PA
Faça um comentário
5 min de leitura
Aos 66 anos, o agricultor Agílio Cordeiro Vieiras soube que o café beirão que a mãe e a avó cuidavam no quintal em Irituia (PA) é Coffea liberica, espécie rara no Brasil identificada pela Embrapa entre 57 cafeeiros de 8 sítios
Escrito por Douglas Avila
Publicado em 21/10/2026 às 04:55
Curiosidades
Grupo
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
No Sítio Conceição, em Irituia, no nordeste do Pará, os pés de café que a família de Agílio Cordeiro Vieiras mantém perto de casa há gerações foram identificados pela Embrapa como Coffea liberica, uma espécie rara na cafeicultura brasileira atual, conhecida na região pelo nome de beirão.
Agílio tem 66 anos e convive com o café beirão desde a infância. As plantas já faziam parte da propriedade da família, onde a mãe e a avó dele as mantinham bem perto da casa.
Segundo a Embrapa Amazônia Oriental, as duas contavam que os cafeeiros sempre estiveram ali. Ninguém da família, porém, sabia explicar de onde tinham vindo as primeiras mudas.
Pesquisa olhou 57 pés de café em oito sítios de cinco cidades
A identificação faz parte do projeto Café Ancestral Agroecológico no Nordeste Paraense, que une pesquisa botânica, memória das famílias agricultoras e práticas de manejo na região do Alto Rio Guamá.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
O levantamento analisou 57 exemplares de café em oito propriedades de cinco municípios: Irituia, São Domingos do Capim, Ourém, Capitão Poço e São Miguel do Guamá.
A equipe confirmou duas espécies. Uma é a Coffea arabica, chamada localmente de pretinho e de moca. A outra é a Coffea liberica, o beirão, encontrada nos quintais agroflorestais de Irituia.
Beirão é o achado que mais interessou aos cientistas
De acordo com a Embrapa, a presença do beirão é um dos achados de maior interesse científico do estudo. A espécie tem pouca expressão na cafeicultura brasileira de hoje.
Também há pouca informação sobre o cultivo da Coffea liberica no Norte do país e sobre como ela entrou na região. Por isso, os pés guardados pelas famílias chamaram atenção.
Os pesquisadores encontraram plantas de liberica com frutos vermelhos e amarelos. Já o moca, variedade de arabica, se destaca por formar uma única semente por fruto, de formato arredondado.
Achado chega às vésperas dos 300 anos do café no Brasil
O registro ganha peso pelo calendário. Em 1727, sementes vindas da Guiana Francesa chegaram a Belém, marco da entrada do café no Brasil, e 2027 completa três séculos dessa história.
A Embrapa, porém, faz uma ressalva. A trajetória regional do café remonta a 1727, mas isso não basta para confirmar que os cafeeiros encontrados descendem diretamente das plantas introduzidas naquela época.
Olhando assim, é difícil não imaginar a ligação. Mas a própria equipe diz que precisa aprofundar a investigação botânica e histórica antes de afirmar qualquer parentesco.
Mulheres da família guardaram as plantas e o jeito de preparar
A história de Agílio se repete em outras propriedades da região. Em muitos casos, foram as mulheres da família que preservaram os pés de café, os modos de preparo e o conhecimento passado entre gerações.
Segundo a Embrapa, esse protagonismo mostra que a conservação da diversidade agrícola também depende da memória, do trabalho e dos saberes das matriarcas da agricultura familiar.
No caso do Sítio Conceição, foram a mãe e a avó de Agílio que mantiveram os cafeeiros junto da casa, sem saber que guardavam uma espécie rara no país.
Além das plantas, as famílias guardaram os modos de preparo do café, transmitidos dentro de casa de uma geração para a outra, e esses relatos entram no trabalho dos pesquisadores.
Professor da Ufra começou a investigação com alunos de Capitão Poço
O estudo começou com o professor José Sebastião Romano de Oliveira, conhecido como Zezinho, da Universidade Federal Rural da Amazônia. Morador da região, ele reuniu estudantes do campus de Capitão Poço.
A proposta é entender se, além de agroecológica, essa produção pode ser reconhecida pela trajetória histórica, como café de origem e com identidade territorial própria.
O trabalho combina relatos de moradores e ferramentas participativas, como mapas falados e linhas do tempo, com análises científicas. Os agricultores são tratados como protagonistas da conservação.
Embrapa, Ufra, cooperativa e Sudam assinam o projeto
A pesquisa reúne a Embrapa Amazônia Oriental, a Ufra e a Cooperativa D’Irituia, com apoio da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia, a Sudam.
A identificação taxonômica das espécies ficou com a pesquisadora Fernanda Ilkiu-Borges de Souza, da Embrapa. O pesquisador Osvaldo Kato, da Embrapa Amazônia Oriental, acompanha o trabalho.
Outro agricultor cultiva 3 mil pés de café no meio da floresta há 20 anos
Outro agricultor da região, Avelino Brás de Oliveira, aposta há cerca de 20 anos no café plantado em sistema agroflorestal, com a floresta em pé ao redor das plantas.
Hoje ele mantém aproximadamente 3 mil cafeeiros em duas áreas, consorciados com frutíferas amazônicas, citros e árvores nativas, segundo a Embrapa.
A propriedade de Avelino também tem uma agroindústria que beneficia e torra os grãos. O café é vendido no Pará e em São Paulo, o que mostra que a produção já sai da região.
Cooperativa já começou o registro da marca no INPI
A Cooperativa D’Irituia trabalha para profissionalizar essa cadeia. A caracterização do café pode ajudar a fortalecer a identidade do produto e abrir mercados que valorizam origem e produção agroecológica.
A criação de uma identidade visual e o início do registro da marca no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI, fazem parte desse caminho, segundo a Embrapa.
A indicação geográfica e a certificação orgânica aparecem como possibilidades para o futuro. Por enquanto, nenhuma das duas foi concedida ao café da região.
Pesquisador diz que a identificação ainda não prova a origem
Kato ressalta que a identificação botânica, por si só, não comprova a origem histórica dos cafeeiros. “A pesquisa precisa avançar nesta identificação”, afirmou o pesquisador.
Segundo ele, também é preciso avançar “em sistemas produtivos mais eficientes para garantir futuramente escala e uma comercialização mais estruturada e profissional”.
A safra brasileira de café segue em alta, como mostra a previsão de maior produção da série histórica da Conab em 2026, mas o beirão de Irituia corre em outra escala.
Os detalhes do levantamento foram divulgados pela Embrapa Amazônia Oriental em 19 de outubro.
Você provaria um café beirão guardado por gerações no quintal de uma família do interior do Pará?
Tags
Fontes
Café guardado por gerações no Pará revela espécie rara e aproxima ciência dos saberes rurais
Café guardado por gerações no Pará revela espécie rara e aproxima ciência dos saberes rurais
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Douglas Avila.

