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Brasileiros criam carne de frango em laboratório usando células vivas e uma estrutura produzida por bactérias

Brasileiros criam carne de frango em laboratório usando células vivas e uma estrutura produzida por bactérias

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Brasileiros criam carne de frango em laboratório usando células vivas e uma estrutura produzida por bactérias

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 29/10/2026 às 15:47

Ciência e Tecnologia

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Embrapa cria carne de frango em laboratório com células vivas de galinha e estrutura comestível feita por bactérias. Estudo viu frango parecido com o de granja.

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Pesquisadores da Embrapa Suínos e Aves criaram em laboratório um protótipo de carne de frango com células-tronco de galinha e uma estrutura comestível feita por bactérias. O estudo, publicado em 2025, mostrou que as células continuaram vivas e que o frango cultivado ficou visualmente parecido com o frango de granja.

Pesquisadores brasileiros da Embrapa criaram em laboratório um protótipo de carne de frango usando células vivas de galinha e uma estrutura comestível produzida por bactérias. A estrutura é feita de nanocelulose bacteriana, fibras finíssimas que uma bactéria fabrica. Ela dá à carne de frango cultivada um formato parecido com o da carne de frango comum.

O estudo foi publicado em 2025 na revista científica NPJ Science of Food, segundo o repositório Alice, da Embrapa. Detalhes do projeto, das metas e das falas das pesquisadoras vêm de texto da jornalista Monalisa Leal Pereira, da Embrapa Suínos e Aves, unidade que fica em Santa Catarina.

O que é a carne de frango cultivada em laboratório

Embrapa cria carne de frango em laboratório com células vivas de galinha e estrutura comestível feita por bactérias. Estudo viu frango parecido com o de granja.

A carne cultivada é feita a partir de células de um animal, e não do animal abatido. As células são retiradas do animal e crescem primeiro num líquido nutritivo, em laboratório, e depois em grandes biorreatores, que são tanques onde as células se multiplicam.

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Segundo a Embrapa, essa técnica recria tecidos de animais em laboratório. O resultado é uma carne parecida com a natural. O estudo chama a carne cultivada de uma alternativa de proteína considerada sustentável.

Células de frango vieram de ovos sem doenças

Os cientistas usaram células-tronco mesenquimais de frango, tiradas de ovos livres de patógenos, ou seja, sem micróbios que causam doenças. Célula-tronco é uma célula “coringa”, que ainda pode virar vários tipos de célula.

Segundo a Embrapa, as células usadas no projeto vêm de frangos do plantel genético da empresa, o grupo de aves que ela cria e melhora há anos.

Bactéria produz a estrutura da carne de frango

A estrutura da carne de frango de laboratório veio de uma bactéria chamada Novacetimonas hansenii. Cultivada em laboratório, essa bactéria produziu a nanocelulose em forma de hidrogel, um gel cheio de água.

Essa nanocelulose bacteriana serve de “esqueleto” para as células de frango. Segundo o estudo, ela foi usada para dar à carne cultivada uma estrutura parecida com a da carne de frango tradicional. O título do artigo diz que essa estrutura é comestível.

Células de frango cresceram em camadas e em bolinhas

As células de frango foram cultivadas de dois jeitos. No jeito 2D, elas crescem em uma camada única e achatada. No jeito 3D, elas se juntam em pequenas bolinhas chamadas esferoides.

Depois, as camadas e os esferoides de células de frango foram colocados dentro da nanocelulose feita pela bactéria. Segundo o estudo, o formato 3D imita melhor o ambiente natural das células e aumenta a capacidade delas de virar tipos específicos de célula.

Células continuaram vivas dentro da estrutura

O resultado mostrou que as células de frango mantiveram a forma, continuaram vivas e conservaram a capacidade de célula-tronco. Isso valeu tanto para os esferoides 3D quanto para as camadas 2D, segundo o artigo.

As células de frango já transformadas em tipos específicos também cresceram bem nos dois tipos de hidrogel de nanocelulose, o modificado e o não modificado.

Carne de frango de laboratório ficou parecida com a de granja

A organização das células de frango ficou parecida com a de um tecido de verdade, principalmente na nanocelulose modificada, segundo o estudo. As análises visuais mostraram semelhanças significativas entre o frango cultivado e o frango de granja.

Os autores dizem que o protótipo de frango cultivado com nanocelulose se mostrou promissor. Para eles, juntar células 2D e 3D no mesmo cultivo pode ajudar a criar produtos de carne cultivada.

