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Embrapa coloca árvore nativa e eucalipto à prova por seis anos e encontra no solo uma diferença que pode mudar a escolha de espécies nas pastagens brasileiras, com efeitos que chegam a cinco metros do tronco

Embrapa coloca árvore nativa e eucalipto à prova por seis anos e encontra no solo uma diferença que pode mudar a escolha de espécies nas pastagens brasileiras, com efeitos que chegam a cinco metros do tronco

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Embrapa coloca árvore nativa e eucalipto à prova por seis anos e encontra no solo uma diferença que pode mudar a escolha de espécies nas pastagens brasileiras, com efeitos que chegam a cinco metros do tronco

Escrito por Noel Budeguer

Publicado em 26/10/2026 às 20:18

Atualizado em 26/10/2026 às 20:20

Agronegócio

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Bordão-de-velho (Samanea tubulosa) em pastagem do Mato Grosso, em fotografia de estudo científico de 2025. Enquadramento adaptado. Foto: Pérez-Márquez et al./Agroforestry Systems (CC BY 4.0).

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Estudo da Embrapa em Rondônia comparou 156 árvores de bordão-de-velho com 172 eucaliptos em 14 hectares. A espécie nativa favoreceu solo menos ácido, maior matéria orgânica e diversidade de microrganismos até cinco metros.

Uma árvore nativa da América tropical apresentou resultados superiores aos do eucalipto em indicadores de saúde do solo de uma pastagem experimental na Amazônia. O bordão-de-velho (Samanea tubulosa) favoreceu uma comunidade mais diversa de microrganismos, maior presença de matéria orgânica e menor acidez do solo em uma pesquisa da Embrapa e da Universidade de São Paulo (USP).

O estudo comparou dois tipos de integração entre pecuária e árvores em 14 hectares de pastagem em Rondônia. A influência da espécie nativa sobre a microbiota foi detectada até cinco metros do tronco, enquanto a análise do carbono mostrou estoques elevados nos solos dos dois sistemas arborizados.

Embrapa plantou 156 árvores nativas e 172 eucaliptos para comparar os resultados

O experimento começou em 2018 no campo da Embrapa Rondônia, em Porto Velho. Pesquisadores dividiram uma área com capim-marandu em duas parcelas de sete hectares: uma recebeu 156 mudas de bordão-de-velho e a outra, 172 de eucalipto.

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As equipes coletaram amostras em 2022 e 2024, quatro e seis anos após o início do trabalho, em diferentes profundidades. O projeto reuniu a Embrapa e o Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP (Cena/USP) e integrou a pesquisa de doutorado de Henrique Nery Cipriani, da Embrapa Florestas.

Exemplar jovem de bordão-de-velho (Samanea tubulosa) em área aberta. Foto: Lucas Leuzinger/Wikimedia Commons (CC0).

Solo com bordão-de-velho ficou menos ácido e apresentou maior diversidade de microrganismos

A comparação revelou maior quantidade de matéria orgânica e menor acidez na área ocupada pela espécie nativa. A análise de bactérias e arqueias — grupos de microrganismos que vivem no solo — também mostrou uma comunidade mais diversa do que a identificada sob o eucalipto.

Segundo Cipriani, a influência do bordão-de-velho sobre a composição da microbiota alcançou até cinco metros de distância da árvore e camadas mais profundas do terreno. Esse alcance não foi encontrado no sistema com eucaliptos. Os resultados indicam que a escolha da árvore pode modificar uma faixa do ambiente subterrâneo além da região diretamente ocupada pelo tronco.

Microrganismos ligados ao nitrogênio e à decomposição de compostos ganharam espaço no solo

No solo associado ao bordão-de-velho, os pesquisadores identificaram maior participação de microrganismos envolvidos no ciclo do nitrogênio, na decomposição de compostos aromáticos e em outros processos biológicos. Essas funções participam da transformação de nutrientes e substâncias presentes no ambiente.

O artigo científico publicado na Revista Brasileira de Ciência do Solo descreve o sequenciamento genético utilizado para caracterizar bactérias e arqueias. O estudo também ressalta a importância dos fragmentos de floresta nativa como reservatórios de comunidades microbianas, fundamentais para a diversidade biológica da região.

Carbono chegou a 95 toneladas por hectare com a espécie nativa

Após a correção para diferenças na compactação, os pesquisadores registraram 95 toneladas de carbono por hectare no solo com bordão-de-velho, 107 toneladas no sistema com eucaliptos e 78 toneladas na área de floresta nativa usada como referência. Os três resultados foram considerados estatisticamente semelhantes, apesar das diferenças numéricas.

O sistema com a árvore nativa alcançou ainda 91,13 no Índice de Manejo de Carbono, o maior entre os arranjos produtivos avaliados. A floresta de referência recebeu índice 100. O indicador considera a condição e a dinâmica do carbono orgânico, enquanto os valores expressos em toneladas por hectare quantificam o estoque no solo.

Para os autores, os resultados são compatíveis com a conservação ou recuperação de parte do carbono perdido após mudanças antigas no uso da área. A divulgação da Embrapa destaca o potencial dos sistemas silvipastoris para o manejo do carbono nas pastagens amazônicas.

Bordão-de-velho oferece sombra ao gado e produz vagens consumidas pelos bovinos

A escolha da espécie também traz características visíveis acima do solo. A árvore forma uma copa que oferece sombra aos animais e produz vagens aproveitadas pelos bovinos. Ela pertence ao grupo das leguminosas, associado a processos biológicos de nitrogênio, mas a medição direta de fixação do nutriente pela espécie em solos amazônicos ainda é uma das lacunas identificadas pelos pesquisadores.

O eucalipto tem vantagem no aproveitamento comercial de madeira. O bordão-de-velho reúne características voltadas à diversificação da pastagem, como sombreamento, frutos e associação com comunidades microbianas. O experimento de Rondônia mediu principalmente propriedades do solo; os possíveis efeitos diretos sobre ganho de peso dos animais e produção de leite ainda precisam de avaliações específicas.

Painel mostra vagens maduras de bordão-de-velho e bovinos consumindo alimento em cocho. Foto: Pérez-Márquez et al./Agroforestry Systems (CC BY 4.0).

Estudo científico aponta limites para expansão em outras regiões

Uma revisão científica sobre o potencial do bordão-de-velho identifica questões em aberto sobre crescimento das árvores, fixação de nitrogênio, desempenho do gado e retenção de carbono ao longo de períodos maiores. Os autores recomendam avaliações em outras localidades e condições de solo e manejo antes de orientar sua adoção em grande escala.

O artigo científico também identificou maior resistência à penetração no solo e menor disponibilidade de potássio nos sistemas integrados em comparação com a floresta nativa. Esses resultados mostram que a análise da qualidade do terreno depende de diferentes indicadores químicos, físicos e biológicos, mesmo quando a biodiversidade microbiana melhora.

Experimento de seis anos amplia as opções para arborizar pastagens brasileiras

O trabalho publicado em 2026 acrescenta uma nova evidência para pecuaristas que avaliam a integração de árvores ao pasto: espécies diferentes podem alterar a fertilidade e a vida microscópica do solo de formas distintas. Em Porto Velho, a equipe conseguiu comparar uma árvore nativa da região tropical com o eucalipto, espécie usada comercialmente em diversos sistemas produtivos.

Os próximos estudos poderão medir como o bordão-de-velho se comporta em outros biomas e se seus benefícios ao solo acompanham ganhos mensuráveis na criação de gado.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

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