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Uma professora da Universidade de Illinois juntou 18 ensaios clínicos randomizados sobre atenção plena, gratidão e otimismo, encontrou queda de 7,6 pontos na pressão sistólica num programa de 12 semanas e aumento de 1.800 passos por dia em outro, e chegou à dose que faz o efeito aparecer

Uma professora da Universidade de Illinois juntou 18 ensaios clínicos randomizados sobre atenção plena, gratidão e otimismo, encontrou queda de 7,6 pontos na pressão sistólica num programa de 12 semanas e aumento de 1.800 passos por dia em outro, e chegou à dose que faz o efeito aparecer

6 min de leitura

Uma professora da Universidade de Illinois juntou 18 ensaios clínicos randomizados sobre atenção plena, gratidão e otimismo, encontrou queda de 7,6 pontos na pressão sistólica num programa de 12 semanas e aumento de 1.800 passos por dia em outro, e chegou à dose que faz o efeito aparecer

Escrito por Jefferson Augusto

Publicado em 05/09/2026 às 10:18

Atualizado em 05/09/2026 às 10:21

Ciência e Tecnologia

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Pessoa aferindo a pressão arterial com aparelho digital de braçadeira em casa. Imagem ilustrativa gerada por IA.

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O achado não é que faz bem. É quanto, com que frequência e por quantas semanas.

Todo mundo já ouviu que meditar faz bem ao coração. O que quase nunca aparece é a parte que interessa a quem vai tentar: quanto tempo por dia, quantas vezes por semana e durante quantas semanas até alguma coisa mudar no aparelho de pressão.

Uma revisão conduzida por Rosalba Hernandez, professora de serviço social da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, foi atrás exatamente disso. Ela reuniu 18 ensaios clínicos randomizados que testaram práticas de psicologia positiva e atenção plena e mediram efeito em marcadores físicos do coração, segundo o material divulgado pela universidade.

O que entrou na conta

Os estudos analisados tinham entre 50 e 200 adultos cada, e quase todos os participantes já carregavam risco cardiovascular elevado, com hipertensão descontrolada, insuficiência cardíaca ou outras condições, conforme o resumo do trabalho.

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A idade média ficava entre o fim dos cinquenta e os meados dos sessenta anos. Ou seja, não é gente jovem e saudável testando bem-estar: é gente que já estava sob acompanhamento por causa do coração. Fatores que não aparecem no exame de sangue já foram associados a esse mesmo grupo de doenças, como no caso já noticiado do estudo com 42 mil pessoas que ligou o isolamento social a doença cardíaca, diabetes e AVC.

Programas de seis a doze semanas

A maioria dos programas durava entre 6 e 12 semanas e combinava sessão semanal com tarefas feitas em casa, de acordo com a mesma revisão. O formato variava bastante de um estudo para outro.

Houve sessão estruturada por telefone, diário escrito acompanhado de conversas curtas, aplicativo, mensagem de texto, encontro presencial em grupo e modelos híbridos, que misturavam atividade presencial com ferramentas on-line.

Sete pontos e seis décimos

O maior efeito medido veio de uma intervenção digital de base espiritual, de 12 semanas. Ela baixou a pressão sistólica medida no manguito em 7,6 pontos e a pressão sistólica central em 4,1 pontos, segundo a pesquisadora.

Vale explicar a diferença entre as duas medidas, porque é aí que mora o interesse. A do manguito é a que qualquer farmácia tira. A central é medida na aorta, logo na saída do coração, e é a que descreve melhor a carga que o órgão realmente aguenta.

Mil e oitocentos passos a mais

Outro programa, que usava entrevista motivacional, aumentou a atividade física de pacientes cardíacos em 1.800 passos por dia e ainda melhorou a adesão ao remédio prescrito, conforme o levantamento.

Esse detalhe separa as abordagens. Os programas de atenção plena melhoraram atividade física e alimentação, mas não produziram o mesmo ganho de adesão ao medicamento. São efeitos diferentes, e não vale trocar um pelo outro.

A parte que muda tudo é a frequência

A revisão mostrou que os programas com contato mais frequente entre participante e equipe foram os que produziram benefício fisiológico mais confiável, segundo a autora. Não é o conteúdo que decide, é a cadência.

É por isso que a mesma prática rende resultados diferentes dependendo de como é entregue. Fazer sozinho e sem lembrete não é a mesma coisa que fazer sozinho com alguém cobrando toda semana.

A dose terapêutica, nas palavras dela

A formulação que a pesquisadora usa é a de dose terapêutica, emprestada da farmacologia. Segundo ela, o que aparece associado de forma mais consistente a melhora de pressão, inflamação e função do endotélio é prática diária reforçada por sessão semanal, ao longo de 8 a 12 semanas.

