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Uma vaca chamada Veronika aprendeu sozinha a usar uma vassoura para se coçar; ela segura o objeto com os dentes, reposiciona com a língua e escolhe entre as cerdas e o cabo conforme a parte do corpo, surpreendendo cientistas
Escrito por Andriely Medeiros de Araújo
Publicado em 01/09/2026 às 20:12
Atualizado em 01/09/2026 às 20:13
Curiosidades
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A vaca Veronika surpreendeu cientistas ao usar uma vassoura de formas diferentes para se coçar, comportamento que levou a novos questionamentos sobre a inteligência bovina.
Uma vaca de 13 anos levou pesquisadores a reconsiderar até onde podem chegar as habilidades cognitivas dos bovinos depois de demonstrar algo muito além de simplesmente brincar com um objeto. Chamada Veronika, ela consegue segurar uma vassoura com a boca, corrigir sua posição quando necessário e, principalmente, escolher qual parte do utensílio utilizar dependendo da região do corpo que deseja alcançar.
O comportamento foi analisado por especialistas da Universidade de Medicina Veterinária de Viena e posteriormente publicado em janeiro de 2026 na revista científica Current Biology. A habilidade chamou atenção porque Veronika não utiliza o objeto sempre da mesma maneira: as cerdas e o cabo desempenham funções diferentes durante as sessões observadas pelos cientistas.
Veronika escolhe a parte da vassoura conforme a sensibilidade da pele
O detalhe mais importante apareceu quando os pesquisadores observaram como a vaca tratava regiões diferentes do próprio corpo. Para alcançar as costas, onde a pele é mais resistente, Veronika preferia utilizar a extremidade com as cerdas.
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Já quando queria se coçar em pontos mais sensíveis, como barriga e úbere, mudava sua estratégia e recorria ao cabo, de superfície mais lisa. Essa alternância afastou a hipótese inicial de que o animal estivesse simplesmente movimentando a vassoura sem um objetivo específico.
Antonio Osuna Mascaró, um dos pesquisadores envolvidos, chegou aos primeiros testes desconfiado de que poderia estar diante de movimentos aleatórios. A repetição do padrão, porém, mostrou uma escolha relacionada ao tipo de contato que Veronika pretendia produzir.
O estudo destaca que usar partes distintas de uma mesma ferramenta para finalidades diferentes é um comportamento especialmente incomum no mundo animal.
Pesquisadores registraram 76 usos da ferramenta durante testes
A investigação não se baseou apenas no vídeo que chamou inicialmente a atenção da equipe. Osuna Mascaró e Alice Auersperg viajaram até o local onde Veronika vive e organizaram uma série de experimentos utilizando uma escova de cabo comprido.
Foram realizadas sete sessões, cada uma com dez tentativas. Ao longo do trabalho, os pesquisadores registraram 76 ocorrências em que a vaca utilizou o objeto como ferramenta.
Havia também ajustes durante a própria ação. Se a vassoura estivesse posicionada de maneira pouco conveniente, Veronika podia empregar a língua para reorganizá-la antes de prendê-la com os dentes.
Essa sequência mostrou que o comportamento envolvia mais do que pegar um objeto disponível. O animal adaptava a posição e selecionava a extremidade que atendia melhor à necessidade daquele momento.
Habilidade começou anos antes dos testes científicos
Quem primeiro percebeu que havia algo diferente não foi um pesquisador. Witgar Wiegele, criador orgânico da Caríntia, região austríaca próxima à fronteira com a Itália, já observava Veronika havia anos.
A vaca começou interagindo com pedaços de madeira espalhados pelo ambiente. Com o tempo, passou a utilizá-los deliberadamente para alcançar partes do corpo durante as coceiras.
Outros comportamentos também chamavam atenção da família. Veronika reconhecia vozes e reagia quando era chamada, aproximando-se dos familiares com quem mantinha contato frequente.
Somente mais tarde um registro em vídeo chegou aos especialistas em cognição animal e transformou aquela rotina conhecida pelo criador em objeto de investigação científica.
Vida fora da produção pode ter dado mais oportunidades para experimentar
A situação de Veronika também é incomum quando comparada à realidade de muitos bovinos. Ela vive como animal de companhia e mantém contato próximo com pessoas, em vez de estar submetida ao ciclo convencional de produção.
Aos 13 anos, também alcançou uma idade que poucas vacas atingem em determinados sistemas produtivos.
Os pesquisadores consideram que um ambiente com mais tempo, estímulos e oportunidades para explorar objetos pode ter favorecido o aparecimento desse tipo de comportamento. Isso não significa, porém, que a capacidade seja exclusiva de Veronika.
Osuna Mascaró afirmou não enxergá-la como uma espécie de “Einstein das vacas”. Para o pesquisador, o caso pode indicar justamente o contrário: outros bovinos talvez possuam capacidades semelhantes que raramente tiveram oportunidade de demonstrar.
Depois da publicação do trabalho, ele relatou inclusive receber informações sobre outras vacas apresentando comportamentos considerados inteligentes.
Uso multifuncional chama atenção por comparação com chimpanzés
O elemento que tornou o caso particularmente relevante para os cientistas foi a maneira flexível de utilizar uma única ferramenta.
A vassoura não era tratada como um objeto com apenas uma função. Veronika adaptava seu uso de acordo com o resultado desejado.
Segundo os pesquisadores, esse tipo de utilização multifuncional de diferentes partes da mesma ferramenta havia sido documentado anteriormente em chimpanzés.
A comparação não significa colocar bovinos e primatas no mesmo nível cognitivo de maneira geral. Ela serve para destacar como uma habilidade específica, considerada sofisticada, apareceu em uma espécie que historicamente recebeu muito menos atenção em estudos sobre uso de ferramentas.
Vaca coloca antigas ideias sobre inteligência bovina em discussão
O trabalho também levanta uma pergunta mais ampla: será que os limites atribuídos à inteligência dos bovinos refletem realmente suas capacidades ou a maneira como humanos tradicionalmente observam esses animais?
Durante muito tempo, a vaca foi vista principalmente a partir de sua função na produção agropecuária. Isso pode ter reduzido as oportunidades de observar comportamentos individuais em ambientes nos quais os animais conseguem explorar, aprender e experimentar.
Veronika não fabrica a própria ferramenta, mas mostrou capacidade de reconhecer uma utilidade em um objeto, manipulá-lo e alterar seu uso de acordo com o local que pretendia alcançar. Para os cientistas, isso já é suficiente para desafiar algumas expectativas consolidadas sobre a espécie.
Fonte
Compre Rural
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Andriely Medeiros de Araújo.

