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Arquipélago brasileiro a 1.010 km de Natal é o único lugar oceânico conhecido onde o manto da Terra aparece acima do mar, e ele sobe 1,5 milímetro por ano

Arquipélago brasileiro a 1.010 km de Natal é o único lugar oceânico conhecido onde o manto da Terra aparece acima do mar, e ele sobe 1,5 milímetro por ano

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Arquipélago brasileiro a 1.010 km de Natal é o único lugar oceânico conhecido onde o manto da Terra aparece acima do mar, e ele sobe 1,5 milímetro por ano

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 05/10/2026 às 14:46

Atualizado em 05/10/2026 às 15:40

Ciência e Tecnologia

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A estação científica no arquipélago de São Pedro e São Paulo, onde a rocha do manto da Terra aparece acima do mar. Foto: FEST/UFES (divulgação)

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Uma pedra perdida no Atlântico mostra o manto da Terra ao sol, cresce menos de um palmo por século e, mesmo assim, segura para o Brasil um mar de 450 mil km² que dá trabalho a barcos de Natal e Recife.

Lá no meio do Atlântico, quase em cima da linha do Equador, existe um pedaço do Brasil feito de uma rocha de livro de escola. É o manto da Terra, a camada que costuma ficar escondida debaixo da crosta.

O lugar se chama arquipélago de São Pedro e São Paulo e fica a cerca de 1.010 km de Natal. E ele não está parado: as pedras sobem uns 1,5 milímetro por ano, como mostra um artigo publicado em 2009 na REM: Revista Escola de Minas.

O trabalho é de cinco geólogos da UERJ, da UFF e da UFRN, com Akihisa Motoki como primeiro autor. Eles calcularam a taxa de soerguimento das ilhas, que é o nome técnico para essa subida lenta da rocha.

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Que rocha do manto da Terra é essa?

As ilhas de São Pedro e São Paulo são de peridotito serpentinizado, uma rocha do manto abissal. Não tem ali a capa de basalto que forra quase todo o fundo do oceano, segundo a REM.

A rocha do arquipélago é peridotito do manto abissal, sem a capa de basalto do fundo do oceano, segundo o estudo da REM. Foto: FEST/UFES (divulgação)

Ou seja, a pedra do manto da Terra está de fora, tomando onda e sol. O normal seria ela ficar enterrada bem abaixo do leito do mar.

O artigo afirma que o arquipélago é a única localidade oceânica conhecida com o manto exposto no próprio lugar onde se formou, acima do nível do mar. A palavra oceânica pesa: a frase vale para o meio do mar, longe de qualquer continente.

E o tamanho da coisa? É bem pouca pedra: o estudo registra cerca de 13 mil m² de área seca, e o ponto mais alto tem 18 metros.

Fazendo a conta, toda essa área seca cabe em menos de dois campos de futebol oficiais. A parte mais alta não passa de um prédio de uns seis andares.

Agora, o detalhe que muda tudo: o que aparece é só a pontinha. Embaixo d’água, o artigo descreve uma cadeia de rocha do manto da Terra com 90 km de comprimento, 25 km de largura e 3.800 metros de altura.

Pondo na ponta do lápis, os 18 metros que ficam secos são menos de 0,5% dessa montanha. Se ela fosse um prédio de cem andares, só meio andar do topo estaria fora d’água.

Como se mede uma ilha que sobe 1,5 mm por ano?

Ninguém vê a ilha subir, mas o mar deixa recibo. As ondas cavam degraus na rocha, as chamadas plataformas de abrasão, e esses degraus vão ficando acima da água conforme o soerguimento avança.

Os geólogos contam que mapearam esses degraus nas ilhas Belmonte, Sudeste e Nordeste. Pela altura e pela idade deles, a subida dos últimos 6 mil anos fica entre 1,2 e 1,5 mm por ano.

A segunda régua veio de corais fósseis da ilha Belmonte, datados por radiocarbono. Nessa conta, que cobre os últimos 6.600 anos, o artigo aponta um ritmo entre 1,5 e 1,8 mm por ano.

Juntando as duas réguas, o estudo resume a conclusão. Para os autores, 1,5 mm por ano é uma taxa razoável para o soerguimento atual do arquipélago de São Pedro e São Paulo.

O arquipélago visto do alto, com o farol, a estação científica e um navio da Marinha, que mantém pesquisadores ali desde 1998. Foto: Reprodução: Arquipélago de São Pedro e São Paulo, 20 anos de pesquisa (UFRN/SECIRM, 2018)

Parece nada, e no dia a dia quase é mesmo. Dá 15 centímetros em um século. É menos que um palmo durante a vida inteira de um avô.

A falha de 630 km onde a pedra mora

O artigo explica que o arquipélago fica na zona de falha transformante de São Paulo, uma rachadura de 630 km no sentido leste-oeste, onde dois pedaços de placa deslizam um ao lado do outro.

