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Vacina 100% brasileira de mRNA recebe aval da Anvisa para testes em humanos e abre caminho para novas terapias
Escrito por Andriely Medeiros de Araújo
Publicado em 03/09/2026 às 12:16
Ciência e Tecnologia
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Uma vacina desenvolvida pela Fiocruz será o primeiro produto brasileiro com tecnologia mRNA a avançar para testes clínicos em humanos após autorização da Anvisa.
A Anvisa autorizou a Fiocruz a levar aos estudos clínicos a primeira vacina desenvolvida integralmente no Brasil com tecnologia de mRNA, em um passo que coloca uma plataforma nacional de RNA mensageiro diante de seu primeiro teste em seres humanos. O recrutamento para a Fase 1 está previsto para o primeiro trimestre de 2027, após análise do Comitê de Ética em Pesquisa, e os participantes deverão ser acompanhados durante um ano.
O avanço chama atenção porque não depende apenas da formulação de um novo imunizante contra a Covid-19. O Brasil desenvolveu internamente tanto a estrutura genética quanto o sistema lipídico utilizado para proteger e transportar o RNA, criando uma base tecnológica que poderá ser reutilizada em outras pesquisas sem a necessidade de importar ou licenciar todos os componentes centrais.
Pesquisa contra câncer já testa outro uso para a mesma lógica tecnológica
Uma das frentes brasileiras mais distantes da Covid-19 está voltada aos tumores sólidos. Em experimentos realizados com animais, cientistas utilizaram RNA mensageiro para induzir células tumorais a produzir uma proteína com ação antitumoral, levando a reduções de até 85% no volume do tumor em alguns modelos.
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Os testes incluíram tumor de cólon, mas ainda pertencem à etapa pré-clínica. Isso significa que o resultado não pode ser transferido automaticamente para pacientes, embora mostre que a tecnologia por trás de uma vacina também pode ser adaptada para objetivos terapêuticos completamente diferentes.
Outra linha de investigação tenta levar o mRNA para uma nova abordagem da terapia CAR-T. O conceito estudado busca reduzir a necessidade de retirar células de defesa, modificá-las fora do organismo e depois devolvê-las ao paciente.
Plataforma permite trocar a instrução sem reconstruir toda a tecnologia
O interesse pelo RNA mensageiro está diretamente ligado à maneira como ele trabalha dentro do organismo. A estrutura funciona como um sistema de entrega de instruções temporárias às células, que passam a produzir uma proteína determinada pela sequência genética transportada.
Na vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Fiocruz, essa instrução está ligada à produção temporária da proteína Spike. A partir desse contato, o sistema imunológico passa a reconhecer o alvo e desenvolve uma resposta contra ele.
O ponto estratégico é que a estrutura de transporte pode continuar semelhante enquanto a informação genética é substituída. Essa flexibilidade permite direcionar a plataforma para outro agente infeccioso ou até para uma finalidade terapêutica, sem reconstruir todo o sistema desde o início.
Investimento federal chega a R$ 210 milhões
O avanço da plataforma ocorre paralelamente a um investimento de R$ 210 milhões anunciado pelo Ministério da Saúde. Os recursos deverão apoiar projetos desenvolvidos em diferentes centros brasileiros ligados ao RNA mensageiro.
Entre as instituições envolvidas estão o CT-Vacinas, em Minas Gerais, o Instituto Butantan e a Fiocruz. O objetivo é ampliar a capacidade científica do país e transformar pesquisas em produtos com maior autonomia tecnológica.
Fernanda Negri, secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde, resumiu a estratégia ao afirmar que “o mRNA pode abrir centenas de oportunidades” e que a meta é dominar esse conhecimento dentro do país.
Doença de Chagas e outras enfermidades entram no horizonte
O campo de aplicação estudado no Brasil não termina no coronavírus. Uma das possibilidades analisadas envolve uma vacina contra a doença de Chagas, enfermidade importante para países da América Latina.