Estudo do frango de laboratório saiu em 2025 na revista NPJ Science of Food

O artigo se chama, em inglês, “Cultured chicken meat developed by structuring cellular spheroids on an edible bacterial nanocellulose bioscaffold”. Em português, algo como “carne de frango cultivada feita com esferoides de células numa estrutura comestível de nanocelulose bacteriana”. O estudo saiu no volume 9 da revista NPJ Science of Food, em 2025, e tem acesso aberto.

Assinam o trabalho Karla Pollyanna Vieira de Oliveira, Ana Paula Almeida Bastos, Ana Livia de Carvalho Bovolato, F. A. V. Bellaver, Vanessa Gressler, Vicky Lilge Kawski, Vanessa Haach, Anildo Cunha Junior, Mauricio Egidio Cantão, Karine Renata Dias Silveira, Arlei Coldebella e Vivian Feddern.

Embrapa quer um filé de frango parecido com o sassami

O projeto da Embrapa Suínos e Aves busca um produto parecido com o sassami, o filé de peito de frango sem osso. Segundo o texto da Embrapa, os protótipos de filé deveriam estar prontos para análises de nutrição e de sabor até o fim de 2023.

A pesquisadora-líder do projeto do frango cultivado é Vivian Feddern. O texto da Embrapa chama o estudo de pioneiro no Brasil.

Projeto do frango de laboratório venceu seleção internacional em 2021

O projeto do frango cultivado foi aprovado num edital internacional do The Good Food Institute (GFI), uma organização não governamental que junta dinheiro e financia projetos pelo mundo. Dos 22 projetos escolhidos em 2021, cinco eram brasileiros, entre eles o da Embrapa Suínos e Aves.

Por que a Embrapa escolheu a carne de frango

A Embrapa escolheu a carne de frango porque ela é uma das proteínas mais versáteis e é consumida em todo o Brasil. O frango também é um dos alimentos mais completos em nutrientes, importante para uma alimentação saudável, segundo o texto.

Outra vantagem é o acesso ao banco genético de aves da Embrapa Suínos e Aves.

Estrutura de nanocelulose começou na UFSC

As estruturas 3D de nanocelulose bacteriana foram desenvolvidas no começo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), segundo Feddern. Elas têm tamanho e aparência parecidos com cortes de peito de frango sem células, por isso servem de suporte para o cultivo das células de frango.

As células entram na celulose pela técnica de perfusão, em que um líquido passa por dentro da estrutura. É um método parecido com o usado para colocar células de volta em órgãos.

Pesquisadoras testaram como fazer as células de frango grudarem

Na época do texto da Embrapa, a pesquisa do frango cultivado estava na fase de melhorar a forma como as células grudam e se multiplicam dentro da celulose. A equipe planejava testar o cultivo com e sem microcarreadores, pequenas peças que ajudam a levar as células.

“Existem diferentes possibilidades para viabilizar o transporte das células para dentro do tecido, para a fixação e desenvolvimento. Vamos testar com e sem microcarreadores, por exemplo”, disse a pesquisadora.

Carne de frango cultivada pode virar hambúrguer ou filé

A carne cultivada pode ser usada em alimentos sem estrutura, como hambúrgueres, embutidos e almôndegas. Também pode virar alimentos com estrutura, como filés e bifes, segundo a Embrapa.

Fazer um peito de frango é mais difícil, porque ele precisa de estrutura. “Algumas empresas, como BRF, JBS e Cellva Ingredients já começaram a investir nas pesquisas para produzir carne cultivada e ingredientes, como a gordura suína cultivada. A maioria está focada em produtos não estruturados, como é o caso de hambúrgueres, diferente de um peito de frango que precisa de estrutura. Como o processo é mais complexo, ainda temos um caminho pela frente”, disse Feddern.

Consumo de carne de aves deve chegar a 131 milhões de toneladas

O mercado mundial de carne de aves vem crescendo. Órgãos como a OECD-FAO estimam um consumo de cerca de 131 milhões de toneladas em 2026, segundo o texto da Embrapa. Para os pesquisadores, isso abre espaço para empresas buscarem novas formas de produção, como a carne de frango cultivada.

Canadá, República Tcheca, Estados Unidos, Japão, Israel, França, África do Sul e Suíça já estudam a carne de frango cultivada, de acordo com a Embrapa.

Singapura liberou frango cultivado em 2020

Em 2020, Singapura aprovou a venda de frango empanado cultivado, feito pela empresa Eat Just. Em 2022, a FDA, agência dos Estados Unidos, aprovou o frango cultivado da Upside Foods, da Califórnia.