O fundo do Atlântico ali se abre a cerca de 1,5 cm por ano para cada lado, de acordo com o estudo. Somando os dois lados, a falha se desloca uns 3 cm por ano.

Comparando os dois ritmos, a falha anda 20 vezes mais rápido do que a ilha sobe. É o fundo do mar trabalhando em duas velocidades bem diferentes, as duas invisíveis a olho nu.

E tem um efeito curioso, apontado pelos autores. A subida rápida ajuda a explicar por que ali não se formou um grande recife de coral, daqueles que a gente associa ao mar do Nordeste.

Quanto o manto da Terra já subiu ali?

A resposta depende da hipótese, e o artigo cita duas. Na primeira, a rocha subiu entre 1.500 e 3.000 metros no total.

Nesse cenário, o soerguimento teria começado entre 1 e 2 milhões de anos atrás. É o modelo que os geólogos chamam de megamullion, com a rocha do fundo sendo puxada para cima aos poucos.

Na segunda hipótese, o estudo estima que a subida total chega a uns 9.000 metros, em cerca de 6 milhões de anos.

A primeira conversa bem com a régua de hoje. Multiplicando, 1,5 mm por ano durante 1 milhão de anos dá exatamente 1.500 metros, o piso da estimativa.

Isso não prova que o ritmo foi sempre o mesmo, e o estudo não diz isso. Mas ajuda a enxergar como um movimento que ninguém percebe, somado por tempo suficiente, levanta uma montanha.

Por que a Marinha mantém gente morando numa pedra

Aqui a geologia vira questão de soberania. Tudo passa pelo artigo 121 da Convenção da ONU sobre o Direito do Mar. Ele diz que rochedo sem condição de habitação humana ou de vida econômica própria não gera zona econômica exclusiva.

Na prática, se ninguém mora lá, o Brasil fica sem zona econômica exclusiva e sem plataforma continental em volta daquele pedaço do manto da Terra.

Foi por isso que a Marinha do Brasil (SECIRM) criou o PROARQUIPELAGO, aprovado em junho de 1996. Quem conta é o livro oficial dos 10 anos da Estação Científica.

No resumo do artigo da REM, os autores concluem que 1,5 mm por ano é uma taxa razoável para a subida atual. Foto: Reprodução: REM: Revista Escola de Minas (Motoki et al., 2009), destaque do CPG

A SECIRM registra que a estação foi inaugurada em 25 de junho de 1998. Desde então, quatro pesquisadores se revezam ali sem parar, depois de uma semana de treinamento na Base Naval de Natal.

Em 2004, segundo a SECIRM, o Brasil levou à ONU o traçado da zona econômica exclusiva em volta do arquipélago. São cerca de 450 mil km², perto de 15% de toda a zona do país.

A mesma publicação diz que essa zona econômica exclusiva equivale a 6% do território nacional. Dividindo uma área pela outra, cada metro quadrado de pedra seca garante cerca de 35 km² de oceano ao Brasil.

Poucas pedras do país trabalham tanto. Menos de dois campos de futebol de rocha seca seguram uma zona econômica exclusiva do tamanho de 6% do Brasil.

O peixe que sai desse mar

E esse mar não é só linha no mapa. A pesca de atum é a mais importante da região desde os anos 1950, segundo a SECIRM. O dado está no livro de 20 anos de pesquisa, feito com a UFRN em 2018.

O monitoramento da pesca começou em 1998 e, desde então, mostra média de 150 toneladas por ano tiradas daquelas águas.

O mesmo levantamento aponta pico em 2003 e 2004, com 250 toneladas. E as albacoras, um tipo de atum, respondem por mais da metade de tudo o que é pescado ali.

Os barcos que trabalham nessa zona saem de portos de Natal e de Recife, segundo a Marinha do Brasil, na publicação de 2009. Ou seja, é trabalho e renda para gente da costa do Nordeste.

Afinal, são 1.010 ou 1.100 km de Natal?

A resposta depende de quem mede e de onde mede. O artigo da REM diz cerca de 1.010 km a nordeste de Natal, enquanto as publicações da Marinha arredondam para cerca de 1.100 km.

Pela conta do CPG, em linha reta do centro de Natal até as coordenadas do estudo, dá uns 990 km. Nenhuma das fontes explica qual ponto de partida usou.

Para comparar, Fernando de Noronha fica a 520 km do arquipélago, segundo a SECIRM. Quem acha Noronha longe nem imagina o tamanho do mar que separa a ilha famosa de São Pedro e São Paulo.

Uma pedra pequena com um trabalho enorme

O arquipélago de São Pedro e São Paulo é um caso raro. Ali, geologia e soberania falam a mesma língua. A rocha do manto da Terra sobe menos de um palmo por século.

E, mesmo assim, segura um mar inteiro para o país. Desde que tenha gente morando nela, do jeito que o artigo 121 exige. E que o soerguimento lento continue sendo estudado por quem se reveza naquela pedra.

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Marinha do Brasil


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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