Faça um comentário
6 min de leitura
Caminhão de 8 eixos pode pagar pedágio como se tivesse 12 nas novas concessões federais; entidades contestam regra e projetam R$ 42 bilhões em custos extras no transporte brasileiro
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 12/10/2026 às 09:34
Atualizado em 12/10/2026 às 09:35
Logística e Transporte
Grupo
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Novas concessões federais preveem cobrança que eleva a equivalência tarifária de caminhões de 8 para 12 eixos. ANUT calcula até R$ 42 bilhões em pedágios extras ao longo de sete contratos; governo defende a regra.
Uma mudança no cálculo dos pedágios de novas concessões federais pode encarecer o transporte de cargas e passageiros no Brasil. O multiplicador aplicado aos veículos comerciais passa da relação de duas para três vezes a referência tarifária, enquanto a Associação Nacional dos Usuários do Transporte de Carga (ANUT) projeta R$ 42 bilhões em despesas adicionais em sete projetos rodoviários ao longo dos contratos.
A estimativa levou o setor a questionar o governo federal. Em manifestações retomadas em outubro, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) cobrou transparência sobre os estudos que justificam a mudança. O Ministério dos Transportes defende o modelo e afirma que ele distribui a receita das concessões conforme as características de cada veículo.
Caminhão de oito eixos passa a ter equivalência tarifária de 12 eixos
A mudança está prevista em projetos da sexta etapa do Programa de Concessões de Rodovias Federais. Na definição do multiplicador, a proporção aplicada aos veículos comerciais passa de 1:2 para 1:3 em relação à Tarifa Básica de Pedágio, valor de referência adotado na modelagem das concessões.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Segundo o presidente executivo da ANUT, Luis Baldez, um caminhão com oito eixos passa a ter equivalência tarifária de 12 eixos. Um veículo de nove eixos passa à equivalência de 13,5. O fator cresce 50%, mas o preço final em cada praça depende também do edital, do contrato e do desconto oferecido no leilão.
ANUT calcula R$ 42 bilhões extras em sete projetos de concessão
Os R$ 42 bilhões representam uma projeção acumulada de cobrança adicional durante a vigência dos contratos de sete projetos. Não são uma despesa anual nem um montante que já tenha sido desembolsado por caminhoneiros e transportadoras.
A apuração da MundoLogística, publicada em julho, identifica Rota Gerais, Rota dos Sertões, Rota 2 de Julho, Rota Portuária do Sul, dois lotes da Rota de Santa Catarina e Rota do Café. O cálculo da ANUT projeta a diferença entre a cobrança com o multiplicador anterior e a cobrança prevista nos novos modelos.
Na Rota Gerais, alteração pode pesar cerca de 6% na tarifa final
O exemplo da Rota Gerais ajuda a entender a diferença entre o multiplicador e o preço pago pelo motorista. Para a concessão das BR-116 e BR-251, em Minas Gerais, a CNT estimou efeito de aproximadamente 6% na tarifa final decorrente da alteração. O resultado varia com a estrutura econômico-financeira de cada projeto.
O corredor tem 734,9 quilômetros e foi leiloado em 31 de março de 2026. A ANTT informou que a EcoRodovias venceu a disputa com desconto de 19% sobre a tarifa básica e aporte de R$ 84,35 milhões. A agência aprovou a outorga em junho, etapa que abriu caminho para a assinatura do contrato.
Entidades pedem explicações sobre o cálculo adotado pelo governo
A CNT solicitou ao Ministério dos Transportes os fundamentos técnicos, econômicos e regulatórios do novo parâmetro. Para a confederação, o sistema de cobrança já faz distinção entre veículos de acordo com a quantidade de eixos, fazendo caminhões maiores pagarem valores superiores.
Em manifestação divulgada em outubro e reproduzida pelo SETCERGS, o presidente da CNT, Vander Costa, pediu avaliação dos efeitos sobre transportadores, passageiros e cadeia produtiva. A entidade também defende que cada concessão seja estudada individualmente, levando em conta tráfego, investimento previsto e receita possível.
Ministério argumenta que caminhões exigem mais manutenção e atendimento
Em resposta à MundoLogística, o Ministério dos Transportes afirmou que a mudança procura distribuir os custos entre categorias de usuários. A pasta citou o desgaste do pavimento causado por veículos pesados, a ocupação da capacidade das vias e a demanda por remoção de caminhões, inspeção de tráfego e atendimento a ocorrências.
O ministério declarou que a alteração do fator não implica necessariamente aumento proporcional da receita global das concessionárias. Na modelagem da Rota Gerais, apresentou redução da tarifa quilométrica de referência de R$ 0,1779 para R$ 0,1232 após a mudança na distribuição tarifária. A ANTT confirmou ter incorporado às modelagens a diretriz definida pelo ministério.
Associação recorreu ao TCU e contestou a ausência de debate específico
A disputa começou meses antes das manifestações de outubro. Em julho, a ANUT disse ter enviado questionamentos à ANTT, ao Ministério dos Transportes e ao Tribunal de Contas da União (TCU). A entidade criticou a ausência de uma análise de impacto regulatório e de uma audiência pública específica sobre os novos multiplicadores.
A associação afirmou ter identificado a mudança ao examinar os estudos da Rota Portuária do Sul, no Rio Grande do Sul, e depois verificou o critério no projeto da Rota Gerais. Baldez chamou a nova equivalência tarifária de “caminhão fantasma”, expressão usada por ele para contestar o pagamento calculado sobre mais eixos do que os existentes no veículo.
Transporte de arroz, sal e celulose pode ficar mais caro
O pedágio integra o custo de cada viagem e pesa ainda mais em rotas longas que atravessam várias praças. Transportadoras e embarcadores podem ter de revisar a composição do frete se os novos contratos resultarem em desembolso maior por caminhão.
A ANUT mencionou arroz, sal, areia, papel e celulose entre os produtos sensíveis a custos logísticos mais altos, sobretudo por seu baixo valor agregado em relação à despesa de transporte. Qualquer efeito sobre os preços ao consumidor dependerá da rota, da negociação do frete, do mercado de cada mercadoria e das tarifas efetivamente contratadas.
Ônibus também podem sentir efeito da mudança nas concessões
A metodologia alcança veículos comerciais de passageiros. Operadores de ônibus que utilizarem corredores concedidos sob os novos parâmetros poderão enfrentar custos de pedágio mais elevados, de acordo com a classificação dos veículos e com as tarifas de cada projeto.
A CNT alertou para reflexos possíveis nas passagens rodoviárias. A confederação também defende analisar a viabilidade econômica de cada estrada e admite a necessidade de investimento público em corredores estratégicos onde a exploração exclusivamente privada não seja suficiente.
Valor definitivo dependerá das próximas licitações e dos contratos
A discussão envolve novos projetos federais, sem reajuste automático dos pedágios de contratos antigos em todo o país. Para calcular o gasto concreto de uma viagem, o transportador precisará considerar o trajeto, as praças, a categoria do caminhão e as tarifas aprovadas para cada concessão.
A ANUT defende a revisão dos multiplicadores, a CNT quer acesso aos estudos e o Ministério dos Transportes sustenta a redistribuição de custos entre veículos. As decisões tomadas nos contratos e nas licitações determinarão quanto os operadores desembolsarão e qual parcela poderá chegar à conta do frete nos próximos anos.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

