaço de antebraço que atravessou mais de 100 mil anos até finalmente revelar sua identidade através das proteínas.

O mais extraordinário talvez seja justamente isso.

Durante muito tempo, conhecemos os denisovanos quase como uma sequência de DNA sem rosto.

Agora, cada nova caverna está devolvendo pequenas partes de sua anatomia e de sua vida.

E Bianfu oferece algo particularmente raro: não apenas restos de quem eles eram, mas vestígios suficientes para começar a reconstruir como esses parentes humanos viveram durante dezenas de milhares de anos antes de desaparecerem como população distinta.

E você, o que considera mais impressionante nessa descoberta — os denisovanos terem ocupado repetidamente a mesma região por mais de 100 mil anos ou cientistas conseguirem identificar hoje um pequeno osso humano tão antigo apenas pelas proteínas que sobreviveram dentro dele?

Fonte

Live Science


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Roberta Souza.

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