A malária também aparece entre os alvos considerados por pesquisadores, enquanto outro grupo de interesse é formado por imunizantes contra dengue. Esses projetos estão em fases diferentes e não devem ser entendidos como produtos próximos de chegar ao mercado.
O que une essas pesquisas é a tentativa de aproveitar o domínio nacional sobre a plataforma de mRNA para desenvolver soluções relacionadas a problemas que possuem grande peso no Sul Global.
Fiocruz acumulou experiência antes de chegar à fase clínica
A autorização atual é resultado de um processo iniciado anos antes. Em 2021, a Fiocruz passou a atuar como centro de referência para tecnologia de RNA mensageiro na América Latina e no Caribe, em uma iniciativa reconhecida pela Organização Mundial da Saúde.
Esse período permitiu formar equipes, desenvolver processos e construir uma plataforma própria até alcançar um produto apto a entrar na fase de estudos com pessoas. A nova vacina, portanto, funciona também como teste da capacidade tecnológica acumulada ao longo desses anos.
Patrícia Neves, pesquisadora envolvida no projeto, considera que esse domínio pode mudar a posição brasileira no setor. Para ela, o país passa a ter condições de produzir conhecimento e também de transferir tecnologia para outros mercados.
Nanopartícula brasileira é parte central do projeto
Um dos componentes decisivos está na forma como o RNA chega protegido às células. O material genético é envolvido por uma nanopartícula lipídica, estrutura que evita sua degradação antes de cumprir a função prevista.
No projeto da Fiocruz, essa nanopartícula foi desenvolvida no Brasil, assim como a parte genética do imunizante. Esse detalhe diferencia a vacina de uma solução construída apenas a partir de tecnologias importadas.
A autonomia sobre os dois componentes oferece aos pesquisadores maior espaço para realizar adaptações futuras. Em vez de limitar o conhecimento à fabricação de um único produto, o país passa a controlar partes fundamentais da própria plataforma de mRNA.
Experiência internacional mostra que tecnologia pode ir além de infecções
O movimento brasileiro acontece enquanto empresas estrangeiras também testam outras aplicações. Moderna e Merck, por exemplo, divulgaram resultados preliminares de um imunizante experimental baseado em RNA mensageiro para melanoma.
A pesquisa internacional utiliza a mesma lógica tecnológica geral que ganhou projeção mundial durante a pandemia. O caso mostra como uma plataforma inicialmente associada ao combate ao coronavírus passou a ser explorada também em oncologia.
No Brasil, essa mudança de perspectiva já aparece nos projetos com tumores e na proposta relacionada à CAR-T. A vacina da Fiocruz se torna, nesse contexto, a primeira aplicação nacional a atravessar a fronteira entre o laboratório e o estudo clínico.
Próxima etapa será observar segurança e resposta em humanos
A autorização da Anvisa não significa que o produto já esteja aprovado para uso amplo. O passo concedido agora permite iniciar a avaliação clínica, etapa necessária para produzir evidências antes de qualquer decisão sobre utilização futura.
Os primeiros voluntários deverão entrar no estudo em 2027, caso o protocolo receba aprovação ética. Durante o acompanhamento, pesquisadores poderão reunir informações essenciais para definir os passos seguintes da vacina.
Ao mesmo tempo, o aprendizado obtido nessa etapa pode ajudar outros projetos de mRNA desenvolvidos no país. Experiência regulatória, produção, formulação e acompanhamento clínico passam a formar um conjunto de conhecimentos que poderá ser reaproveitado.
A importância do projeto está justamente no fato de que ele não termina no imunizante que recebeu autorização. O desenvolvimento da plataforma permitiu ao Brasil construir componentes próprios e alcançar uma etapa que ainda não havia sido atingida por um produto nacional de RNA mensageiro.
Isso cria uma base para pesquisas que hoje seguem caminhos distintos, da oncologia a doenças infecciosas de maior impacto regional. Cada uma delas exigirá estudos próprios, mas poderá se beneficiar do conhecimento tecnológico já acumulado.
Fonte
G1
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Andriely Medeiros de Araújo.

