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CNI alerta para riscos de El Niño intenso na agricultura, no transporte e na infraestrutura do Brasil
Escrito por Andriely Medeiros de Araújo
Publicado em 28/10/2026 às 16:17
Atualizado em 28/10/2026 às 16:21
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El Niño 2026/2027 pode afetar safras, hidrovias e infraestrutura. CNI e Banco do Brasil alertam para riscos de seca, fretes elevados e chuvas intensas.
A possibilidade de interrupções no transporte pelos rios amazônicos, perdas na produção agrícola e danos à infraestrutura provocados por chuvas intensas levou a indústria brasileira a discutir os riscos de um Super El Niño em 2026/2027. Na terça-feira (27), representantes dos conselhos de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Coemas) e de Infraestrutura (Coinfra) da Confederação Nacional da Indústria (CNI) analisaram projeções climáticas apresentadas por especialistas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Banco do Brasil, buscando antecipar possíveis consequências para diferentes regiões do país.
O alerta envolve situações distintas. Enquanto determinadas áreas podem enfrentar temperaturas elevadas e escassez de chuvas, outras estão sujeitas a precipitações prolongadas. Essas diferenças preocupam setores que dependem diretamente das condições climáticas para manter suas operações.
Chuvas intensas podem comprometer estradas e pontes no Sul
No Rio Grande do Sul, a preocupação está relacionada ao excesso de água. As projeções apresentadas pelo Banco do Brasil indicam possibilidade de chuvas volumosas durante vários dias consecutivos no encerramento de 2026, aumentando a exposição dos municípios a alagamentos e dificuldades de circulação.
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Em condições associadas a um Super El Niño, a probabilidade de alagamentos municipais pode crescer mais de 4 pontos percentuais, conforme o estudo. O economista Julio Cesar da Cunha Lopes explicou que as consequências podem ultrapassar os centros urbanos, atingindo pontes e rodovias utilizadas no transporte de mercadorias.
Para o agronegócio, um dos riscos está na dificuldade de levar a produção aos terminais portuários. As ligações com os portos de Paranaguá e Rio Grande podem sofrer prejuízos caso ocorram interdições de estradas ou danos à infraestrutura viária.
Transporte na Amazônia pode perder capacidade e enfrentar fretes mais caros
A situação prevista para o Norte é diferente. A redução das vazões nos rios amazônicos representa um obstáculo para o deslocamento de embarcações, especialmente nas rotas utilizadas para abastecimento e transporte de produtos agrícolas.
No Porto de Manaus, um cenário severo de redução do calado de 11,5 metros para 8,3 metros significaria uma diminuição de 55% na capacidade de transporte de contêineres. A restrição também poderia provocar uma elevação de até 147% no custo do frete marítimo, segundo os dados apresentados durante a reunião.
As dificuldades não se restringem a Manaus. Nos rios Tapajós e Madeira, vazões inferiores ao padrão normal prejudicam a circulação de cargas importantes para diferentes cadeias produtivas, incluindo combustíveis, soja, fertilizantes e milho.
Diante dessas condições, Alex Carvalho, presidente do Coinfra, defendeu que decisões relacionadas à navegação e à dragagem sejam construídas com participação do governo e do setor produtivo. Para ele, o desenvolvimento das hidrovias precisa considerar simultaneamente critérios técnicos, ambientais, sociais e econômicos.
Agricultura enfrenta risco de menos chuvas, apesar das boas condições iniciais do solo
No campo, o cenário exige atenção principalmente em partes do Centro-Oeste e na região do Matopiba, formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Para novembro e dezembro, a avaliação climática do Banco do Brasil aponta possibilidade de temperaturas mais altas acompanhadas de precipitações abaixo do esperado.
Essas condições podem comprometer safras de cereais, grãos e oleaginosas. Entretanto, o levantamento também identificou um fator favorável para o início do plantio: os níveis de umidade e as reservas de água presentes no solo permanecem satisfatórios em grande parte do território brasileiro.
Essa disponibilidade inicial oferece alguma resistência às condições adversas, embora não elimine os riscos associados à continuidade do calor e à redução das chuvas nos próximos meses.
El Niño pode atingir intensidade histórica entre novembro e dezembro
Os dados climáticos apresentados na reunião ajudam a dimensionar a preocupação dos setores produtivos. Márcio Rojas da Cruz, coordenador-geral de Ciência do Clima do MCTI, apontou elevada probabilidade de um episódio expressivo em 2026/2027, com possibilidade de anomalias térmicas superiores a 2,5 °C no Pacífico Equatorial.
Já a avaliação econômica e setorial de Julio Cesar da Cunha Lopes, do Banco do Brasil, apresentou anomalias entre 3,0 °C e 3,7 °C, em um processo de intensificação mais rápido do que o observado no evento de 2015/2016. Segundo o especialista, esse comportamento coloca o fenômeno em posição de destaque na série histórica que remonta à década de 1950.
A maior intensidade está prevista para novembro e dezembro de 2026, período considerado decisivo para o planejamento das atividades econômicas. As projeções, contudo, representam cenários de risco e não significam que todos os impactos apresentados necessariamente ocorrerão.
CNI defende decisões antecipadas e maior integração entre ciência e infraestrutura
Entre as questões institucionais discutidas, a situação do Rio Tapajós ganhou atenção. Roberto Muniz, diretor de Relações Institucionais da CNI, relembrou a preocupação manifestada em agosto pelo Coinfra após a decisão do governo federal de não autorizar uma dragagem emergencial no rio.
Na avaliação da confederação, a intervenção preventiva, tecnicamente delimitada e prevista sem custos para o poder público poderia ajudar a enfrentar pontos críticos da navegação. A entidade considera que o adiamento aumenta a vulnerabilidade desse corredor logístico diante de um eventual Super El Niño.
A necessidade de respostas mais rápidas também foi defendida por Marcelo Thomé, presidente do Coemas. Ele destacou que os riscos climáticos podem comprometer o abastecimento, a economia e a segurança da população, tornando necessário aproximar os indicadores científicos das decisões dos setores produtivos.
Segundo Thomé, os segmentos financeiro e de seguros já conseguiram avançar nessa discussão, enquanto outras atividades econômicas ainda precisam desenvolver mecanismos de acompanhamento e reação.
Márcio Rojas da Cruz também ressaltou que o conhecimento científico deve orientar as políticas públicas, mas que as decisões envolvem fatores sociais e políticos. Como parte desse esforço, o MCTI prepara uma cartilha destinada a gestores e à sociedade, com orientações sobre o fenômeno e seus possíveis impactos.
Fonte
Portal da indústria
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Andriely Medeiros de Araújo.

