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Duas apreensões em aeroportos, que somaram 87 kg de ouro ilegal, levaram a PF a refazer a rota que ligava garimpos de terras indígenas da Amazônia à Itália e à Suíça, e agora cerca de 40 réus vão a julgamento com cobrança de R$ 10,6 bilhões

Duas apreensões em aeroportos, que somaram 87 kg de ouro ilegal, levaram a PF a refazer a rota que ligava garimpos de terras indígenas da Amazônia à Itália e à Suíça, e agora cerca de 40 réus vão a julgamento com cobrança de R$ 10,6 bilhões

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Duas apreensões em aeroportos, que somaram 87 kg de ouro ilegal, levaram a PF a refazer a rota que ligava garimpos de terras indígenas da Amazônia à Itália e à Suíça, e agora cerca de 40 réus vão a julgamento com cobrança de R$ 10,6 bilhões

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 13/10/2026 às 07:07

Mineração

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Foto: PF/Divulgação

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A Justiça Federal vai julgar cerca de 40 réus de três operações contra o ouro ilegal da Amazônia. O MPF pede mais de R$ 10,6 bilhões em reparações por danos à União, ao meio ambiente e a povos indígenas.

A Justiça Federal vai julgar cerca de 40 réus acusados de integrar um esquema de ouro ilegal da Amazônia. O metal saía de garimpos e chegava ao exterior com aparência de legal. A informação está no especial do O Globo publicado no domingo (11), que reuniu as provas das operações Sisaque, Ricezione e Emboabas.

Os réus respondem por usurpação mineral, lavagem de dinheiro, organização criminosa transnacional e gestão ilegal de instituição financeira, segundo o jornal. Além de pedir prisão, o MPF cobra mais de R$ 10,6 bilhões em reparações. O valor cobre prejuízos patrimoniais, estragos ambientais, danos morais coletivos e impactos sobre as terras indígenas.

Como duas apreensões em aeroportos levaram à rota do ouro ilegal?

Segundo O Globo, a engrenagem logística do grupo ruiu depois de duas interceptações nos pátios de aeroportos brasileiros. Em janeiro de 2020, agentes da Polícia Federal e da Receita Federal detiveram três pessoas no aeroporto de Manaus. Elas tentavam embarcar para Nova York com 35 quilos de ouro bruto, amparados por notas fiscais frias.

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Em agosto de 2021, a PF interceptou um jato executivo no Aeroporto do Campo de Marte, em São Paulo. Foram apreendidos mais 52 quilos de ouro em lingotes.

Somadas, as duas apreensões chegam a 87 quilos de ouro, conta feita a partir dos números do jornal. Depois delas, a PF montou o quebra-cabeça de uma cadeia que transformava o metal de terras indígenas e unidades de conservação em mercadoria aparentemente limpa, segundo as investigações.

De onde saía o ouro ilegal e como ele ganhava nota fiscal?

O primeiro elo do ouro ilegal, segundo O Globo, era o garimpo sem licença em áreas protegidas. Entre elas estão as terras indígenas Munduruku, Kayapó e Yanomami, além de unidades de conservação no Pará e em Roraima.

Garimpo na Terra Indígena Munduruku (PA), em 2020. Foto: Marizilda Cruppe/Amazônia Real/Amazon Watch (CC BY 4.0)

A atividade era financiada por operadores regionais no polo do Rio Tapajós. Usava escavadeiras e despejava toneladas de mercúrio nos rios.

Com o metal em mãos, o grupo investigado forjava uma origem legal. O jornal descreve dois caminhos. O primeiro eram distribuidoras de títulos e valores mobiliários, que registravam o ouro como se viesse de lavras regulares. O segundo eram laudos falsos, que rotulavam o minério como “ouro reciclado ou sucata”.

Na Operação Sisaque, de acordo com O Globo, circularam mais de R$ 4 bilhões em notas frias emitidas por empresas de fachada. Depois da nota, o ouro ilegal viajava em aviação executiva privada, com aeródromos do Sudeste como escala.

