Um ataque ao principal aeroporto da Arábia Saudita neste sábado marcou o incidente mais letal em território saudita desde o início da guerra com o Irã, aumentando a pressão sobre a maior economia do Oriente Médio justamente quando o país se prepara para sediar uma série de grandes eventos destinados a atrair mais investimento estrangeiro.
A coalizão liderada pela Arábia Saudita que combate os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã, atribuiu ao grupo iemenita o que chamou de “ataque terrorista covarde” ao Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riad, classificando a ação como “um crime de guerra em grande escala”.
Doze pessoas morreram e mais de 300 ficaram feridas no ataque. Entre as vítimas estavam quatro sauditas, um palestino, dois cidadãos de Bangladesh e uma pessoa de cada um dos seguintes países: Estados Unidos, Egito, Jordânia, Síria e Sudão, segundo as autoridades.
Os acontecimentos ocorrem enquanto alguns dos maiores nomes dos setores global de finanças e energia se preparavam para viajar à capital saudita para uma série de eventos voltados a promover o reino internacionalmente.
O 25º Congresso Mundial do Petróleo (World Petroleum Congress, WPC) e eventos associados estavam programados para começar neste domingo e seguir até 15 de outubro. Ministros de Energia deveriam se reunir já neste domingo, e a organização do WPC informou aos participantes que o evento continuará conforme planejado.
A BP informou neste domingo que sua CEO, Meg O’Neill, não poderá participar presencialmente devido às interrupções nas viagens provocadas pelo ataque.
O CEO da Shell, Wael Sawan, também desistiu de comparecer à conferência, segundo uma fonte com conhecimento direto do assunto. A Shell se recusou a comentar. O Financial Times havia informado anteriormente sobre os dois cancelamentos.
O ministro da Energia da Itália participará remotamente de uma reunião ministerial, enquanto algumas consultorias cancelaram viagens ou reduziram sua presença no evento.
Após o WPC, Riad sediará mais tarde neste mês a décima edição da Future Investment Initiative (FII), principal conferência de investimentos do país. Os dois eventos devem reunir líderes da indústria, incluindo o CEO da ExxonMobil, além de nomes de peso de Wall Street, como David Solomon, do Goldman Sachs, e Larry Fink, da BlackRock.
Antes dos ataques mais recentes, os organizadores da FII informaram aos participantes que a conferência será realizada como planejado e prometeram um forte esquema de segurança em aeroportos, hotéis e locais de eventos, além de transporte coordenado.
As operações aeroportuárias foram temporariamente suspensas após o ataque e, neste domingo, ainda permaneciam em grande parte interrompidas. Dados da plataforma de monitoramento aéreo Flightradar24 mostravam uma taxa de cancelamento de voos próxima de 85%.
O ataque ocorreu menos de uma semana depois de forças apoiadas pela Arábia Saudita no Iêmen lançarem uma campanha para retomar áreas controladas pelos houthis e “eliminar” o grupo. Os militantes, que frequentemente reivindicam ataques contra instalações petrolíferas sauditas, haviam ampliado recentemente seu controle territorial e reforçado sua presença sobre o estreito de Bab el-Mandeb, uma importante rota do comércio marítimo global.
Questionado por jornalistas no sábado sobre a possibilidade de os Estados Unidos participarem dos ataques sauditas contra os houthis, o presidente Donald Trump respondeu: “Talvez. Vamos avaliar isso.”
Após o ataque de sábado, o distrito financeiro de Riad, que abriga o fundo soberano do reino, a bolsa de valores local e escritórios de empresas globais, de consultorias a bancos de Wall Street como o Goldman Sachs, passou a operar remotamente. As escolas da capital também migraram para o ensino a distância por pelo menos uma semana.
Os houthis, que tomaram a capital iemenita, Sanaa, em 2014 e forçaram o governo internacionalmente reconhecido a renunciar no ano seguinte, lutam contra a coalizão liderada pela Arábia Saudita desde então.
Embora não tenham reivindicado explicitamente o ataque a Riad, os houthis afirmaram em comunicado que aeroportos sauditas são alvos legítimos e aconselharam funcionários e viajantes a evitarem o espaço aéreo do país.
Outro projétil caiu durante a madrugada nas proximidades do aeroporto de Dammam, na Província Oriental, região próxima à sede da gigante petrolífera Saudi Aramco, segundo a coalizão liderada por Riad. Um drone também teve como alvo a região leste do país, enquanto um míssil balístico foi interceptado em Al-Kharj, ao sul da capital.
Manter os grandes eventos programados seria uma demonstração da determinação saudita em manter sua agenda econômica nos trilhos, apesar dos meses de guerra entre Estados Unidos e Irã, que vêm afetando profundamente sua estratégica indústria de petróleo.
As preocupações com a segurança surgem justamente quando as pressões fiscais do reino aumentam. Recentemente, o governo ampliou suas projeções de déficit orçamentário à medida que os gastos com infraestrutura e defesa aceleram.
Aliada estratégica dos Estados Unidos no Oriente Médio, a Arábia Saudita tem assumido papel cada vez mais central nos acontecimentos da região nos últimos meses.
Em julho, caças sauditas atacaram o Aeroporto Internacional de Sanaa para impedir o pouso de uma aeronave iraniana que transportava uma delegação houthi. Em resposta, os houthis anunciaram um “bloqueio” a embarcações sauditas no Mar Vermelho, alegando que o Iêmen estava sob “cerco”.
Em setembro, um ataque lançado a partir do Iraque provocou a paralisação do oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita, responsável por transportar petróleo bruto para a costa do Mar Vermelho. A infraestrutura tornou-se ainda mais crucial após a guerra com o Irã comprometer o funcionamento do Estreito de Hormuz.
O governo do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman tem buscado apoio para enfrentar os houthis. Trump, que no ano passado concordou com uma trégua com o grupo, já demonstrou relutância em aderir à campanha militar saudita, embora os Estados Unidos continuem fornecendo inteligência ao reino.
A França enviou equipamentos militares defensivos ao porto saudita de Yanbu, enquanto o Reino Unido disponibilizou uma aeronave de reabastecimento aéreo. Turquia e Paquistão, que firmaram um pacto de defesa com a Arábia Saudita em agosto, também sinalizaram disposição para enviar tropas ou armamentos ao país, embora sem participação direta em operações ofensivas.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: Ecos da Notícia por Infomoney.

