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Biogás e biometano atraem R$ 2,36 bilhões em financiamento no Brasil, e 79% de todo o dinheiro contratado desde 2015 chegou apenas nos últimos três anos

Biogás e biometano atraem R$ 2,36 bilhões em financiamento no Brasil, e 79% de todo o dinheiro contratado desde 2015 chegou apenas nos últimos três anos

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Biogás e biometano atraem R$ 2,36 bilhões em financiamento no Brasil, e 79% de todo o dinheiro contratado desde 2015 chegou apenas nos últimos três anos

Escrito por Felipe Alves da Silva

Publicado em 04/10/2026 às 00:03

Atualizado em 04/10/2026 às 01:20

Biocombustíveis Renováveis

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Projetos brasileiros de biogás e biometano já atraíram mais de R$ 2,36 bilhões em financiamento de longo prazo desde 2015, com forte aceleração das contratações nos últimos três anos.

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BNDES e debêntures incentivadas colocam capital de longo prazo em novos projetos, enquanto Lei do Combustível do Futuro, mercado de gás e certificados de origem criam novas fontes de receita para o biometano

O biogás e o biometano começaram a atrair dinheiro em uma velocidade que o setor brasileiro ainda não havia experimentado. Desde 2015, projetos ligados aos dois combustíveis renováveis receberam mais de R$ 2,36 bilhões em financiamentos de longo prazo por meio do BNDES e de debêntures incentivadas.

O número já chama atenção por si só. O movimento recente, porém, é ainda mais revelador: 79% de todo esse valor foi contratado apenas nos últimos três anos.

Os dados foram apresentados em um encontro sobre financiamento de projetos do setor realizado em São Paulo e divulgados em 1º de outubro pelo portal Energia e Biogás. O evento reuniu investidores, empresas, bancos e representantes da Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), BNDES, Banco do Brasil, São Martinho, Albioma e Orizon.

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A mudança sugere que biogás e biometano estão deixando de ser vistos apenas como projetos ambientais ou complementares à atividade agroindustrial.

Eles começam a entrar na lógica de grandes projetos de infraestrutura energética: capital elevado, contratos de longo prazo, previsão de receita e estruturas próprias de financiamento.

79% do financiamento apareceu justamente quando o mercado começou a ganhar regras

A concentração dos recursos nos anos mais recentes coincide com uma transformação regulatória importante.

Segundo o Energia e Biogás, a abertura do mercado de gás natural e, mais recentemente, a aprovação da Lei do Combustível do Futuro ajudaram a criar condições para que projetos antes considerados mais difíceis de financiar ganhassem novas fontes de receita e maior previsibilidade.

A Lei nº 14.993/2024 criou a Política Nacional de Incentivo ao Biometano e estabeleceu um programa de descarbonização para produtores e importadores de gás natural.

Em 2026, o Conselho Nacional de Política Energética definiu uma meta inicial de 0,5% de redução das emissões do mercado de gás natural por meio do biometano. O governo optou por começar abaixo do piso de 1% inicialmente previsto, citando condições de oferta e demanda, mas criou uma estrutura de acompanhamento para permitir a elevação futura da meta.

Na prática, surge uma demanda regulatória que antes não existia.

E demanda previsível é uma das peças que bancos e investidores procuram antes de colocar centenas de milhões de reais em uma planta que precisará operar durante anos para pagar seu investimento.

Biometano ganhou um certificado que pode virar receita separada do próprio gás

Outra peça importante desse novo mercado é o Certificado de Garantia de Origem de Biometano, o CGOB.

A ANP regulamentou em fevereiro de 2026 os procedimentos para emissão desses certificados e a individualização das metas que deverão ser cumpridas por produtores e importadores de gás natural. O CGOB comprova a origem e a comercialização de determinado volume de biometano produzido sob as regras previstas pela legislação.

O efeito financeiro pode ser significativo.

Uma planta deixa de depender exclusivamente da venda física do gás para construir sua receita. O atributo ambiental associado à produção renovável passa a ter valor próprio dentro do sistema de descarbonização.

No encontro reportado pelo Energia e Biogás, especialistas destacaram justamente essa possibilidade: separar o atributo renovável da molécula física cria uma nova camada de negociação, circulação financeira e potencial securitização dos projetos.

Esse detalhe ajuda a explicar por que investidores começaram a olhar de maneira diferente para o setor.

Uma usina que possui mais de uma fonte potencial de receita tende a apresentar uma estrutura financeira mais interessante do que outra totalmente dependente da venda de um único produto.

Brasil tem 21 plantas operando e outras 48 tentando entrar no mercado

O financiamento cresce enquanto a capacidade produtiva também começa a avançar.

Dados apresentados pela presidente da ABiogás, Josiani Napolitano, indicam que o Brasil conta atualmente com 21 plantas de biometano em operação, somando capacidade de aproximadamente 1,3 milhão de metros cúbicos por dia.

Outras 48 plantas estão em fase de autorização na ANP, com capacidade combinada estimada em 3,3 milhões de metros cúbicos diários até 2027.

A associação também mapeia mais 127 projetos, que poderiam elevar a produção para cerca de 8 milhões de metros cúbicos por dia até 2030.

A diferença entre o que já existe e o que está projetado mostra a dimensão do desafio.

Construir dezenas de plantas exige muito mais do que matéria-prima disponível.

É necessário financiar equipamentos, biodigestores, sistemas de purificação, compressores, infraestrutura elétrica, armazenamento, conexão com redes de gás ou alternativas de transporte por caminhões.

Em alguns casos, o projeto passa facilmente da casa das centenas de milhões de reais.

