Faça um comentário
8 min de leitura
Brasil pode mobilizar R$ 216 bilhões em investimentos privados em biogás e biometano nos próximos anos
Escrito por Ana Alice
Publicado em 04/10/2026 às 23:42
Atualizado em 04/10/2026 às 23:49
Energia Renovável
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Um plano para ampliar o uso de biogás e biometano projeta investimentos bilionários no Brasil e prevê uma transformação no transporte pesado, além de novas oportunidades para agricultura, indústria e produção nacional de combustíveis renováveis.
O Brasil pode mobilizar R$ 216 bilhões em investimentos privados em biogás e biometano até 2035 caso avance um conjunto de medidas para ampliar a produção e criar novos mercados para esses combustíveis renováveis.
Entre as propostas está a criação de corredores logísticos capazes de ajudar a colocar mais de 40 mil caminhões movidos a biometano nas estradas brasileiras no mesmo período.
As projeções fazem parte do Plano para o Desenvolvimento dos Setores de Biogás e Biometano, divulgado em 20 de agosto pela Associação Brasileira do Biogás e do Biometano, a ABiogás.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
O estudo também calcula que a expansão da cadeia poderia gerar R$ 57 bilhões por ano em receitas adicionais e mais de 251 mil empregos diretos, desde que as medidas propostas sejam efetivamente implementadas.
Os números mostram que a projeção de R$ 216 bilhões não representa um investimento já contratado.
Trata-se do volume de capital privado que, segundo a ABiogás, poderia ser mobilizado até 2035 com avanços em infraestrutura, demanda, financiamento e regulamentação.
Atualmente, menos de 2% do potencial brasileiro estimado de produção de biometano é aproveitado.
A associação calcula que o país poderia produzir até 120 milhões de metros cúbicos por dia, volume que ajuda a explicar a dimensão dos investimentos projetados para os próximos anos.
Mais de 40 mil caminhões poderão usar biometano
Uma das principais apostas está no transporte pesado, setor em que substituir o diesel por eletricidade ainda encontra limitações relacionadas à autonomia, infraestrutura e peso das baterias em determinadas operações.
O plano propõe a criação de corredores logísticos para veículos movidos a gás e biometano, permitindo que caminhões tenham pontos de abastecimento distribuídos em rotas estratégicas.
A meta apresentada pela ABiogás é criar condições para que mais de 40 mil caminhões movidos a biometano sejam incorporados às frotas brasileiras até 2035.
O número não significa que esses veículos já tenham sido encomendados.
A projeção depende da ampliação dos pontos de abastecimento, disponibilidade do combustível, aquisição de veículos compatíveis e desenvolvimento do mercado nos próximos anos.
Algumas empresas já começaram a testar essa rota.
A Copersucar, por exemplo, informou em agosto que 70 caminhões de sete transportadoras já haviam sido convertidos para utilização de biometano dentro de sua cadeia logística.
A companhia desenvolveu o projeto BioRota para ampliar o uso do combustível no transporte relacionado às operações de açúcar e etanol.
O próprio marco legal brasileiro passou a incluir entre seus objetivos o incentivo à fabricação, aquisição e utilização de veículos pesados movidos a metano, além da conversão de veículos que utilizam outros combustíveis.
Plano também prevê 16 mil ônibus movidos pelo combustível
A expansão não ficaria restrita às rodovias.
A ABiogás estima que o biometano também poderia avançar no transporte público, chegando a 16 mil ônibus distribuídos por 20 cidades brasileiras até 2035.
A ideia é aproveitar uma característica importante do combustível: ele pode ser produzido em diferentes regiões a partir de resíduos disponíveis localmente, incluindo material proveniente do agronegócio, aterros sanitários e tratamento de resíduos.
Isso permite aproximar parte da produção dos locais de consumo.
Ainda assim, a expansão em grande escala depende da construção de infraestrutura de abastecimento e de contratos capazes de garantir demanda por longos períodos.
Em São Paulo, estudos sobre o setor apontam justamente a falta de infraestrutura como uma das barreiras para ampliar o uso de biometano no transporte pesado.
Corredores de abastecimento aparecem como uma das alternativas para permitir que frotas utilizem o combustível em trajetos maiores.
Brasil aproveita menos de 2% de seu potencial de biometano
A diferença entre o que o país produz atualmente e seu potencial estimado está no centro das projeções para o setor.
Segundo a ABiogás, o Brasil possui capacidade potencial para produzir até 120 milhões de metros cúbicos de biometano por dia, enquanto o aproveitamento atual permanece abaixo de 2% desse volume.
Dados divulgados pela entidade em junho de 2026 mostravam 69 unidades produtoras de biometano cadastradas, sendo 21 autorizadas para comercialização e outras 48 em processo de autorização.
Caso os projetos avancem, a capacidade instalada poderia chegar a aproximadamente 3,37 milhões de metros cúbicos por dia até 2028, segundo informações reunidas pela associação a partir de dados da ANP.
O mercado parte de uma cadeia de biogás já maior.
