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Cientistas brasileiros usam capacete, óculos e sensores para investigar como transtornos mentais se desenvolvem desde a infância
Escrito por Ruth Rodrigues
Publicado em 27/10/2026 às 12:16
Atualizado em 27/10/2026 às 12:20
Ciência e Tecnologia
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Pesquisa em saúde mental no Brasil utiliza tecnologia MoBILab para monitorar cérebro e corpo e investigar fatores associados a transtornos mentais.
Uma pesquisa brasileira que acompanha 2.500 jovens há mais de 15 anos ganhou um novo recurso tecnológico para investigar a saúde mental entre diferentes gerações. Integrantes do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) passaram a contar com o MoBILab, plataforma instalada em unidades hospitalares de São Paulo e Porto Alegre que reúne registros cerebrais, movimentos dos olhos e sinais fisiológicos. A proposta é ampliar a investigação de fatores associados ao desenvolvimento de transtornos mentais, utilizando medições feitas durante atividades do cotidiano.
A novidade será aplicada aos filhos de pessoas que já participam do projeto Conexão Mentes do Futuro, também denominado Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (BHRC). Com isso, os cientistas poderão relacionar informações clínicas acumuladas ao longo dos anos com novas avaliações biológicas realizadas nos descendentes.
Estudo de saúde mental passa a investigar informações de três gerações
O acompanhamento desenvolvido pelo CISM reúne participantes de São Paulo e Porto Alegre e busca compreender a influência de fatores genéticos e ambientais no surgimento de transtornos mentais. Ao longo da pesquisa, foram reunidos históricos clínicos que agora poderão ser utilizados em conjunto com os registros produzidos pela nova plataforma.
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Além dos jovens acompanhados desde o início do estudo, os pesquisadores também trabalham com informações de seus pais. A inclusão dos filhos dos participantes amplia essa investigação para uma terceira geração, permitindo observar possíveis relações entre características familiares, trajetórias individuais e respostas fisiológicas.
André Simioni, pesquisador do CISM, explica que o uso do equipamento permitirá comparar diagnósticos e experiências de vida dos pais com sinais biológicos identificados nos descendentes. Entre os dados considerados estão registros elétricos do cérebro, movimentação ocular e outras respostas do organismo.
O objetivo é investigar manifestações relacionadas ao risco e à resiliência sem depender exclusivamente das informações relatadas pelos participantes ou seus responsáveis. Essa abordagem poderá contribuir para compreender diferenças individuais que nem sempre são identificadas apenas por meio de avaliações clínicas tradicionais.
Como funciona a tecnologia que registra sinais do cérebro e do organismo
O MoBILab foi instalado no Hospital das Clínicas de São Paulo e no Centro de Pesquisa Clínica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Sua principal característica é reunir diferentes instrumentos de medição em uma estrutura capaz de sincronizar informações enquanto os participantes executam determinadas atividades.
Um dos dispositivos utilizados é um capacete de eletroencefalografia, responsável por registrar a atividade elétrica cerebral. O conjunto também possui óculos que acompanham os deslocamentos dos olhos e identificam a direção para a qual a pessoa está olhando durante a avaliação.
Os registros não ficam restritos a essas duas medidas. A plataforma permite observar movimentos corporais, padrões respiratórios, expressões faciais e aspectos relacionados à fala, além de acompanhar respostas motoras e cognitivas. Para ampliar o monitoramento fora das sessões de coleta, os participantes também utilizarão uma pulseira destinada ao registro de sinais fisiológicos no dia a dia.
A combinação dessas informações permite examinar como diferentes funções do organismo se comportam ao mesmo tempo. Dessa maneira, os pesquisadores poderão investigar relações entre atividade cerebral, respostas corporais e situações que fazem parte do desenvolvimento de crianças e jovens.
Vídeos, desenhos e exercícios fazem parte das avaliações
As sessões de coleta duram aproximadamente 90 minutos e incluem atividades elaboradas para observar diferentes funções cerebrais e corporais. Em vez de analisar apenas respostas isoladas, os pesquisadores acompanham os participantes durante exercícios que envolvem atenção, coordenação motora e outras habilidades cognitivas.
Parte do procedimento utiliza materiais apresentados na tela de um computador. Os participantes assistem a animações e outros conteúdos audiovisuais, enquanto os equipamentos registram suas reações. Também são realizadas atividades de reprodução de sons por meio de um microfone.
Em outros momentos, os voluntários precisam completar sequências de letras e números ou desenhar linhas tracejadas com as duas mãos. Essas tarefas podem mobilizar diferentes regiões cerebrais e ajudam a produzir informações sobre o funcionamento motor e cognitivo.
A estrutura tecnológica também possibilita avaliações relacionadas a experiências comuns fora do ambiente de pesquisa. Entre elas estão a interação com aplicativos e a exposição a vídeos do YouTube, permitindo investigar respostas neurológicas e fisiológicas durante situações presentes na rotina de muitas pessoas.
Diagnósticos precoces estão entre os objetivos futuros da pesquisa
A expectativa dos cientistas é que a integração entre os registros biológicos e o histórico clínico das famílias ajude a identificar características associadas ao desenvolvimento de condições de saúde mental.
Essas informações poderão contribuir para novas estratégias de investigação e, futuramente, para abordagens mais individualizadas de identificação e acompanhamento de transtornos. A proposta inclui ampliar o conhecimento sobre sinais que possam indicar maior vulnerabilidade ou capacidade de adaptação diante de determinados fatores.
Entretanto, a identificação antecipada de transtornos mentais permanece como um objetivo científico. A implantação do MoBILab não significa que o equipamento já seja capaz de estabelecer diagnósticos precoces de forma comprovada.
Para a equipe do CISM, o avanço está na possibilidade de analisar informações de diferentes naturezas em uma mesma investigação, relacionando o funcionamento do cérebro e do corpo às trajetórias familiares acompanhadas durante anos.
Investimentos de R$ 1,5 milhão e R$ 22,8 milhões apoiam expansão da pesquisa
A implantação do MoBILab no Brasil foi viabilizada por uma parceria entre o CISM e o Child Mind Institute, organização internacional sem fins lucrativos. O projeto recebeu um investimento de R$ 1,5 milhão, com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Stavros Niarchos Foundation Global Center, ligado ao instituto parceiro.
Como parte dessa cooperação, André Simioni participou de um treinamento para operar a plataforma na sede do Child Mind Institute, em Nova York. O equipamento também será integrado às atividades do Módulo IV do CISM, núcleo de pesquisa lançado em 2026 com foco na saúde mental de crianças, adolescentes e jovens adultos.
Diferentemente do valor destinado à plataforma, o investimento relacionado ao novo núcleo é de R$ 22,8 milhões, aportados pela FAPESP e pela Stavros Niarchos Foundation. Os recursos estão associados à ampliação das pesquisas em neurociência, ciência de dados, epidemiologia de base populacional e assistência em saúde mental.
Sediado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), o CISM integra a estrutura de Centros de Pesquisa Aplicada da FAPESP. Sua equipe também reúne pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Centro Universitário Max Planck, em Indaiatuba, e Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ).
Com o avanço da coleta multimodal, o projeto poderá acrescentar informações sobre o funcionamento cerebral e fisiológico dos descendentes à base de dados construída ao longo de mais de uma década. A integração desses registros representa uma nova possibilidade de investigação sobre como fatores associados à saúde mental se manifestam entre gerações, sem antecipar resultados que ainda dependem das análises científicas.
Fonte
Agência FAPESP
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ruth Rodrigues.