Em comunicado de 27 de maio de 2025, o MPF no Pará informou que a Justiça Federal recebeu a denúncia contra 36 pessoas na Sisaque. Os destinos listados pelo órgão incluem Emirados Árabes, Índia, Hong Kong, Itália e Suíça.

O que a análise das 43 barras de ouro apreendidas mostrou?

Os acusados sustentavam que o minério vinha de reciclagem ou de jazidas autorizadas. Para derrubar a tese, a Justiça Federal autorizou perícias de química analítica. A PF analisou 43 barras apreendidas por fluorescência de raios X. Os teores de pureza ficaram entre 80,56% e 95,95%, segundo O Globo.

A diferença entre a barra menos pura e a mais pura é de 15,39 pontos percentuais, conta feita a partir dos dois extremos citados. Para o jornal, a variação indica fusão artesanal em vários garimpos clandestinos, e não refino industrial.

O que mudou na rota do ouro ilegal depois de 2023?

A procuradora da República Sofia Freitas da Silva disse ao O Globo que, até 2023, o ouro ilegal descia do Norte para São Paulo com guias e notas falsas. Depois de 2023, a estratégia do grupo mudou. Acabou a presunção legal de boa-fé, a nota fiscal eletrônica passou a ser obrigatória e o Banco Central criou novas travas.

Ouro apreendido pela PRF em Roraima, em outro caso, não o que será julgado. Foto: PRF

Segundo ela, em entrevista ao O Globo, hoje a rede leva o metal bruto, sem documento, até Boa Vista. A saída é pela fronteira norte, com Venezuela e Guiana.

A procuradora citou apreensões em Roraima entre o fim de 2024 e o fim de 2025. Ela afirmou que o ouro segue saindo do país “às toneladas”. Os lotes foram de 100 kg, 70 kg e 50 kg, vindos do Pará e do Amazonas.

O pesquisador do Greenpeace Nilo D’Avila, ouvido pelo O Globo, aponta como maior falha o controle baseado em papéis e autodeclarações. Ele defende cruzar os processos com imagens de satélite.

Quanto ouro pode sair de um garimpo de 1 hectare?

A ação civil pública que o MPF apresentou contra a Agência Nacional de Mineração, em 17 de julho de 2026, traz um exemplo. Uma única permissão de lavra garimpeira declarou ter extraído 776 quilos de ouro. A área tinha 1,08 hectare, cerca de um campo de futebol, e a produção foi avaliada em R$ 570 milhões, segundo o comunicado do MPF no Amazonas.

A conta dá cerca de 718 quilos por hectare e perto de R$ 734 mil por quilo, a partir dos números do MPF. O órgão diz que essas permissões servem para dar aparência legal a ouro ilegal tirado de outros lugares.

No mesmo comunicado, o MPF aponta irregularidades em 98 permissões, controladas por vinte titulares. Elas declararam 25,3 toneladas de ouro, avaliadas em R$ 18,4 bilhões.

O que a Justiça já decidiu para controlar o ouro?

Em 21 de julho de 2026, o MPF no Pará informou que a Justiça Federal condenou a União, a ANM e o Banco Central. Eles terão de implantar medidas de controle e rastreabilidade do ouro, em ação que mira o metal tirado de terras indígenas e vendido com origem falsa.

A decisão manda afastar qualquer presunção de legalidade do minério ou de boa-fé de quem o compra. Os órgãos têm 180 dias para entregar o primeiro relatório, sob pena de multa.

Sobre o julgamento dos cerca de 40 réus, o O Globo registra que um dos acusados negou, em nota, participação em lavagem de ouro. Ele disse atuar como comprador de boa-fé. Os demais réus e as empresas estrangeiras citadas não se manifestaram até o fechamento da reportagem.

Todos são acusados e só a sentença dirá quem é culpado.

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ouro ilegal


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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