E há uma segunda metade nessa receita: depois desse período intensivo, é preciso manter contato menos frequente para sustentar a mudança de comportamento. Sem isso, o efeito tende a se perder, e é aí que a maioria dos programas fracassa.

O programa mais eficaz rodava no WhatsApp

As mudanças de comportamento mais fortes vieram de um programa de oito semanas conduzido por aplicativo de mensagens, que juntava sessão semanal com microtarefas diárias, conforme o estudo.

Os participantes eram estimulados a se movimentar mais, melhorar a alimentação e tomar o remédio na hora certa. É o oposto do retiro de silêncio: são cutucadas curtas, todos os dias, dentro do aparelho que a pessoa já usa.

Por que inflamação entra na conversa

Além da pressão, os programas de atenção plena de oito semanas em pacientes hipertensos e pós-síndrome coronariana reduziram marcadores inflamatórios como a proteína C reativa de alta sensibilidade e o fibrinogênio, segundo a pesquisadora.

Esses dois marcadores não são detalhe de laboratório. Eles acompanham o processo que endurece e estreita artéria ao longo dos anos, e é por isso que aparecem em exame de rotina de quem já tem risco cardiovascular.

Gratidão não é papo motivacional aqui

O que os estudos chamam de intervenção de psicologia positiva costuma ser bem concreto: anotar coisas pelas quais se é grato, treinar leitura otimista de situações e praticar atenção à respiração em horário fixo.

A tarefa é banal de propósito, porque precisa caber num dia comum. O efeito sobre o cérebro dessas práticas repetidas já apareceu em outras frentes, como no caso já noticiado de que a gratidão pode reorganizar caminhos de sinalização entre neurônios.

Quem assina o trabalho

Rosalba Hernandez é professora de serviço social e fellow da American Heart Association. Assinam com ela Soonhyung Kwon, da Universidade do Sul da Flórida, Alyssa M. Vela, da Escola de Medicina Feinberg da Northwestern, e Katharine S. Edwards, da Stanford Medicine.

O trabalho saiu na revista Cardiology Clinics. A composição do time diz algo sobre o campo: tem serviço social, psiquiatria, medicina comportamental e cardiologia na mesma assinatura.

O que os autores pedem que aconteça agora

Para Alyssa M. Vela, os achados reforçam a necessidade de rastreamento de rotina e de integrar medicina comportamental cardíaca ao cuidado, para que o paciente tenha acesso a esse tipo de intervenção, segundo declaração publicada pela universidade.

Traduzindo: a proposta não é substituir remédio por meditação, é colocar a avaliação do estado psicológico dentro da consulta de cardiologia, do mesmo jeito que se pergunta sobre sal e cigarro.

O limite do que foi medido

Vale repetir o recorte: os participantes já tinham risco cardiovascular. Não há aqui evidência de que praticar gratidão baixe a pressão de quem tem pressão normal, nem de que substitua tratamento.

Também é uma revisão de estudos com formatos muito diferentes entre si, o que ajuda a mapear tendência e atrapalha a precisão. A própria autora trata os números como associação consistente, não como efeito garantido.

O que isso muda na prática

A informação aproveitável para quem tem pressão alta é a estrutura, não o conteúdo místico. Escolher uma prática curta, fazer todo dia, marcar um encontro semanal com alguém que cobre, e sustentar isso por dois a três meses antes de julgar se funcionou.

Depois desse período, reduzir a intensidade mas não zerar o contato. Isolamento e falta de rotina cobram caro no longo prazo, como no caso já noticiado do estudo europeu com mais de 10 mil idosos sobre o efeito da solidão no cérebro.

O que não foi divulgado

O material publicado não informa o total somado de participantes dos 18 ensaios, nem por quanto tempo os efeitos foram acompanhados depois do fim dos programas. Também não há dado sobre custo dessas intervenções.

É esse último número que decide se a coisa chega ou não ao serviço público. Programa entregue por mensagem de texto é barato; programa presencial semanal com equipe própria não é.

O resumo em uma linha

A revisão foi divulgada em 1º de setembro de 2026 pela Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, com base no artigo publicado na revista Cardiology Clinics.

O achado não é que meditar faz bem, coisa que já se sabia. É que existe uma dose: todo dia, com reforço semanal, por oito a doze semanas. Abaixo disso, a pressão não parece registrar.

Fontes

Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, Mindfulness may lower blood pressure in just 8 weeks

Hernandez R. e outros, Positive Psychology Interventions and Cardiovascular Health, Cardiology Clinics, 2026


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Jefferson Augusto.

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