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Data centers e fábricas de hidrogênio podem colocar 54,2 GW de novas cargas na rede e obrigam Brasil a redesenhar a transmissão
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 07/10/2026 às 12:51
Atualizado em 07/10/2026 às 12:55
Energia Renovável
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Data centers e fábricas de hidrogênio somam 54,2 GW em pedidos de conexão e levam EPE a ampliar estudos para reforçar a rede elétrica brasileira.
Uma instalação capaz de consumir centenas de megawatts pode chegar a uma região antes de a rede elétrica estar pronta para alimentá-la. Quando dezenas desses projetos aparecem ao mesmo tempo, novas linhas e subestações precisam ser planejadas anos antes da primeira máquina ser ligada. Segundo a Brasil Energia, em notícia publicada em 6 de outubro de 2026, a Empresa de Pesquisa Energética ampliou os estudos da transmissão brasileira diante da chegada de data centers, projetos de hidrogênio e novas cargas industriais, além de regiões onde a capacidade disponível já enfrenta limitações.
O tamanho dessa mudança aparece no Plano Decenal de Expansão de Energia 2035: processos protocolados para conexão à Rede Básica somam 54,2 GW até 2038, sendo 26,3 GW ligados a data centers e 27,9 GW a projetos de hidrogênio. Esses números representam intenções de conexão, não empreendimentos garantidos, mas já são grandes o suficiente para obrigar o país a preparar a rede antes que a demanda chegue.
A rede está sendo planejada para consumidores que ainda nem começaram a operar
Por décadas, grande parte do desafio brasileiro foi construir linhas capazes de levar eletricidade das grandes usinas até cidades e indústrias.
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Agora aparece outro problema.
Data centers gigantes, fábricas de hidrogênio, novas instalações industriais e outros consumidores de alta potência podem concentrar uma demanda enorme em pontos específicos do sistema.
Não basta o Brasil produzir energia suficiente no total. Essa eletricidade precisa conseguir chegar ao lugar certo, no momento certo e com a segurança necessária.
Os projetos na fila chegam a 54,2 GW
Os números apresentados pela EPE ajudam a medir a escala.
Até 2038, os processos de conexão de grandes cargas protocolados no Ministério de Minas e Energia somavam 54,2 GW na base usada pelo PDE 2035. Os data centers respondiam por 26,3 GW.
Projetos relacionados à indústria de hidrogênio representavam outros 27,9 GW.
Para comparação, o próprio PDE observa que esse volume corresponde a uma parcela muito grande do pico atual de demanda do Sistema Interligado Nacional.
O número de projetos de data centers teve um “boom”
A mudança foi muito rápida. No PDE anterior, a EPE contabilizava 12 projetos de data centers, somando aproximadamente 2,5 GW.
Na atualização seguinte, o número saltou para 77 projetos, com 26,3 GW.
O crescimento acompanha a expansão da inteligência artificial, da computação em nuvem e do armazenamento de informações.
Um grande data center funciona continuamente.
Servidores, sistemas de refrigeração, equipamentos de segurança e redes de comunicação precisam receber energia 24 horas por dia.
Quando várias instalações desse tamanho tentam chegar à mesma região, a subestação que atendia fábricas e cidades pode não ter capacidade para absorver toda a nova carga.
São Paulo concentra um dos primeiros pontos de pressão
A EPE já identificou São Paulo como uma das regiões onde o desafio aparece com mais força. Em estudos apresentados neste ano, cerca de 8,8 GW de grandes cargas analisadas estavam concentrados no estado.
Assista o vídeo
São Paulo reúne vantagens importantes para data centers: grandes consumidores, telecomunicações, infraestrutura digital e proximidade com um dos maiores mercados do país.
Mas também possui áreas densamente ocupadas.
Construir uma nova linha de transmissão dentro ou perto de regiões urbanizadas pode exigir desapropriações, licenciamento, novos corredores e obras caras.
Em determinados pontos, portanto, encontrar terreno para a linha pode ser tão difícil quanto encontrar energia para o data center.
No Nordeste, a pressão vem de data centers e hidrogênio ao mesmo tempo
O Nordeste enfrenta uma situação diferente. A região possui enormes volumes de geração solar e eólica e passou a atrair projetos interessados justamente nessa eletricidade renovável.
A EPE contabilizou interesse de 21 projetos ligados à cadeia de hidrogênio, totalizando 26,7 GW de potência até 2038 na região analisada.
Também aparecem 30 projetos de data centers, somando 8,3 GW.
Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte estão entre os principais pontos observados nos estudos. O problema deixa de ser apenas retirar energia renovável do Nordeste e enviá-la para outras regiões.
Parte dessa eletricidade poderá ser consumida perto de onde é produzida.
Pecém pode precisar de uma rede muito maior
O Complexo do Pecém ajuda a visualizar essa mudança. Durante anos, a transmissão foi planejada principalmente para atender cidades, indústrias existentes e escoar geração elétrica.
Agora aparecem data centers gigantes, projetos de hidrogênio e novas fábricas eletrointensivas dentro da mesma área de influência.
Um eletrolisador usado para produzir hidrogênio consome grandes quantidades de eletricidade para separar as moléculas da água.
Quanto maior a fábrica, maior a carga permanente colocada sobre a rede. O mesmo vale para centros de processamento de dados.
Por isso, a EPE já propôs uma solução de transmissão capaz de adicionar até 4 GW de capacidade nas regiões de Pecém, no Ceará, e Parnaíba, no Piauí, a partir de 2032.
A EPE colocou 45 estudos de transmissão na programação de 2026
A resposta não está concentrada em uma única região. A programação de transmissão da EPE para 2026 reúne 45 estudos espalhados pelo país.
Desses, 22 são novos e 23 correspondem a trabalhos iniciados anteriormente.
Uma das frentes trata especificamente das grandes cargas no Nordeste, incluindo data centers e projetos de hidrogênio.
Outros estudos observam a necessidade de ampliar a infraestrutura para data centers em São Paulo, Rio de Janeiro e Região Sul.
Também entram análises de reforços para áreas com problemas de atendimento, estabilidade ou limitações de infraestrutura.
O desafio acontece enquanto o Brasil adiciona cada vez mais energia solar e eólica
O Brasil possui uma matriz elétrica com participação renovável muito elevada e continua instalando grandes quantidades de geração.
Somente em 2025, a capacidade solar cresceu 16,3 GW e a eólica ganhou outros 5,2 GW. A capacidade solar total chegou a 64,8 GW.
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As fontes renováveis responderam por 86,8% da geração elétrica brasileira naquele ano.
Mesmo assim, determinada indústria pode querer se instalar em um ponto onde a transmissão não consegue entregar toda a potência solicitada.
Ter energia no país não significa ter capacidade ilimitada em qualquer tomada.
Uma nova linha pode levar anos para sair do papel
A urgência do planejamento também vem do calendário. Um data center pode avançar rapidamente quando financiamento, terreno e clientes estão definidos.
Uma grande obra de transmissão percorre outro caminho. Primeiro surgem estudos técnicos. Depois vêm definição das instalações, licitação ou autorização, projeto executivo, licenciamento ambiental, aquisição de terrenos e construção.
Todo esse processo pode levar anos.
Se o planejamento começar apenas quando uma fábrica pedir energia, existe o risco de a linha chegar tarde demais. A EPE precisa, portanto, tentar enxergar uma demanda que ainda possui grande incerteza.
O país já prepara outro leilão bilionário de transmissão
Enquanto os estudos avançam, novas linhas continuam entrando em contratação. O Leilão de Transmissão nº 04/2026, marcado para 30 de outubro, reúne oito lotes com aproximadamente R$ 8,88 bilhões em investimentos.
Serão 1.866 quilômetros de novas linhas e 12.694 MVA de capacidade de transformação em subestações. A estimativa oficial aponta mais de 20 mil empregos diretos durante a implantação.
Essas obras não existem exclusivamente para atender data centers e hidrogênio.
Mas mostram o tamanho do ciclo de expansão necessário para manter o Sistema Interligado Nacional preparado para geração e consumo cada vez maiores.
A energia renovável pode começar a atrair fábricas para perto das próprias usinas
Durante anos, o Nordeste produziu cada vez mais eletricidade solar e eólica para enviar a outras partes do país.
Data centers e hidrogênio podem mudar parcialmente essa lógica. Em vez de transportar toda a eletricidade, o Brasil pode transportar o produto criado com ela.
Um data center usa energia para processar informações. Uma fábrica de hidrogênio usa eletricidade para produzir uma nova molécula energética.
A geração renovável deixa de ser apenas um produto enviado pela linha de transmissão e passa a funcionar como matéria-prima industrial.
Para que isso aconteça, a rede local precisa suportar consumidores que podem exigir centenas ou até milhares de megawatts.
É esse mapa que a EPE começou a redesenhar. As linhas construídas nesta década poderão determinar onde bilhões de reais em data centers, hidrogênio e novas indústrias conseguirão efetivamente sair do papel na próxima.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