Só uma planta em Goiás recebeu R$ 244,9 milhões do BNDES

Os financiamentos recentes ajudam a enxergar essa escala.

Em abril de 2026, o BNDES aprovou R$ 244,9 milhões para a construção de uma planta de biometano da Tropical Biogás, controlada pela bp bioenergy, em Edéia, Goiás.

A unidade utilizará vinhaça proveniente da produção de açúcar e etanol de cana-de-açúcar e deverá produzir cerca de 67 mil metros cúbicos de biometano por dia. Do financiamento total, R$ 193,4 milhões vêm do Fundo Clima.

Em outro projeto, no Paraná, o banco contratou R$ 148,5 milhões para a Bioo construir uma usina em Toledo.

A planta deverá produzir cerca de 11 milhões de metros cúbicos de biometano por ano utilizando resíduos orgânicos da agroindústria. O investimento total previsto é de R$ 196 milhões.

Há ainda um empreendimento de escala maior em São Paulo.

O BNDES aprovou aproximadamente R$ 450 milhões para uma planta em Paulínia desenvolvida pela Onebio, parceria entre Edge, do grupo Cosan, e Orizon. A capacidade anunciada chega a 225 mil metros cúbicos por dia, o que coloca a unidade entre os maiores projetos do país.

São operações desse porte que ajudam a entender como o volume acumulado pelo setor chegou rapidamente aos bilhões.

Fundo Clima já responde por grande parte do dinheiro do BNDES

O financiamento público tem peso particularmente relevante nesse movimento.

De acordo com os dados apresentados no evento e reportados pelo Energia e Biogás, aproximadamente 73% do valor contratado pelo BNDES para projetos de biogás e biometano provém do Fundo Clima.

O próprio banco possui linhas que podem financiar implantação, expansão e modernização de infraestrutura relacionada a biogás e biometano, incluindo transporte por dutos e terminais.

Em determinadas operações diretas, o BNDES pode participar com até 80% do valor total do projeto, enquanto o prazo pode chegar a 20 anos, dependendo da estrutura e capacidade de pagamento do empreendimento.

Esse prazo longo é especialmente relevante.

Uma planta de biometano exige desembolso elevado antes de começar a produzir. Quanto maior o período disponível para amortizar o financiamento, mais fácil se torna compatibilizar o pagamento da dívida com a geração de caixa do projeto.

Setor começa a abandonar garantia dos acionistas e financiar a própria usina

Outra transformação apresentada no encontro está ocorrendo na forma de estruturar esses empréstimos.

Projetos começam a migrar para modelos de project finance, nos quais o próprio empreendimento, seus contratos e seu fluxo de caixa assumem papel central na garantia do financiamento, reduzindo gradualmente a dependência de garantias corporativas oferecidas pelos acionistas.

Isso é um sinal importante de amadurecimento.

Setores muito novos normalmente dependem da força financeira da empresa controladora para obter crédito. À medida que bancos passam a compreender melhor a tecnologia, os riscos operacionais e os contratos envolvidos, torna-se possível avaliar a própria usina como um ativo financiável.

Mas nem todo projeto chegará a esse estágio.

Os participantes do encontro apontaram que a concessão de crédito ainda depende de fatores como previsibilidade de receita, garantia de fornecimento da matéria-prima, viabilidade operacional, gestão de riscos e consistência da modelagem financeira.

Ter resíduo disponível não basta para transformar uma área em uma usina bancável.

Debêntures podem abrir uma segunda avenida de bilhões para o setor

O BNDES domina hoje boa parte da estrutura de financiamento, mas o setor procura ampliar suas fontes de recursos.

Uma das alternativas são as debêntures incentivadas, títulos utilizados por empresas para captar dinheiro de investidores e financiar projetos enquadrados nas regras de infraestrutura.

O mercado ainda é pequeno para biogás e biometano, mas uma operação mencionada pelo portal Energia e Biogás levantou R$ 38 milhões para uma planta de biogás por meio de debêntures estruturadas com um pacote específico de garantias.

O interesse é reduzir a dependência de uma única fonte.

Se os projetos ganharem escala e histórico operacional, fundos de investimento, bancos privados e mercado de capitais podem assumir parcela maior dos financiamentos que hoje passam principalmente pelo banco público.

Esse talvez seja o próximo salto do setor.

Biometano ainda explora menos de 2% de seu potencial brasileiro

O volume de investimento crescente contrasta com o tamanho ainda pequeno do mercado.

Segundo a ABiogás, o Brasil explora atualmente menos de 2% de seu potencial de produção de biometano.

Resíduos da produção de açúcar e etanol, dejetos animais, restos agroindustriais, resíduos urbanos e materiais provenientes de aterros podem ser utilizados para produzir biogás, que depois pode ser purificado até atingir a qualidade necessária para se transformar em biometano.

A ANP atualizou em agosto as regras nacionais de especificação e controle de qualidade do combustível, consolidando normas antes separadas e adaptando a regulamentação ao crescimento do mercado.

A questão deixou de ser apenas se o país possui matéria-prima.

O desafio agora é transformar esse potencial disperso em projetos capazes de fechar contratos, obter financiamento, construir plantas e entregar gás renovável de maneira contínua.

Os R$ 2,36 bilhões acumulados desde 2015 mostram que essa conversão já começou.

Mas o número que melhor revela a mudança talvez seja outro: 79% do financiamento apareceu somente nos últimos três anos.

Se a carteira de novas plantas sair do papel, a próxima década poderá mostrar se esse salto recente foi apenas uma aceleração pontual ou o início de uma nova indústria de gás renovável no país.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

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