O Panorama do Biogás 2025, citado pela ABiogás, contabilizou 1.803 plantas cadastradas no país, das quais 1.727 estavam em operação.
A capacidade instalada de produção de biogás alcançava aproximadamente 4,96 bilhões de metros cúbicos por ano.
Biogás e biometano não são a mesma coisa
Embora apareçam juntos com frequência, biogás e biometano representam etapas diferentes da cadeia.
O biogás surge da decomposição de matéria orgânica em ambiente sem oxigênio.
Resíduos de criação animal, restos agrícolas, material de aterros sanitários, esgoto e subprodutos da indústria podem servir como matéria-prima.
Esse gás contém principalmente metano e dióxido de carbono, além de outros componentes.
Quando o biogás passa por um processo de purificação que aumenta sua concentração de metano e remove impurezas, o produto resultante é o biometano.
Por apresentar características próximas às do gás natural fóssil, o biometano pode ser empregado como combustível em caminhões, ônibus e equipamentos industriais, além de ser utilizado em diferentes processos produtivos.
É justamente essa versatilidade que leva o setor a buscar mercados além da geração tradicional de eletricidade.
Agricultura poderá gerar combustível e fertilizantes
Outra frente prevista no plano envolve o agronegócio.
Além de produzir energia a partir de resíduos agrícolas e pecuários, sistemas de biodigestão geram um material conhecido como digestato, que pode ser utilizado na produção de biofertilizantes.
A ABiogás considera esse aproveitamento uma das maneiras de ampliar a escala econômica do setor e reduzir parte da dependência brasileira de insumos importados.
O plano também prevê o uso do biometano como insumo para produção de fertilizantes nitrogenados, substituindo parte do gás de origem fóssil empregado atualmente.
Essa frente ganha importância porque o estudo parte do diagnóstico de que a dependência de combustíveis e insumos importados deixa o país mais vulnerável a oscilações internacionais de oferta e preços.
Segundo as projeções apresentadas pela associação, a expansão de biogás e biometano poderia ajudar a substituir R$ 42 bilhões por ano em importações.
Biometano pode abrir caminho para novos combustíveis
O plano não considera apenas o uso direto do gás renovável.
A cadeia também poderá fornecer matéria-prima para combustíveis destinados a setores em que reduzir emissões é mais complexo, como aviação e transporte marítimo.
Entre as rotas mencionadas estão Bio-GNL, combustível sustentável de aviação, conhecido como SAF, e-metanol e combustíveis produzidos a partir de dióxido de carbono de origem biogênica.
Isso amplia o papel potencial dos resíduos orgânicos.
Em vez de serem utilizados apenas para geração de eletricidade ou calor, eles podem alimentar cadeias destinadas ao transporte rodoviário, marítimo e aéreo.
A expansão, porém, exige novas plantas, tecnologia, logística e compradores dispostos a assumir contratos capazes de justificar investimentos de longo prazo.
Setor calcula redução de R$ 42 bilhões em importações
A substituição de produtos importados é outra parte relevante das projeções.
De acordo com a ABiogás, a implementação coordenada das dez iniciativas poderia gerar R$ 57 bilhões anuais em novas receitas para o setor e substituir cerca de R$ 42 bilhões em importações todos os anos.
O estudo também estima a possibilidade de evitar mais de 230 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente por ano.
A associação calcula que esse volume se aproxima de 10% das emissões brutas brasileiras de gases de efeito estufa consideradas na elaboração do plano.
Esses valores são projeções condicionadas à implementação das medidas propostas e não representam resultados já alcançados.
Entre as mudanças defendidas estão mecanismos de financiamento, expansão da infraestrutura, regras para certificados ambientais e medidas destinadas a dar maior previsibilidade aos investidores.
Lei do Combustível do Futuro abriu novo mercado para o biometano
Parte desse movimento ganhou respaldo regulatório com a Lei do Combustível do Futuro, sancionada em 2024.
A legislação criou o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano, estabelecendo mecanismos para ampliar a participação do combustível renovável no mercado de gás.
Em 2026, a ANP aprovou regras para individualização das metas dos produtores e importadores de gás natural e para emissão do Certificado de Garantia de Origem do Biometano, o CGOB, usado para rastrear a origem e comercialização do combustível renovável.
O Conselho Nacional de Política Energética definiu para 2026 uma meta de redução de 0,5% das emissões do mercado de gás natural por meio do biometano.
A combinação entre novas regras, crescimento da oferta e aumento da demanda é parte do cenário utilizado pelo setor para projetar sua expansão na próxima década.
Caso as medidas propostas avancem, os R$ 216 bilhões em investimentos privados não ficariam concentrados apenas na produção do gás.
O volume envolveria novas plantas, infraestrutura, abastecimento, transporte, agricultura, combustíveis avançados e outros segmentos conectados à cadeia.
No transporte, a transformação seria particularmente visível.
A projeção de mais de 40 mil caminhões e 16 mil ônibus movidos a biometano até 2035 mostra a dimensão do mercado que a indústria pretende construir a partir de um combustível produzido, em grande parte, com resíduos que hoje ainda são pouco aproveitados no país.
Tags
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