Também em 2022, o parlamento da Holanda liberou a degustação de carne cultivada em condições controladas. Foi na Holanda que o farmacologista Mark Post apresentou um hambúrguer cultivado em 2013, diante de 200 jornalistas e acadêmicos. Post é cofundador da empresa Mosa Meat. Em Israel, segundo a Embrapa, há fila de espera em restaurantes para provar produtos cultivados.

Brasil ainda não tem lei para a carne cultivada

No Brasil, ainda não existe lei sobre a carne cultivada, segundo o texto da Embrapa. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) está criando o Plano Nacional de Proteínas Alternativas (PNPA).

O plano inclui alimentos com proteína vinda de plantas, insetos, fungos, algas e outras fontes, feitos por métodos tradicionais, fermentação, cultivo de células e processos novos.

Carne de laboratório pode reduzir impacto no ambiente, diz pesquisadora

Para Feddern, a produção animal tradicional afeta o ambiente no uso da terra e da água, na natureza e na emissão de gases de efeito estufa, que esquentam o planeta. “Dessa forma, a carne cultivada se apresenta como grande aliada ao enfrentamento desses desafios”, disse.

Segundo a Embrapa, a técnica também pode reduzir ou acabar com o uso de antimicrobianos, remédios contra micróbios. Isso acontece porque as células crescem num ambiente controlado, sem contato com o lado de fora.

Carne cultivada não quer substituir a carne tradicional

A carne cultivada não pretende tomar o lugar da produção tradicional de carne, segundo a Embrapa. A ideia é que as duas formas existam juntas.

O texto diz que a carne de laboratório pode ajudar a oferecer mais proteína para uma população que cresce. Também pode diminuir preocupações com o abate de animais, a resistência a antibióticos e doenças que passam dos animais para as pessoas.

Biobanco de células de frango vai agilizar a pesquisa

O projeto trabalha com células-tronco adultas e embrionárias de galinha, além de células de músculo (miócitos), de sustentação dos tecidos (fibroblastos) e de gordura (adipócitos). Durante a pesquisa, a equipe viu que era preciso criar um biobanco de células de frango, um estoque de células guardadas para uso.

Segundo a pesquisadora Ana Paula Bastos, o biobanco pode reduzir muito a necessidade de começar culturas de células de frango do zero toda vez. A ideia do biobanco saiu da I Jornada da Carne Cultivada, feita pela Embrapa Suínos e Aves em agosto de 2022.

Biobanco de frango poderá ser licenciado para empresas

Bastos diz que não haverá problema de licença para usar as células, porque elas vêm das aves do programa de melhoramento genético da Embrapa. Ela também cuida de outra parte do projeto: o método para cultivar a bactéria que produz a nanocelulose.

“A criação de um biobanco institucional da Embrapa com linhagens celulares caracterizadas e destinadas à produtos cárneos cultivados poderá ser licenciada, o que reduzirá significativamente a barreira de entrada de pesquisadores, startups e indústria interessados na carne cultivada”, disse Bastos.

Consumidor topa provar a carne cultivada, mas tem dúvidas

A equipe da Embrapa Suínos e Aves fez uma pesquisa com consumidores entre fevereiro e março de 2022. Os participantes disseram estar dispostos a experimentar a carne cultivada e a veem como uma tendência positiva. Mas ainda têm dúvidas sobre segurança, valor nutritivo, sabor, textura e modo de produção.

A pesquisa usou um questionário pela internet e um vídeo de cerca de oito minutos sobre os prós e os contras da carne cultivada. Responderam moradores de cidades da Região Sul do Brasil com menos de 150 mil habitantes.

Embrapa quer oferecer biobanco de frango a empresas do setor

Segundo Feddern, o tema ainda divide opiniões, até entre pesquisadores, porque o produto não está à venda no Brasil. Para ela, o Brasil, um dos maiores fornecedores de proteína animal do mundo, deve estar na frente nesse assunto.

“Com essa proposta de alimento inovador, o Brasil pode contribuir com a produção de massa cárnea, ingredientes, e a Embrapa oferecer um biobanco, servindo de apoio para as empresas/startups existentes e novas que estão por serem lançadas no mercado”, disse a pesquisadora. O estudo de 2025 classifica o protótipo de carne de frango cultivada como promissor.

Na sua opinião, você comeria uma carne de frango feita em laboratório com células e uma estrutura produzida por bactérias? Deixe sua opinião nos comentários.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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